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quinta-feira, 10 de abril de 2014

Sermão do depósito e julgamento


Por: Padre Lucas

O SIGNIFICADO DA SEMANA SANTA

A primeira Semana Santa, pelo plano de Deus, foi a semana mais importante da vida de Jesus Cristo. Esta nossa semana santa, da mesma forma, deverá ser a semana mais importante da vida de cada um de nós. 
Deve ser uma semana de oração e reflexão, da compreensão dos eventos da paixão de Jesus Cristo, do conhecimento da mensagem de Deus para seu povo.

INTRODUÇÃO:

Local: toda a paixão de Cristo ocorre em Jerusalém e seus arredores; 

Época: provavelmente no ano 30 d.C., durante a semana da páscoa dos judeus, entre o 9º e o 16º do mês judaico de Nisã (março/abril). Jerusalém lotada de peregrinos; 
Condições políticas: a nação judaica estava sujeita a Roma. Seu governador era Pôncio Pilatos; os judeus eram legislados pelo sumo-sacerdote Caifás e pelo conselho dos 70 anciãos. Na Galiléia, região do norte da palestina, Herodes era o rei; 
Acontecimentos recentes: Jesus de Nazaré, que por três anos pregou o Reino de Deus, operou milagres, e finalmente tinha sido proclamado o Filho de Deus, crescia em popularidade de tal forma que os sacerdotes judaicos viram nele séria ameaça a sua autoridade sobre o povo. A recente ressurreição de Lázaro fez com que muitas pessoas acreditassem em Jesus.Os líderes judaicos haviam planejado matar Lázaro e Jesus por incitar motins, e então acabar com a revolta que pudesse estar surgindo. Entretanto, como nação sujeita, subjugada, não poderiam condenar ninguém à morte. Apenas o imperador romano possuía tal autoridade. Agora, com a páscoa dos judeus, havia uma deixa. Sob estas circunstâncias começa a Semana Santa...

SEGUNDA-FEIRA SANTA

Os eventos dos próximos 3 ou 4 dias não estão claramente divididos nos Evangelhos, mas o caminho é demonstrado pelas ações de Nosso Senhor na segunda-feira. Sua atividade neste período foi intensa. Não nos foi relatado todas as ações. Ele era protegido pelo povo nas suas disputas com as autoridades. Nosso Senhor viria a Jerusalém pela manhã, ficaria três dias ali, ensinando e discursando no Templo, à noite sairia da cidade, e se retiraria ao monte das Oliveiras (onde estavam Bethânia e Getsêmani). Vindo cedo à Jerusalém, Nosso Senhor encontrou uma figueira que tinha folhas mas não frutos - um símbolo do judaísmo, cuja religião possui muitas folhagens e práticas, mas sem espírito interior e sem frutos.

DA ESCUTA DA PALAVRA NASCE A FÉ

Um dos grandes temas da Escritura é a escuta da Palavra de Deus.
Vem desde o Gênese, percorre todos os profetas e é uma das chamadas constantes dos Evangelhos.
Um dos milagres esperados do Messias era a cura da surdez. Não a surdez física, mas o fechamento diante da Palavra do Senhor.
Ao longo de toda a história, o homem se faz de auto-suficiente e quer satisfazer apenas seus desejos.
Em torno deles, reza e trabalha. Mas isso não satisfaz a raiz do ser humano. Um de seus dramas é sair de seus próprios interesses que, ao final, perfazem um círculo vicioso, e alcançar o transcendente.
Jesus, hoje, nos diz que essa fome se sacia na escuta da Palavra de Deus.
Essa escuta não impede o trabalho, mas lhe dá sentido e se torna condição de boa oração.
Jesus falando do primeiro e do maior mandamento acentuou a dimensão horizontal do amor. Neste Evangelho que acabamos de meditar, acentua a dimensão vertical.
Na oração do Pai Nosso acentuará a dimensão comunitária, que funde e equilibra a horizontal e a vertical.

UMA PARADA ESTRATÉGICA, UMA PARADA DE AMIZADE

Jesus estava viajando. Chegando a um povoado, uma mulher, chamada Marta, o recebeu em sua casa.
Maria, irmã dela, foi sentar-se aos pés do Senhor, e estava ouvindo os seus ensinamentos. Enquanto Marta ficava fazendo o trabalho todo da casa.
Aí, ela chegou para Jesus e disse: “O Senhor não está vendo que eu estou fazendo tudo sozinha? Deixe a minha irmã vir me ajudar!”
Então Jesus falou assim com ela: “Marta, Marta! Você está aflita e preocupada com tantas coisas! Uma só chega! Maria escolheu primeiro o que é melhor. E isto ninguém, vai tomar dela! (Lc 10,38-42)

O Evangelho nos coloca diante de duas mulheres privilegiadas dentro da vida pública de Jesus: Marta e Maria, irmãs de Lázaro, a quem Jesus ressuscitara depois de quatro dias de morto. (Jo 11)

Jesus era amigo pessoal dos três. (Jo 11,5) e costumava hospedar-se em sua casa todas as vezes que ia a Jerusalém. Eles moravam em Betânia, um lugarejo distante quinze quilômetros de Jerusalém, situado no sopé do Monte das Oliveiras, porém, na encosta contrária àquela que se volta para Jerusalém e onde se situava o horto da Paixão.

Vindo pelo caminho que beirava o Jordão, subia-se por Betânia, passava-se por Betfajé e, do alto da colina, se avistava a cidade santa.
Ora, para entrar em Jerusalém, os peregrinos costumavam lavar-se antes.
Era em Betânia, na casa de Lázaro, Marta e Maria, que Jesus costumava cumprir este ritual.

Entende-se, assim, melhor a cena de hoje: Uma cena familiar, que Lucas soube transformar em grande lição.
Ele é o único evangelista a descrever o fato. Banho tomado, Jesus e os apóstolos descansavam da viagem e esperavam a refeição.
Maria escutava Jesus. Qualquer dona de casa sabe que dar de comer a treze homens chegados de viajem, exige uma série de preparativos rápidos.

Era o que Marta estava fazendo, exatamente como qualquer dona-de-casa faria e faz ainda hoje.

Há um pormenor: Ao colocar as duas mulheres quase no centro da cena, Lucas de novo se mostra um evangelista universal, isto é, que chama sempre a atenção para o fato de que Jesus viera para todos.
As mulheres, naquele tempo, não eram contadas para nada, nem sequer lhes era permitido ouvir um rabino para se instruir. 

A ESCUTA DA PALAVRA DÁ SENTIDO À ORAÇÃO

Outra observação ainda: Lucas coloca o episódio não em ordem histórica ou geográfica, mas numa seqüência de ensinamentos.
Jesus acabara de responder ao doutor da lei qual era o maior mandamento e exemplificara com a parábola do bom Samaritano (Lc 10,25-37).
Acentuara portanto, a caridade, o amor transformado em obra prática. Logo depois da lição de hoje, vem o ensinamento do Pai Nosso. Parece-me então, que devemos ler o trecho de hoje iluminado pela caridade verdadeira e pela sadia oração.
A caridade pressupõe a oração, e esta, necessariamente, leva à caridade.
Entre as duas, está a escuta da Palavra de Deus, para que a caridade tome sentido divino, e a oração não se torne egoísta e vazia.
Se olharmos dentro do nosso coração, veremos que inúmeras vezes nossas obras caritativas não passam de gestos vaidosos, e a nossa oração é um comentário egoísta de nossos interesses pessoais.

A PRÁTICA DA VIDA CRISTÃ NASCE DA ESCUTA DA PALAVRA

A expressão “estava ocupada com muitos afazeres” ou “andava atarefada com o serviço” é uma tradução não inteiramente exata do vocábulo grego original, que traz consigo a idéia de “distração”
Marta estava atarefada sim, porém seu trabalho a fazia ficar distraída (não ouvia a Palavra de Jesus).
O trabalho é necessário e bom. O trabalho (como de Marta) pode ser expressão de caridade. Mas só o será se não for empecilho para a escuta da Palavra de Deus. E a oração rezada só terá sentido se ligada à escuta da Palavra de Deus.

E o que é escutar a Palavra de Deus?
São Paulo, na carta ao romanos, dirá que “a fé nasce da escuta da Palavra de Cristo” (Rm 10,17).
Em certo momento, Jesus elogia a grandeza de sua mãe, não apenas pela maternidade, mas por “escutar a Palavra de Deus” (Lc 11,28).
E diz aos judeus que o pecado deles consiste em “não escutar a palavra de Deus” (Jo 8,43).
Escutar a Palavra de Deus é não só lê-la com os olhos ou ouvi-la com os ouvidos, mas transformá-la em prática de vida, em forma de oração e em obras (Mt 7,24).
A todos é dada esta graça. Todos são chamados a essa experiência, a esse esforço. Condição, aliás, para se entender o que significa viver cristãmente.

Fonte: www.padrelucas.com.br/informaximo/arquivo/download.asp?arquivo

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