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terça-feira, 29 de abril de 2014

IL Carceri


Francisco é, para muitos de nós, mais de que uma lembrança do passado. É alguém cujo espírito palpita junto com nossos corações desejosos de viver a vida segundo o Evangelho. Nesta rubrica de nosso Tirando do Baú… vamos  dar a voz a Julien Green que escreveu uma inteligente biografia do santo (São Francisco de Assis, Livr. Francisco Alves, Rio, 1988). O texto descreve o eremitério dos  Carceri. Esta descrição  permite ao autor e a nós abordar e refletir sobre essa tensão que precisa existir na alma franciscana:  contemplação e ação.


Um pouco mais tarde, no verão,  Francisco recebeu ainda uma doação de seus amigos beneditinos. Eles lhe ofereceram os  Carceri (as prisões), essas cavernas, onde nos primeiros tempos de sua conversão Francisco tinha vindo procurar a solidão, protegido por seu misterioso amigo. Eram covas de grande verdor escondidas  nos bosques, nos flancos onde o silêncio só era perturbado pelo barulho de uma torrente. Bernardo e Silvestre foram os primeiros contemplativos franciscanos a se refugiar nessas prisões a partir dos quais a alma se evadia. Depois os irmãos construíram ali um pequeno eremitério.
Desde o começo houve duas correntes distintas de espiritualidade  franciscana: vida ativa e vida contemplativa. A vida ativa se situava entre as obras de apostolado, a pregação, é claro, a caridade sob todas as suas formas: trazer de volta uma população propensa frequentemente a  voltar ao paganismo e socorrer os infelizes.
A vida contemplativa é quase impossível de se resumir em algumas frases. Que se pense nas inúmeras obras que tratam desse assunto. Sem risco de perder-se em explicações confusas, pode-se pelo menos propor isto: a contemplação pede que o ser se deixe a si mesmo para dar lugar a Deus e ser para Ele. Tanto quanto possamos nos dar conta disso, não se trata somente de abandonar um gênero de vida que cria obstáculo à vida interior, mas na solidão e no silêncio, separar-se das preocupações do mundo, afastar a lembrança daquilo que o século XVII chamaria de “divertissement” sob todas as suas formas, tudo o que os olhos podem ver, os ouvidos escutar, tudo o que os sentidos podem experimentar. Isso não passa de um começo: obter o silêncio interior absoluto, fazer calar o tumulto de nossos pensamentos, expulsar  todas as nossas ideias, sobretudo aquelas que formamos de Deus que são quase invariavelmente falsas. Nessa nudez do espírito, a alma fiel terá as melhores oportunidades de ir em direção Àquele que a criou. Para tanto haverá de se  partir da humanidade de Cristo para se elevar até o mistério da Trindade…
Das alturas do Subásio,  por escapadelas ao meio dos pinheiros e faias, contemplar toda a planície e, mais alto ainda, acima da floresta escura o monte exibe seu crâneo tonsurado. Compreendemos melhor o que procuravam homens como Silvestre e Bernardo em suas cavernas onde os barulhos do mundo não chegavam: “Olhem lá meus cavaleiros da Távola Redonda”, dizia  Francisco,  “os irmãos que se escondem nos lugares desertos para se entregar com mais fervor à meditação…
Sua santidade era conhecida  de Deus, mas frequentemente ignorada pelos irmãos e homens.  E quando suas almas forem apresentadas pelos  Anjos ao Senhor, o Senhor lhes revelará a recompensa de suas penas, a multidão de almas salvas por suas preces. E ele lhes dirá: ‘Meus filhos, vejam as almas salvas pelas preces de vocês; já que vocês foram fiéis nas pequenas coisas. Eu vos confiarei as grandes’”.  É a linguagem dos grandes místicos.
“Quanto ao próprio Francisco, ele mesmo mergulhava  à noite naquele abismo da procura de Deus e, de dia, participava da vida de sua comunidade, mas tinha as graças particulares e  indispensáveis para pratica um e outro modos de vida”.
(Frei Almir Ribeiro Guimarães, OFM)

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