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segunda-feira, 18 de junho de 2018

Sobre uma Liturgia em "Tempos líquidos"

Por: Pe. Marcos Sulivan Vieira
Há algum tempo a Liturgia católica tem sofrido com abusos que beiram o limite do tolerável. Em vários lugares o culto é submetido ao arbítrio dos ministros sagrados ou mesmo das comunidades e grupos que, sem perceber os danos que causam à Igreja, arrogam para si o direito de deitar normas litúrgicas. E o mais triste de tudo isso é que aqueles que deveriam ensinar o correto são, na verdade, os disseminadores do erro.

A Igreja – e, consequentemente, a sua Liturgia – não vive da última moda, lançada de cá para lá ao sabor dos ventos e das doutrinas. A Liturgia católica não é propriedade deste ou daquele padre, desta ou daquela paróquia, deste ou daquele grupo. A Liturgia é um patrimônio da Igreja inteira, que cresceu organicamente ao longo de séculos, e não uma fabricação de um grupo de “liturgistas” (sic!). Constata-se, e não sem pesar, que o culto, especialmente o Santo Sacrifício da Missa, tem sido manipulado arbitrariamente sob o falso pretexto de uma suposta ação evangelizadora. Existe sim uma crise de identidade, fruto dos “tempos líquidos” nos quais vivemos. São tempos de uma silenciosa apostasia na qual vai-se impondo sempre mais violentamente aquela ditadura do relativismo profetizada pelo então Cardeal Ratzinger.

Multiplicam-se nas nossas Igrejas Missas “com sobrenome” que pouco ou nada tem a ver com a essência da Santa Missa. São celebrações projetadas para agradar ao homem e satisfazer seus desejos. Trata-se, em última análise, da exaltação do homem nas suas múltiplas expressões… desde a Missa “Sertaneja” à Missa “Show”. Nessas celebrações o fiel oscila entre várias comparações possíveis: desde uma balada a um programa sertanejo, com direito café coado na hora!

A Santa Missa é o supremo ato de culto a Deus no qual continuamente se imola a Vítima Imaculada, o próprio Filho de Deus feito carne que entregou-se à morte pela humanidade e assim nos abriu novamente o Céu que o pecado de Adão fechara. Um ato de tamanha grandeza – grande porque é ação do próprio Deus – é sublime demais para se submeter aos nossos esquemas e às nossas ideologias.

Penso que, ao invés de contribuírem para uma polarização entre conservadores e progressistas, os fieis (e, em particular, os ministros sagrados) deveriam fazer uma análise séria e honesta sobre os frutos autênticos de conversão que ainda colhemos e de que galhos eles provém. Se os fieis procuram a Igreja é precisamente porque desejam achar nela algo que acrescente à sua fé e não as mesmas realidades que encontram fora da Igreja. Do ponto de vista da Liturgia, penso que é lícito afirmar que os fieis buscam um verdadeiro encontro com Deus que dê sentido ao encontro com os irmãos. Infelizmente, como foi dito, o que se vê em muitas das nossas liturgias é a exaltação do homem, das suas potencialidades e ideologias. Tudo isso faz desaparecer a essência do culto divino. Por vezes, parece que importa mais “criar” uma liturgia agradável aos sentidos e apetites humanos que render verdadeiro culto de adoração a Deus. Acaso não percebemos isso nas nossas igrejas?

Neste Ano do Laicato, os fieis leigos deveriam ter a coragem de exigir dos seus pastores – exigir sim, porque a isso tem direito – uma liturgia na qual o centro seja Deus e não o sacerdote, Cristo e não o homem. Exigir o homem não seja colocado como medida de um suposto sucesso, mas alçado a uma relação verdadeira com Deus. A experiência dos últimos anos demonstra de modo claro que pouco ou nada de espiritual floresce onde se põe o homem e seus sentimentos no centro de tudo. Ao contrário – e a História da Igreja o prova – florescem virtudes e cresce a santidade quando Deus é o cerne da Liturgia e do cotidiano, da fé e da vida. Que este Ano especial suscite no coração dos fieis o desejo por uma Liturgia teocêntrica e nos pastores a consciência da missão que tem de anunciar com autenticidade e fidelidade os grandes mistérios que lhes foram entregues.


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