Ordem dos Frades Menores Conventuais - Custódia Provincial Imaculada Conceição - Franciscanos Conventuais do Rio de Janeiro - PAZ & BEM!!!

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Confraternização Pascal entre os Frades

Retomando um antigo costume, os frades se reuniram hoje em Araruama/RJ, para celebrarem juntos as festividades pascais a nível de jurisdição. Como é impossivel realizar tal encontro durante a oitava de páscoa devido aos trabalhos pastorais paroquiais, foi AGENDADO no fim do ano passado esta data para celebrar a fraternidade e o convívio entre os irmãos! Alguns frades não puderam comparecer por motivos pessoais (?) e outros compromissos pastorais assumidos na mesma data, no entanto, a alegria do estar juntos prevaleceu durante todo o dia com um "amigo oculto pascal" e um animado e disputado Bingo com excelentes premiações!
A experiência de hoje deixou claro o quanto é importante os frades encontrarem-se para celebrar a vida e o ser franciscano pela oração, pelo contato fraterno e pelo momento lúdico.















terça-feira, 29 de abril de 2014

IL Carceri


Francisco é, para muitos de nós, mais de que uma lembrança do passado. É alguém cujo espírito palpita junto com nossos corações desejosos de viver a vida segundo o Evangelho. Nesta rubrica de nosso Tirando do Baú… vamos  dar a voz a Julien Green que escreveu uma inteligente biografia do santo (São Francisco de Assis, Livr. Francisco Alves, Rio, 1988). O texto descreve o eremitério dos  Carceri. Esta descrição  permite ao autor e a nós abordar e refletir sobre essa tensão que precisa existir na alma franciscana:  contemplação e ação.


Um pouco mais tarde, no verão,  Francisco recebeu ainda uma doação de seus amigos beneditinos. Eles lhe ofereceram os  Carceri (as prisões), essas cavernas, onde nos primeiros tempos de sua conversão Francisco tinha vindo procurar a solidão, protegido por seu misterioso amigo. Eram covas de grande verdor escondidas  nos bosques, nos flancos onde o silêncio só era perturbado pelo barulho de uma torrente. Bernardo e Silvestre foram os primeiros contemplativos franciscanos a se refugiar nessas prisões a partir dos quais a alma se evadia. Depois os irmãos construíram ali um pequeno eremitério.
Desde o começo houve duas correntes distintas de espiritualidade  franciscana: vida ativa e vida contemplativa. A vida ativa se situava entre as obras de apostolado, a pregação, é claro, a caridade sob todas as suas formas: trazer de volta uma população propensa frequentemente a  voltar ao paganismo e socorrer os infelizes.
A vida contemplativa é quase impossível de se resumir em algumas frases. Que se pense nas inúmeras obras que tratam desse assunto. Sem risco de perder-se em explicações confusas, pode-se pelo menos propor isto: a contemplação pede que o ser se deixe a si mesmo para dar lugar a Deus e ser para Ele. Tanto quanto possamos nos dar conta disso, não se trata somente de abandonar um gênero de vida que cria obstáculo à vida interior, mas na solidão e no silêncio, separar-se das preocupações do mundo, afastar a lembrança daquilo que o século XVII chamaria de “divertissement” sob todas as suas formas, tudo o que os olhos podem ver, os ouvidos escutar, tudo o que os sentidos podem experimentar. Isso não passa de um começo: obter o silêncio interior absoluto, fazer calar o tumulto de nossos pensamentos, expulsar  todas as nossas ideias, sobretudo aquelas que formamos de Deus que são quase invariavelmente falsas. Nessa nudez do espírito, a alma fiel terá as melhores oportunidades de ir em direção Àquele que a criou. Para tanto haverá de se  partir da humanidade de Cristo para se elevar até o mistério da Trindade…
Das alturas do Subásio,  por escapadelas ao meio dos pinheiros e faias, contemplar toda a planície e, mais alto ainda, acima da floresta escura o monte exibe seu crâneo tonsurado. Compreendemos melhor o que procuravam homens como Silvestre e Bernardo em suas cavernas onde os barulhos do mundo não chegavam: “Olhem lá meus cavaleiros da Távola Redonda”, dizia  Francisco,  “os irmãos que se escondem nos lugares desertos para se entregar com mais fervor à meditação…
Sua santidade era conhecida  de Deus, mas frequentemente ignorada pelos irmãos e homens.  E quando suas almas forem apresentadas pelos  Anjos ao Senhor, o Senhor lhes revelará a recompensa de suas penas, a multidão de almas salvas por suas preces. E ele lhes dirá: ‘Meus filhos, vejam as almas salvas pelas preces de vocês; já que vocês foram fiéis nas pequenas coisas. Eu vos confiarei as grandes’”.  É a linguagem dos grandes místicos.
“Quanto ao próprio Francisco, ele mesmo mergulhava  à noite naquele abismo da procura de Deus e, de dia, participava da vida de sua comunidade, mas tinha as graças particulares e  indispensáveis para pratica um e outro modos de vida”.
(Frei Almir Ribeiro Guimarães, OFM)

domingo, 27 de abril de 2014

"O Papa da docilidade e o Papa da família"

Uma incontável multidão participa, na Praça de São Pedro e imediações, assim como nos variados locais de Roma através de ecrans gigante, na Missa de canonização de João XXIII e de João Paulo II. Sobressaem os polacos e, entre os italianos, especialmente os fiéis da diocese de Bérgamo, terra natal do Papa Roncalli. Presente, concelebrando a Missa, o papa emérito, Bento 
Como prevê o ritual, a celebração começou com o pedido, apresentado pelo cardeal Prefeito da Congregação para as Causas dos Santos. No momento da proclamação solene, intensos os aplausos da imensa assembleia. 

Na homilia, Papa Francisco começou por comentar o Evangelho do dia, em que – observou – “encontramos as chagas gloriosas de Jesus ressuscitado”. Tomé, que não se encontrava presente na primeira manifestação do Senhor, disse que “se não visse e tocasse aquelas feridas, não acreditaria”. Oito dias depois, Jesus apareceu de novo no Cenáculo e, dirigindo-Se a ele, convidou-o a tocar as suas chagas. E então aquele homem sincero, habituado a verificar tudo pessoalmente, ajoelhou-se diante de Jesus e disse: «Meu Senhor e meu Deus!» (Jo 20, 28). 

Se as chagas de Jesus podem ser de escândalo para a fé (fez notar o Papa Francisco), são também a verificação da fé. 

“É por isso que no corpo de Cristo ressuscitado as chagas não desaparecem, continuam, porque aquelas chagas são o sinal permanente do amor de Deus por nós, sendo indispensáveis para crer em Deus: não para crer que Deus existe, mas sim que Deus é amor, misericórdia, fidelidade.” 

Citando Isaías, São Pedro escreve aos cristãos: «pelas suas chagas, fostes curados».

“S. João XXIII e S. João Paulo II tiveram a coragem de contemplar as feridas de Jesus, tocar as suas mãos chagadas e o seu lado trespassado. Não tiveram vergonha da carne de Cristo, não se escandalizaram d’Ele, da sua cruz; não tiveram vergonha da carne do irmão (cf. Is 58, 7), porque em cada pessoa atribulada viam Jesus. 
Foram dois homens corajosos, cheios da parresia do Espírito Santo, e deram testemunho da bondade de Deus, da sua misericórdia, à Igreja e ao mundo.” 

Por outro lado - prosseguiu Papa Francisco – ambos eles foram sacerdotes, bispos e papas do século XX. 

“Conheceram as suas tragédias, mas não foram vencidos por elas. Mais forte, neles, era Deus; mais forte era a fé em Jesus Cristo, Redentor do homem e Senhor da história; mais forte, neles, era a misericórdia de Deus que se manifesta nestas cinco chagas; mais forte era a proximidade materna de Maria.” 

Nestes dois homens contemplativos das chagas de Cristo e testemunhas da sua misericórdia, habitava «uma esperança viva», juntamente com «uma alegria indescritível e irradiante» (1 Ped 1, 3.8). 

“A esperança e a alegria que Cristo ressuscitado dá aos seus discípulos, e de que nada e ninguém os pode privar. A esperança e a alegria pascais, passadas pelo crisol do despojamento, do aniquilamento, da proximidade aos pecadores levada até ao extremo, até à náusea pela amargura daquele cálice. Estas são a esperança e a alegria que os dois santos Papas receberam como dom do Senhor ressuscitado, tendo-as, por sua vez, doado em abundância ao Povo de Deus, recebendo sua eterna gratidão.” 

“Esta esperança e esta alegria respiravam-se na primeira comunidade dos crentes, em Jerusalém, de que nos falam os Actos dos Apóstolos na primeira leitura. É uma comunidade onde se vive o essencial do Evangelho, isto é, o amor, a misericórdia, com simplicidade e fraternidade. 
E esta é a imagem de Igreja que o Concílio Vaticano II teve diante de si.” 

“João XXIII e João Paulo II colaboraram com o Espírito Santo para restabelecer e actualizar a Igreja segundo a sua fisionomia originária, a fisionomia que lhe deram os santos ao longo dos séculos” – prosseguiu Papa Francisco, sublinhando que “são precisamente os santos que levam avante e fazem crescer a Igreja.” A docilidade ao Espírito foi “o grande serviço” do Papa João XXIII à Igreja 

“Na convocação do Concílio, João XXIII demonstrou uma delicada docilidade ao Espírito Santo, deixou-se conduzir e foi para a Igreja um pastor, um guia-guiado, guiado pelo Espírito. 
Este foi o seu grande serviço à Igreja; foi o Papa da docilidade ao Espírito Santo.” 

Por sua vez, neste serviço ao Povo de Deus, João Paulo II foi o Papa da família. 

“João Paulo II foi o Papa da família. Ele mesmo disse uma vez que assim gostaria de ser lembrado: como o Papa da família. Apraz-me sublinhá-lo no momento em que estamos a viver um caminho sinodal sobre a família e com as famílias, um caminho que ele seguramente acompanha e sustenta do Céu” 

E o Papa Francisco concluiu a homilia fazendo votos de “que estes dois novos santos Pastores do Povo de Deus intercedam pela Igreja para que, durante estes dois anos de caminho sinodal, seja dócil ao Espírito Santo no serviço pastoral à família. Que ambos nos ensinem a não nos escandalizarmos das chagas de Cristo, a penetrarmos no mistério da misericórdia divina que sempre espera, sempre perdoa, porque sempre ama.” 

A concluir a celebração, “esta festa da fé” (disse), antes da recitação da antífona mariana do Tempo Pascal, o Papa Francisco saudou e agradeceu todos os “irmãos Cardeais e os numerosíssimos Bispos e padres de todas as partes do mundo”. Um reconhecimento especial dedicou-o às Delegações oficiais de tantos países, vindas a Roma “para prestar homenagem (afirmou o Papa) a dois Pontífices que contribuíram de maneira indelével para a causa do desenvolvimento dos povos e da paz”.
Saudados também expressamente os peregrinos das dioceses de Bérgamo e de Cracóvia, terras de origem dos dois novos santos.
Agradecimentos foram expressos às autoridades italianas e da cidade de Roma, pela “preciosa colaboração” prestada à organização deste evento que terá trazido à Cidade Eterna umas 800 mil pessoas, assim como a tantas organizações e associações que deram o próprio contributo e os tantos voluntários.

terça-feira, 22 de abril de 2014

Notícias Franciscanas: São Francisco em Roma

Por: Raffaello Siniscalco
Ajude-nos a deixar o mundo saber e para restaurar a Casa Romana de São Francisco de Assis, símbolo de fraternidade, tolerância e amor pela natureza.
Este projeto também é apoiado por Franco Zeffirelli, Liliana Cavani, alguns dos alunos do "Estúdio de atuação Stella Adler " de Nova York e os mais novos benfeitores do Mosteiro de São Francisco, em Roma.

Franco Zeffirelli: Irmão Sol, Irmã Lua

Liliana Cavani: Francesco

A RESTAURAÇÃO 

Quando São Francisco de Assis costumava ir a Roma entre 1209 e 1223 para encontrar com o Papa, a sua casa era um pequena cela, onde viveu e assistia os leprosos. Depois de oito séculos esse lugar agora requer um trabalho de restauração substancial, a fim de preservar a seu inestimável valor espiritual e as suas antigas obras de arte. 

Seu apoio de restauração da cela irá não só fornecer  a visitação público gratuito a este local histórico, mas também a conservação das obras de arte que fazem parte do patrimônio cultural mundial.

SÃO FRANCISCO DE ASSIS 

São Francisco de Assis (1182-1226) é conhecido e amado em todo o mundo por sua decisão de desistir de sua riqueza material em favor dos pobres, na verdade, um gesto muito corajoso, difícil e digno. 
Parte do afresco "Sermão aos pássaros", de Giotto di Bondone e detalhe do retrato de São Francisco por Margaritone d'Arezzo
Francisco era um amante da natureza, um pacifista e alguém que era tolerante com aqueles que eram diferentes. Ele estava ativamente engajado em questões sociais e não se retirou dos males do mundo, mas sim lutou pessoalmente por uma sociedade mais justa e fraterna. 

Francisco não tinha preconceitos sociais, étnicos ou religiosos, simplesmente sentiu que era irmão de todas as criaturas. Acreditamos que o seu exemplo ainda está muito vivo, porque ele não espera que os outros mudem, mas tenta viver com eles na fraternidade.

A CELA 

O primeiro contato de São Francisco de Assis com o local foi em 1209, quando ele veio a Roma para encontrar o Papa Inocêncio III. Durante esta visita, o nobre romana Jacoba de 'Settesoli' ajudou a São Francisco encontrar um lugar para ficar no mosteiro-hospital dos monges beneditinos, que foi localizado perto das margens do Rio Tibre. 


São Francisco de Assis sempre foi muito apaixonado por este lugar e ficou ali em diversas ocasiões durante suas viagens à Roma. Após a morte do santo e por ordem do Papa Gregório IX, o mosteiro beneditino passou para a Ordem Franciscana em 1229.

No início do século XVII, a cela de São Francisco estava em perigo de ser demolida durante a reforma do mosteiro. O alojamento atual foi concluída em 1698. Há uma inscrição na entrada do cela que lembra a aparição de São Francisco de Assis, em um sonho pelo cardeal Alessandro Peretti Montalto.

Um altar de madeira feita pelo marceneiro franciscano Bernardino da Jesi (século XVII) está dentro da cela, no centro,  e nela um retrato de São Francisco (pintura a têmpera) feita pelo pintor toscano Margaritone d'Arezzo (1262-1305).

No lado direito da parede encontra-se a pedra sobre a qual São Francisco de Assis deitou sua cabeça enquanto ele descansava, enquanto que, no lado esquerdo, há uma foto do Papa João Paulo II, de joelhos em oração, durante a sua visita no dia 1 de dezembro de 1991.

A cela de São Francisco está localizada no primeiro andar da igreja romana e mosteiro de São Francesco a Ripa, no bairro antigo Trastevere.


Edição limitada de "Cum deceat vos esige": selo papal do Papa Gregório IX datado 1229, que declara a transferência de hospital/mosteiro 'dos monges beneditinos aos frades franciscanos'


Mais informações (em Italiano, Inglês , espanhol e russo) sobre a história desta igreja está disponível no site www.sanfrancescoaripa.com .

O desafio mais importante para nós é alcançar U$ 125,000 para financiar o projeto. Se atingir a meta, o trabalho de restauração será iniciado. 

Optamos por uma equipe de restauradores altamente qualificados, que já trabalharam na área do patrimônio cultural e artístico e é capaz de resolver rapidamente qualquer problema. 

Nós já temos todas as autorizações necessárias e esperamos concluir o trabalho de restauração em cinco meses. Esse tempo nos permite enfrentar eventos inesperados. 

Nosso prazo de inauguração é de 04 outubro de 2014!

Fonte de texto e fotos: https://www.kickstarter.com/projects/671087979/st-francis-in-rome-the-restoration?ref=card (tradução SFC)

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Semana Santa na Ordem Franciscana

O Cristo pobre e crucificado


Qual é o Cristo que Francisco pretende seguir? Em outras palavras, a nossa atenção se volta para a visão ou imagem que Francisco tem de Cristo.

Até a época de Francisco, o aspecto que mais sobressaía era o do Cristo Rei e Senhor. Até a iconografia apresentava Cristo como glorioso, como aquele que ressuscitou e que agora reina eternamente à direita de Deus Pai. O Cristo crucificado, por exemplo, não era apresentado como alguém que sofre, mas, antes, como alguém que, apesar de estar pregado na cruz, reina soberanamente sobre o mundo. Basta conferir os ícones de Cristo crucificado de origem bizantina, ícones que tiveram muita aceitação e imitação na arte da Igreja latina.

O Crucifixo, conhecido como Crucifixo de São Damião. O Crucifixo de São Damião foi pintado no século XII por um desconhecido artista da Úmbria, região da Itália. A pintura é de estilo romântico, sob clara influência oriental: o pedestal sobre o qual estão os pés de Cristo pregados separadamente; e de influência siríaca: a barba de Cristo; a face circundada pelo emoldurado dos cabelos; a presença dos anjos e cruz com a longa haste segurada na mão, por Cristo (só visível na pintura original), no alto, encimando a cruz. 
O Crucifixo original de São Damião está guardado com grande zelo pelas irmãs Clarissas, na Basílica de Santa Clara de Assis, e é visitado por estudiosos, devotos e turistas do mundo todo. É um monumento histórico franciscano e universal, por exemplo, diante do qual Francisco rezava, apresenta o Cristo pregado na cruz sem dor, sem sofrimento, espelhando mais a teologia do Cristo glorioso e eterno. O aspecto acentuado era, portanto, o de Cristo como Deus, embora não se negasse o aspecto de Cristo como homem.

"A paixão de Cristo será sempre objeto de meditação por parte de Francisco, por ser o sofrimento a realidade que mais revela até que ponto Cristo assumiu a nossa humanidade. Mesmo a Eucaristia é vista como um prolongamento da encarnação do Filho de Deus: como o Filho de Deus se encarnou no útero de Maria, assim ele se encarna cada dia nas mãos do sacerdote sobre o altar, na celebração eucarística"

São Bernardo de Claraval, que viveu no século anterior a São Francisco (* 1090 ou 1091; + 1153), já chamava a atenção para a humanidade de Cristo. Mas foi Francisco que deu uma reviravolta na piedade e na devoção popular, trazendo o Cristo da eternidade para a nossa história. Sem negar em momento algum que o Cristo era Deus, o Filho de Deus, pelo contrário, em seus escritos, afirma-se várias vezes essa verdade, Francisco quer seguir a Cristo em sua humanidade e historicidade. Ele pretende chamar a atenção exatamente para o Cristo homem, o Verbo Encarnado. Daí toda uma reflexão e acentuação da encarnação do Filho de Deus.

Para contemplar, com mais realismo, a encarnação do Filho de Deus, faz encenar o nascimento de Cristo na pobreza de um presépio. A especial veneração pela Virgem Maria está intimamente ligada ao fato da encarnação: foi do útero de Maria que o Filho de Deus "assumiu a carne de nossa humanidade e fragilidade" (cf. 2Fi 4). A paixão de Cristo será sempre objeto de meditação por parte de Francisco, por ser o sofrimento a realidade que mais revela até que ponto Cristo assumiu a nossa humanidade. Mesmo a Eucaristia é vista como um prolongamento da encarnação do Filho de Deus: como o Filho de Deus se encarnou no útero de Maria, assim ele se encarna cada dia nas mãos do sacerdote sobre o altar, na celebração eucarística (cf. Ad 1).

A encarnação comove-o. Conta Celano que, estando na hora da refeição, lembra-se da pobreza da encarnação. Deita o prato no chão e põe-se a chorar (cf. 2Cel 200). A meditação da paixão de Cristo, igualmente. Os biógrafos narram o seguinte episódio: certa vez, estando num bosque a meditar sobre a paixão de Cristo, começa a chorar. Um antigo amigo, ao vê-lo a chorar, pergunta se está doente ou sentindo alguma dor. Francisco responde que chora a paixão de seu Senhor. O amigo, comovendo-se com a dor de Francisco, começa também a chorar.

É a partir dessa piedade para com a humanidade de Cristo que a devoção pelo presépio se estende a praticamente toda a cristandade. E é a partir da meditação sobre a paixão do Senhor que, mais tarde, Frei Leonardo do Porto Maurício e os franciscanos Alcantarinos formularão a conhecida via-sacra, devoção que tem seu valor até os dias de hoje.

Portanto, o acento que Francisco dá à sua visão do Cristo cai sobre a encarnação, sobre a humanidade do Filho de Deus. Esta será sempre uma tônica na sua contemplação de Cristo. Interrogado certa vez, já próximo de sua morte, se queria que lhe fosse lida a Sagrada Escritura, ele respondeu que não era mais necessário, pois já havia encontrado o Cristo crucificado (cf. 2Cel 105), isto é, o Cristo mais identificado com a natureza humana. A consideração do Filho encarnado - da humanidade de Cristo - traz como corolário uma concepção encarnada, concreta, histórica, não abstrata de espiritualidade.

Por isso, quando ele fala de viver o Evangelho, ou de vida evangélica, não faz abstrações. Pensa em termos concretos de viver, aqui e agora, como Cristo viveu, como Cristo ensinou, como Cristo mandou.

(Curso de espiritualidade franciscana de Frei Celso Texeira, OFMCap.)

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Aquele vazio nos deixa maravilhados...

Mensagem Pascal do Custódio*

A fé cristã garante que a vida de Jesus não terminou com a morte. Aquele que morreu VIVE. O cristianismo, uma síntese misteriosa de vida, alegria, certeza, esperança, não se mantém e se perpetua pela saudade de um fato do passado. Ele anuncia e vive a alegria de uma PRESENÇA”. ‘Eis que estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos’ (Mt 28,20).

Não esqueçamos jamais! No coração de nossa fé há um crucificado a quem Deus deu razão. No centro mesmo da Igreja há uma vítima à qual Deus fez justiça. Uma vida crucificada, porém, motivada e vivida com o espírito de Jesus, não terminará em fracasso, mas em ressurreição.”
Não nos faltarão feridas, cansaço e fadigas. Uma esperança nos sustenta: um dia, ‘Deus enxugará as lágrimas de nossos olhos, e já não haverá nem morte nem pranto, nem gritos nem fadigas porque todo esse velho mundo terá passado.”

A todos uma Santa e Alegre Páscoa!


*Frei Antonio Molisani Telles, OFMConv

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Semana Santa: Sermão do Encontro


Em Jesus Cristo, o sofrimento é vencido pelo Amor.

Por: Padre Wagner Augusto Portugal

Meus irmãos e minhas irmãs,

Estamos reunidos nesta noite para um encontro muito especial nesta acolhedora cidade.

Diz o próprio Cristo: “Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não anda nas trevas, mas terá a luz da vida”.

Não viemos assistir a um encontro; viemos participar de um encontro; somos protagonistas de um encontro.

Jesus com a sua Mãe, a bem-aventurada Virgem Maria, a Virgem das Dores, a “Mater Dolorosa”. E cada um de nós com Eles - com Jesus e com Maria.

Não será um encontro mudo; será um encontro silencioso, mas loquaz.

Os gregos diziam que a palavra é prata, mas o silêncio é ouro.

Nosso Deus não é um Deus mudo. Mas Ele só fala com quem O sabe escutar.

Na vida, vamos acompanhando os acontecimentos que celebramos, sabendo mais e melhor que a platéia e os participantes deste encontro somos todos nós, batizados e não batizados, homens e mulheres de boa vontade que vêm ser protagonistas deste grande encontro.

Os protagonistas de dois mil anos atrás viram o JESUS VIVO, ouviram a sua palavra viva, TOCARAM NA SUA CARNE, receberam suas curas. Mas, por seus erros, tiveram a grandeza de ter a Jesus como o melhor dos advogados. Por isso, Jesus rezou: “Pai, perdoa-lhes, não sabem o que fazem!”

Meus queridos irmãos,

Nós nunca vimos fisicamente Jesus e Maria. Entretanto, muitas vezes, lemos os Santos Evangelhos... Sabemos muito... Nos qualificamos de seus amigos... Já trabalhamos por Ele... Recebemos os seus sacramentos.... Mas, se Ele Não for a NOSSA LUZ, de nós Ele não poderá dizer: “Não sabem o que fazem!”

Queridos irmãos e queridas irmãs,

Celebramos o maior contraste da humanidade; o maior PARADOXO da humanidade; O HOMEM, O MESTRE, O SENHOR, O BOM, massacrado pela desumanidade, pela ignorância servil e má!

Ah! Cordeiro silencioso que, sob essa cruz pesada, conscientemente se oferece, derramando seu sangue por amor de nós, como essa tão bela imagem remete-nos àquele passo da Paixão, clareando nossa ignorância, afetando nossa insensibilidade.

Quão terrível deve ter sido a realidade!

Estamos a caminho do momento máximo da Encarnação de Jesus, do mistério da redenção: sua paixão e morte, tendo o Cristo assumido nossa carne na sua total fragilidade.

Irmãos e irmãs,

Já experimentamos a ponta da angústia e do sofrimento? Por que? Para que?
Sofrimento sem culpa!
Culpas sem pena adequada!
Chega-se à negação de Deus!...
O Homem sofre por causa do mal.
O mal como limitação, ausência do bem, do sumo bem.
O Homem sofre por causa de um bem de que não participa.
Em Jesus Cristo, o sofrimento é vencido pelo Amor.
A salvação como libertação do mal.
Jesus combateu o Mal, e esta deve ser a meta de todos os cristãos.
O mal, tanto mais quanto maior o bem perdido.
Grande bem: A VIDA ETERNA - DEUS.
O grande mal: A MORTE ETERNA - O INFERNO.
Jesus, cura, ensina, ensina, ressuscita, dá-nos a possibilidade da vida eterna.
Jesus vem trazer a salvação do sofrimento definitivo.
Jesus com sua morte veio vencer o pecado e a morte.
Jesus projeta LUZ NOVA sobre o sofrimento.
Jesus aceita o sofrimento passageiro para nos dar o BEM DEFINITIVO.
Cristo sofre voluntariamente, inocentemente.
O sofrimento: chamamento a manifestar a grandeza moral do Homem, sua maturidade espiritual.
Cristo não esconde a necessidade do sofrimento.
Quem quiser vir após mim, tome a sua cruz e siga-me.
A História nos mostra que no sofrimento se esconde uma FORÇA PARTICULAR que aproxima o Homem de Cristo.
Maturidade interior: GRANDIOSIDADE DO SOFRIMENTO.
Em Herodes, vemos a cena da fuga para o Egito...
Cada um tem seu Herodes... Queremos a morte de nosso Herodes...
É quando, então, Deus nos mostra o Egito...
Queremos o domingo de RAMOS, com a entrada triunfal em Jerusalém.
E Deus nos aponta o CALVÁRIO.
DEUS não teoriza.
Deus nos ensina de uma maneira REAL, CONCRETA, VIVA: seu Filho, Sua Mãe.
Esta cena que vamos presenciar, um encontro de sofrimento e de felicidade.
JESUS.... Missão cumprida, salvando os homens que amava...
Difícil, duro, terrível...
Mas vou à frente, vou para libertar os homens, vou para salvar os homens e mulheres.
MARIA...
Grandeza espiritual...
Fuga para o Egito.... salvação?
Dor: mas felicidade interior porque Seu Filho cumpre a vontade do Pai que O enviou e O encarnou no seio virginal.

Meus irmãos,

Este Encontro é o ponto de partida da NOVA HUMANIDADE.
Este Encontro é o ponto de partida da FRATERNIDADE.
Este Encontro é o ponto de partida da PAZ, do PERDÃO, da ESPERANÇA, na DOR MAIS ATROZ.
Cinco passos: aproximam-se as imagens do Senhor dos Passos e da “Mater Dolorosa”.
Precisamos reaprender: RENÚNCIA,
CAPACIDADE DE SACRIFÍCIO,
CAPACIDADE DE TRABALHO.
Infelizmente, os homens e mulheres buscam os prazeres passageiros: o dinheiro, o lucro fácil, o hedonismo. O Homem pós-moderno está cada vez mais frágil, menos homem.
Cristo e Maria se confrontam...
Não fogem... E ele poderia! Ela também...
Assumem...
Novamente se aproximam...
Querido PAI de FAMÍLIA e Esposo...
Querida MÃE de FAMÍLIA e Esposa...
É fácil abandonar, fugir, tentar a felicidade com uma outra pessoa.
Dispensa-se uma esposa, mas não se dispensa um DEUS que invocamos por testemunha no sacramento do matrimônio. Não se troca de Mãe. Não se troca de Esposa.

Queridos pais,

Ensinem seus filhos a RENÚNCIA.
Formem-nos no espírito de sacrifício,
Formem-nos na capacidade de trabalho,
Formem-nos na edificação da santidade de vida,
Só assim, mais tarde, eles serão fortes diante dos prazeres fáceis da vida,
Só assim eles superarão a tentação do vício, do erro e da famigerada DROGA.
Não é bom, senhores pais, aquele que dá tudo o que o filho pede.
Mostrem a Eles JESUS LUZ DO MUNDO.
Mostrem JESUS QUE SE APROXIMA DE SUA MÃE.
Atroz é o SOFRIMENTO DE JESUS.
A flagelação romana, sem sangue.
Sofre ao ver sua Mãe sofrer.

Meus irmãos,

MARIA:
A CABECINHA LINDA...
OS BRACINHOS TERNOS...
O CORPINHO FRÁGIL que com tanto sacrifício protegeu seu Filho na fuga para o Egito.
O menino de seu coração que na angústia ela reencontra no Templo, aqui está diante dela, curvado,
Triste,
Esmagado.
Pudesse ela...
Mas a missão era A DOIS.
No fundo de seu coração...
“Faça-se em mim segundo a Sua Palavra” – “FIAT, FIAT, FIAT!”
Por que?
Por que sofrer para salvar?
Hospital.
Meu irmão seu sofrimento também é redentor pela força da paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Maria co-redentora.
Beije sua cruz...
Volte para casa com nova força...
Você não veio ver um encontro, você veio participar.
Preparar-se para seu encontro definitivo com este Jesus que sofre, com Maria sua mãe.
Nosso Batismo... o rosto de Deus.

Meus irmãos,

Com o Sermão do Encontro estamos encerrando a Quaresma.
Na Quinta-feira Santa adentramos no Tríduo Pascal, que relembra os mistérios da Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo, o Redentor da Humanidade.
Semana Santa é tempo de Penitência, de Mudança de Vida, de Conversão,
Este Encontro de Jesus com Sua Mãe é o Encontro da Missão que todos os batizados são convidados a refletir, aderir e viver: a missão da santidade de vida e da santidade da nova evangelização: “vamos lançar as redes nas águas mais profundas” e edificar entre nós um encontro permanente de fé, de esperança, de caridade, de comum unidade para que os sofrimentos momentâneos se transformem em Novo PENTECOSTES.

Meus irmãos,

Nesta cena dramática de sofrimento devemos sair com a certeza única de nossa vida: A RESSURREIÇÃO EM DEUS.

E para que experimentos dos inefáveis frutos que podemos colher na meditação desses mistérios da vida de Cristo, devemos nos aproximar, primeiro de Jesus.

É o momento do encontro. É quando nos vem à mente toda a nossa vida. Estamos diante dele, assim como Maria sua mãe. Ela, porém, na contemplação da dor e da maldade dos homens; nós no abandono de nossos pecados na execração das fontes da corrupção da graça: o mundo, a carne e o pecado.
Ó Maria, minha boa mãe, ouvi nossos rogos. Leva-nos contigo até Jesus. Neste encontro lastimoso, na Rua da Amargura, coloquemo-nos junto de nossa Mãe Santíssima e ela nos levará até o seu benditíssimo Filho.

Queira, ó Virgem das Dores, consolar-nos de nossas misérias e conduzi-nos até Jesus.
Sigamos com Ela, piedosos irmãos e irmãs, até o Calvário, para lavarmo-nos no sangue redentor.

Meus queridos Irmãos,

Abandonemos a teologia da ameaça e do medo.
Vamos aderir a Deus pelo sofrimento consciente de conversão, de misericórdia, para viver a santificação da vida em Deus, com o auxílio de nosso Redentor e da co-redentora Maria Santíssima.
O SOFRIMENTO está presente no mundo para desencadear o amor, para fazer nascer obras de amor para com o próximo, para transformar toda a civilização humana, na CIVILIZAÇÃO DO AMOR.
Esta é a missão deste encontro doloroso, mais amoroso, pois Jesus tanto amou a humanidade que na Cruz morreu para que todos revivêssemos na graça e a vivêssemos em abundância. Amém!


Fonte:http://www.catequisar.com.br/texto/liturgia/2012/28.htm

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Sermão do depósito e julgamento


Por: Padre Lucas

O SIGNIFICADO DA SEMANA SANTA

A primeira Semana Santa, pelo plano de Deus, foi a semana mais importante da vida de Jesus Cristo. Esta nossa semana santa, da mesma forma, deverá ser a semana mais importante da vida de cada um de nós. 
Deve ser uma semana de oração e reflexão, da compreensão dos eventos da paixão de Jesus Cristo, do conhecimento da mensagem de Deus para seu povo.

INTRODUÇÃO:

Local: toda a paixão de Cristo ocorre em Jerusalém e seus arredores; 

Época: provavelmente no ano 30 d.C., durante a semana da páscoa dos judeus, entre o 9º e o 16º do mês judaico de Nisã (março/abril). Jerusalém lotada de peregrinos; 
Condições políticas: a nação judaica estava sujeita a Roma. Seu governador era Pôncio Pilatos; os judeus eram legislados pelo sumo-sacerdote Caifás e pelo conselho dos 70 anciãos. Na Galiléia, região do norte da palestina, Herodes era o rei; 
Acontecimentos recentes: Jesus de Nazaré, que por três anos pregou o Reino de Deus, operou milagres, e finalmente tinha sido proclamado o Filho de Deus, crescia em popularidade de tal forma que os sacerdotes judaicos viram nele séria ameaça a sua autoridade sobre o povo. A recente ressurreição de Lázaro fez com que muitas pessoas acreditassem em Jesus.Os líderes judaicos haviam planejado matar Lázaro e Jesus por incitar motins, e então acabar com a revolta que pudesse estar surgindo. Entretanto, como nação sujeita, subjugada, não poderiam condenar ninguém à morte. Apenas o imperador romano possuía tal autoridade. Agora, com a páscoa dos judeus, havia uma deixa. Sob estas circunstâncias começa a Semana Santa...

SEGUNDA-FEIRA SANTA

Os eventos dos próximos 3 ou 4 dias não estão claramente divididos nos Evangelhos, mas o caminho é demonstrado pelas ações de Nosso Senhor na segunda-feira. Sua atividade neste período foi intensa. Não nos foi relatado todas as ações. Ele era protegido pelo povo nas suas disputas com as autoridades. Nosso Senhor viria a Jerusalém pela manhã, ficaria três dias ali, ensinando e discursando no Templo, à noite sairia da cidade, e se retiraria ao monte das Oliveiras (onde estavam Bethânia e Getsêmani). Vindo cedo à Jerusalém, Nosso Senhor encontrou uma figueira que tinha folhas mas não frutos - um símbolo do judaísmo, cuja religião possui muitas folhagens e práticas, mas sem espírito interior e sem frutos.

DA ESCUTA DA PALAVRA NASCE A FÉ

Um dos grandes temas da Escritura é a escuta da Palavra de Deus.
Vem desde o Gênese, percorre todos os profetas e é uma das chamadas constantes dos Evangelhos.
Um dos milagres esperados do Messias era a cura da surdez. Não a surdez física, mas o fechamento diante da Palavra do Senhor.
Ao longo de toda a história, o homem se faz de auto-suficiente e quer satisfazer apenas seus desejos.
Em torno deles, reza e trabalha. Mas isso não satisfaz a raiz do ser humano. Um de seus dramas é sair de seus próprios interesses que, ao final, perfazem um círculo vicioso, e alcançar o transcendente.
Jesus, hoje, nos diz que essa fome se sacia na escuta da Palavra de Deus.
Essa escuta não impede o trabalho, mas lhe dá sentido e se torna condição de boa oração.
Jesus falando do primeiro e do maior mandamento acentuou a dimensão horizontal do amor. Neste Evangelho que acabamos de meditar, acentua a dimensão vertical.
Na oração do Pai Nosso acentuará a dimensão comunitária, que funde e equilibra a horizontal e a vertical.

UMA PARADA ESTRATÉGICA, UMA PARADA DE AMIZADE

Jesus estava viajando. Chegando a um povoado, uma mulher, chamada Marta, o recebeu em sua casa.
Maria, irmã dela, foi sentar-se aos pés do Senhor, e estava ouvindo os seus ensinamentos. Enquanto Marta ficava fazendo o trabalho todo da casa.
Aí, ela chegou para Jesus e disse: “O Senhor não está vendo que eu estou fazendo tudo sozinha? Deixe a minha irmã vir me ajudar!”
Então Jesus falou assim com ela: “Marta, Marta! Você está aflita e preocupada com tantas coisas! Uma só chega! Maria escolheu primeiro o que é melhor. E isto ninguém, vai tomar dela! (Lc 10,38-42)

O Evangelho nos coloca diante de duas mulheres privilegiadas dentro da vida pública de Jesus: Marta e Maria, irmãs de Lázaro, a quem Jesus ressuscitara depois de quatro dias de morto. (Jo 11)

Jesus era amigo pessoal dos três. (Jo 11,5) e costumava hospedar-se em sua casa todas as vezes que ia a Jerusalém. Eles moravam em Betânia, um lugarejo distante quinze quilômetros de Jerusalém, situado no sopé do Monte das Oliveiras, porém, na encosta contrária àquela que se volta para Jerusalém e onde se situava o horto da Paixão.

Vindo pelo caminho que beirava o Jordão, subia-se por Betânia, passava-se por Betfajé e, do alto da colina, se avistava a cidade santa.
Ora, para entrar em Jerusalém, os peregrinos costumavam lavar-se antes.
Era em Betânia, na casa de Lázaro, Marta e Maria, que Jesus costumava cumprir este ritual.

Entende-se, assim, melhor a cena de hoje: Uma cena familiar, que Lucas soube transformar em grande lição.
Ele é o único evangelista a descrever o fato. Banho tomado, Jesus e os apóstolos descansavam da viagem e esperavam a refeição.
Maria escutava Jesus. Qualquer dona de casa sabe que dar de comer a treze homens chegados de viajem, exige uma série de preparativos rápidos.

Era o que Marta estava fazendo, exatamente como qualquer dona-de-casa faria e faz ainda hoje.

Há um pormenor: Ao colocar as duas mulheres quase no centro da cena, Lucas de novo se mostra um evangelista universal, isto é, que chama sempre a atenção para o fato de que Jesus viera para todos.
As mulheres, naquele tempo, não eram contadas para nada, nem sequer lhes era permitido ouvir um rabino para se instruir. 

A ESCUTA DA PALAVRA DÁ SENTIDO À ORAÇÃO

Outra observação ainda: Lucas coloca o episódio não em ordem histórica ou geográfica, mas numa seqüência de ensinamentos.
Jesus acabara de responder ao doutor da lei qual era o maior mandamento e exemplificara com a parábola do bom Samaritano (Lc 10,25-37).
Acentuara portanto, a caridade, o amor transformado em obra prática. Logo depois da lição de hoje, vem o ensinamento do Pai Nosso. Parece-me então, que devemos ler o trecho de hoje iluminado pela caridade verdadeira e pela sadia oração.
A caridade pressupõe a oração, e esta, necessariamente, leva à caridade.
Entre as duas, está a escuta da Palavra de Deus, para que a caridade tome sentido divino, e a oração não se torne egoísta e vazia.
Se olharmos dentro do nosso coração, veremos que inúmeras vezes nossas obras caritativas não passam de gestos vaidosos, e a nossa oração é um comentário egoísta de nossos interesses pessoais.

A PRÁTICA DA VIDA CRISTÃ NASCE DA ESCUTA DA PALAVRA

A expressão “estava ocupada com muitos afazeres” ou “andava atarefada com o serviço” é uma tradução não inteiramente exata do vocábulo grego original, que traz consigo a idéia de “distração”
Marta estava atarefada sim, porém seu trabalho a fazia ficar distraída (não ouvia a Palavra de Jesus).
O trabalho é necessário e bom. O trabalho (como de Marta) pode ser expressão de caridade. Mas só o será se não for empecilho para a escuta da Palavra de Deus. E a oração rezada só terá sentido se ligada à escuta da Palavra de Deus.

E o que é escutar a Palavra de Deus?
São Paulo, na carta ao romanos, dirá que “a fé nasce da escuta da Palavra de Cristo” (Rm 10,17).
Em certo momento, Jesus elogia a grandeza de sua mãe, não apenas pela maternidade, mas por “escutar a Palavra de Deus” (Lc 11,28).
E diz aos judeus que o pecado deles consiste em “não escutar a palavra de Deus” (Jo 8,43).
Escutar a Palavra de Deus é não só lê-la com os olhos ou ouvi-la com os ouvidos, mas transformá-la em prática de vida, em forma de oração e em obras (Mt 7,24).
A todos é dada esta graça. Todos são chamados a essa experiência, a esse esforço. Condição, aliás, para se entender o que significa viver cristãmente.

Fonte: www.padrelucas.com.br/informaximo/arquivo/download.asp?arquivo

terça-feira, 8 de abril de 2014

Papa na Coréia

Roma, 08 de Abril de 2014 (Zenit.org)

Apresentado nesta segunda-feira, 07 de abril, o logotipo oficial da visita do Papa Francisco à Coréia, que terá lugar de 14 a 18 de agosto, por ocasião da sexta Jornada da Juventude Asiática, que terá lugar na Diocese de Daejeon.

O logotipo apresentado pelos bispos coreanos e pelo comitê organizador da visita papal, mostra o lema "Coréia, levanta-te, sê radiosa", e, graficamente, faz referência explícita às duas Coreias.

As cores escolhidas, conforme notícia da Rádio Vaticana, indicam as duas Coreias e a as chamas que se cruzam é o auspício de reunificação entre os dois países. Já as ondas azuis que formam o barco têm como forma a lâmina de uma faca, sinal do sacrifico dos mártires da Igreja coreana.

O Episcopado local, em nota oficial sobre a notícia da visita do Pontífice, indica que o logo foi inspirado no lema “Levanta-te, sê radiosa, eis a tua luz! A glória do Senhor se levanta sobre ti” (Is, 60,1). A imprensa sul-coreana divulgou que os representantes do comitê organizador da visita do Papa à Coréia estão em visita ao Vaticano para organizar a logística da viagem.

A confirmação de viagem de Francisco ao país asiático chegou em 10 de março através de uma breve nota da Sala de Imprensa da Santa Sé: "Acolhendo o convite do Presidente da República e dos Bispos coreanos, Sua Santidade Francisco fará uma visita pastoral à República da Coreia entre 14 e 18 de agosto de 2014, por ocasião da Sexta Jornada da Juventude Asiática que será realizada na Diocese de Daejeon".
(MEM)
(08 de Abril de 2014) © Innovative Media Inc.
http://www.zenit.org/pt/articles/apresentado-logotipo-da-viagem-do-papa-a-coreia

sábado, 5 de abril de 2014

Eremitério Franciscano Conventual

Na Ordem Franciscana, desde as origens, os frades buscaram fazer a experiência do eremitismo, a fim de aprofundar e viver radicalmente a vida pobre e comunitária através da oração e do convívio fraterno. Foi nos eremitérios que Francisco de Assis teve suas maiores experiências místicas como a impressão das chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo. O carisma de São Francisco não é só de vida pastoral (realidade própria dos padres diocesanos), mas do testemunho de fraternidade, de oração, de recolhimento e de pobreza. Estes elementos devem ser fortalecidos pela experiência em eremitérios franciscanos, retomando o próprio da vida religiosa melhorando o testemunho e o serviço entre os frades e o povo de Deus. No Brasil somente as famílias Observante e Capuchinha fazem a experiência do eremitismo por terem lugares próprios para isto. Confira algumas fotos desda experiência que acontece na Polônia:







sexta-feira, 4 de abril de 2014

As sete Palavras de Cristo na Cruz

Por Leandro Martins de Jesus


“Ó admirável poder da Cruz! Ó inefável glória da Paixão! Nela se encontra o tribunal do Senhor, o julgamento do mundo, o poder do Crucificado!” (São Leão Magno, Papa e Doutor da Igreja).

Nosso Senhor Jesus Cristo, após cravado na Santa Cruz para sofrer a Paixão a fim de nos salvar proferiu sete Palavras que ficaram consignadas no coração da Igreja. Essas Palavras de Cristo na Cruz, objeto de meditação dos Santos Padres e Doutores, compõem um tesouro singular que o Senhor nos deixou no momento em que consumava o Mistério de nossa Redenção. Passemos então a conhecer e aprofundar-nos nessas eficazes Palavras que Senhor nos confiou. (cf. II Tim 3,16-17).


1ª Palavra: “Pai, perdoai-lhes, por que não sabem o que fazem” (Lc 23,34).

Na Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, se efetiva o Mistério da Redenção do gênero humano, com efeito, “por sua paixão, Cristo livrou-nos de Satanás e do pecado. Ele nos mereceu a vida nova no Espírito Santo. Sua graça restaura o que o pecado deteriorou em nós”. (Catecismo da Igreja Católica §1708)

A primeira Palavra que Cristo profere na Cruz, é a súplica do perdão: “Pai, perdoai-lhes, por que não sabem o que fazem”. Em meio à humanidade devastada pelo pecado, em meio ao povo enganado que pedia a morte do Cordeiro inocente, Cristo tem compaixão e pede o perdão para aqueles que o condenam.

Neste momento final, Cristo retoma o ensino que outrora tinha proferido: “Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos maltratam e perseguem” (Mt 5,44). Dessa forma ele deixa claro a necessidade e a importância do perdão, necessidade essa consignada na oração que Ele mesmo ensinou a seus discípulos: “perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos aos que nos ofenderam” (Mt 6,12).

“Então Pedro se aproximou dele e disse: Senhor, quantas vezes devo perdoar a meu irmão, quando ele pecar contra mim? Até sete vezes? Respondeu Jesus: Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete” (Mt 18,21-22).

Que ensino grandioso Nosso Senhor nos deixa nesta primeira Palavra proferida na Cruz, em meio a toda dor e sofrimento em que se encontrava, por amor à humanidade, Ele não pensa em si, mas pede por aqueles que o persegue.

Ó ternura do amor de Jesus Cristo para com os homens! Diz S. Agostinho que o Salvador, na mesma hora em que recebia injúrias de seus inimigos, procurava-lhes o perdão: não atendia tanto às injúrias que deles recebia e à morte a que o condenavam, como ao amor que o obrigava a morrer por eles. Mas, dirá alguém, por que foi que Jesus pediu ao Pai que lhes perdoasse, quando ele mesmo poderia perdoar- lhes as injúrias? Responde S. Bernardo que ele rogou ao Pai, “não porque não pudesse pessoalmente perdoar-lhes, mas para nos ensinar a orar pelos que nos perseguem”. (LIGÓRIO, Afonso M. de. A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo.Vol II, Ed.PDF, Fl. Castro, abril 2002,p.19)

E São Paulo, ao evangelizar os pagãos iria justamente transmitir esse ensinamento recebido do Senhor (cf. I Cor 11,23):

“Abençoai os que vos perseguem; abençoai-os, e não os praguejeis. Não pagueis a ninguém o mal com o mal. Aplicai-vos a fazer o bem diante de todos os homens. Não vos vingueis uns aos outros, caríssimos, mas deixai agir a ira de Deus, porque está escrito: A mim a vingança; a mim exercer a justiça, diz o Senhor (Dt 32,35). Se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber. Procedendo assim, amontoarás carvões em brasa sobre a sua cabeça (Pr 25,21s).Não te deixes vencer pelo mal, mas triunfa do mal com o bem”. (Rom 12, 14.17.19-21)

Assim, nesta primeira Palavra de Cristo na Cruz, tomamos consciência da importância fundamental do perdão na vida do Cristão, pois “Se alguém disser: Amo a Deus, mas odeia seu irmão, é mentiroso. Porque aquele que não ama seu irmão, a quem vê, é incapaz de amar a Deus, a quem não vê. Temos de Deus este mandamento: o que amar a Deus, ame também a seu irmão”. (Jo 4,20-21).

2ª Palavra: “Em verdade eu te digo: Hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23,43).

Quando Cristo profere a segunda Palavra na Cruz, observamos dois ladrões crucificados, um de cada lado. Nestes dois ladrões vemos a prefiguração de duas atitudes que podemos abraçar em nossa vida: a atitude do desespero em meio ao sofrimento, zombando da salvação e, por conseguinte do Salvador; e a atitude de reconhecimento e confissão do pecado, resignação em meio ao sofrimento presente, com vistas na esperança da glória futura.

Neste momento da Paixão, temos uma cena de ultrajes contra o Salvador:

A multidão conservava-se lá e observava. Os príncipes dos sacerdotes escarneciam de Jesus, dizendo: Salvou a outros, que se salve a si próprio, se é o Cristo, o escolhido de Deus! Do mesmo modo zombavam dele os soldados. Aproximavam-se dele, ofereciam-lhe vinagre e diziam: Se és o rei dos judeus, salva-te a ti mesmo. Por cima de sua cabeça pendia esta inscrição: Este é o rei dos judeus. Um dos malfeitores, ali crucificados, blasfemava contra ele: Se és o Cristo, salva-te a ti mesmo e salva-nos a nós! Mas o outro o repreendeu: Nem sequer temes a Deus, tu que sofres no mesmo suplício? Para nós isto é justo: recebemos o que mereceram os nossos crimes, mas este não fez mal algum. E acrescentou: Jesus, lembra-te de mim, quando tiveres entrado no teu Reino! Jesus respondeu-lhe: Em verdade te digo: hoje estarás comigo no paraíso. (Lc 23,35-43).

Que ensino grandioso recebemos de Nosso Senhor ao conceder ao penitente arrependido a Salvação eterna: hoje estarás comigo no paraíso! Com estas palavras salvíficas Jesus nos mostra que se nos arrependermos dos nossos pecados, O reconhecermos como nosso Salvador (cf. Jo 1,12) e O buscarmos diligentemente, sem dúvidas estaremos com Ele.

Ora, Nosso Senhor veio para “salvar o que estava perdido” (Mt 18,11), e como predisse o profeta Ezequiel (cf. Ez 18,21-22), aquele que se arrepende dos pecados os tem como que apagados pelo Senhor, estando liberto para uma nova vida, a vida da graça.

Sobre a grandiosidade desta palavra de Cristo, ensina com maestria e inspiração S. Afonso de Ligório:

“Em verdade eu te digo que hoje estarás comigo no paraíso”. Escreve um douto autor que com essa palavra o Senhor nesse mesmo dia, imediatamente depois de sua morte, se lhe mostrou sem véu, fazendo-o imensamente feliz, embora não lhe conferisse todas as delícias do céu antes de entrar nele. Arnoldo Carnotense, no seu Tratado das 7 palavras, considera todas as virtudes que o bom ladrão S. Dimas praticou na sua morte: “Ele crê, se arrepende, confessa, prega, ama, confia e ora”. Praticou a fé, dizendo: “Quando chegares no teu reino”, crendo que Jesus Cristo depois de sua morte havia de entrar vitorioso no reino de sua glória. “Teve por perto que havia de reinar quem ele via morrer”, diz S. Gregório. Exerceu a penitência, confessando seus pecados: “Nós padecemos justamente, pois recebemos o que merecemos”. Diz S. Agostinho: Não ousou dizer: lembra-te de mim, senão depois da confissão de sua iniqüidade e de depor o fardo de suas iniqüidades (Serm. 130 de templ.). E S. Atanásio: “Ó bem-aventurado ladrão, que roubaste o céu com essa confissão”. Outras belas virtudes praticou então esse santo penitente: a pregação, anunciando a inocência de Jesus: “Este, porém, nenhum mal praticou”. Exerceu o amor para com Deus, aceitando a morte com resignação em castigo de seus pecados: “Recebemos o que merecemos”. S. Cipriano, S. Jerônimo, S. Agostinho não duvidam por isso de chamá-lo mártir, porque os algozes, ao quebrarem-lhe as pernas, o fizeram com maior atrocidade, por ter louvado a inocência de Jesus, aceitando esse sofrimento por amor de seu Senhor.” (LIGÓRIO, Afonso M. de. Op.cit, p.20)

Assim, diante destes fatos, fica-nos a lição da perseverança em meio às provações, do repudio que devemos ter ao pecado, do reconhecimento do Cristo como Nosso Senhor e da Salvação que ele nos traz. Com efeito nos diz São Paulo: “Coisas que os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano imaginou (Is 64,4), tais são os bens que Deus tem preparado para aqueles que o amam. (ICor 2,9). Tenho para mim que os sofrimentos da presente vida não têm proporção alguma com a glória futura que nos deve ser manifestada”. (Rom 8,18).

3ª Palavra: “Mulher, eis ai teu filho. Eis ai tua mãe” (Jo 19,26-27).

Na terceira Palavra de Cristo na Cruz, em meio a todo o sofrimento, Jesus mais uma vez, numa prova inequívoca de amor à humanidade, nos dá a graça de termos a Sua santa Mãe por nossa mãe! Vejamos o relato do Evangelho:


“Junto à cruz de Jesus estavam de pé sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Cléofas, e Maria Madalena. Quando Jesus viu sua mãe e perto dela o discípulo que amava, disse à sua mãe: Mulher, eis aí teu filho. Depois disse ao discípulo: Eis aí tua mãe. E dessa hora em diante o discípulo a levou para a sua casa”. (Jo 19,25-27).


Esta Palavra nos revela fatos muito importantes, é uma prova de que Nossa Senhora não possuía outros filhos, pois caso contrário não poderia estar desamparada neste momento, revela-nos que era viúva de São José, que também não se encontrava ao seu lado, como também o afirma S. Afonso de Ligório:

“Com isso deu a entender que José já era morto, porque se ele ainda vivesse não o teria separado de sua esposa” (LIGÓRIO, Afonso M. de. Op.cit, p.21).

Outra revelação magnífica dessa Palavra é a necessidade de tão boa Mãe a nos acompanhar em nossa caminhada rumo ao Salvador, ora todos os atos de Nosso Senhor Jesus Cristo, são atos salvíficos, assim, sendo, ao nos dar Sua Mãe como nossa Mãe, Jesus Cristo visava a nossa salvação. João neste momento, o discípulo amado, era a prefiguração de cada um de nós. E o que ele fez ao receber tamanha graça? Imediatamente “o discípulo a levou para a sua casa”. Todo verdadeiro Cristão deve ter por Mãe Nossa Senhora, que insistentemente só tem um único pedido a nos fazer: “Fazei tudo o que Ele vos disser !” (Jo 2,5)

O Papa Leão XIII explica com precisão a graça da Maternidade Espiritual de Maria, que nos foi legada por Jesus:

“O mistério do imenso amor de Cristo a nós teve, "entre outras, uma luminosa manifestação quando Ele, perto de morrer, quis confiar ao seu discípulo João aquela mãe, sua própria Mãe, com aquele solene testamento: "Eis aí teu filho!" Ora, na pessoa de João, segundo o pensamento constante da Igreja, Cristo quis indicar o gênero humano, e, particularmente, todos aqueles que a Ele adeririam pela fé. E é justamente neste sentido que S. Anselmo de Cantuária exclama: "O' Virgem, que privilégio pode ser tido em maior consideração do que esse pelo qual és a mãe daqueles para os quais Cristo se digna de ser pai e irmão?" (S. Anselmo de Cantuária., Oratio 47).Por sua parte, Maria generosamente aceitou e tem cumprido essa singular e pesada missão, cujo inícios foram consagrados no Cenáculo. Desde então ela ajudou admiravelmente os primeiros fiéis com a santidade do seu exemplo, com a autoridade dos seus conselhos, com a doçura dos seus incentivos, com a eficácia das Suas orações, tornando-se assim verdadeiramente mãe da Igreja e mestra e rainha dos Apóstolos, aos quais comunicou também aqueles divinos oráculos que ela "conservava ciosamente no seu coração"”. (Papa Leão XIII. Carta Encíclica Adiutricem Populi, nº3, Roma, 25/09/1895).

Também S.Afonso de Ligório, nos traz uma edificante reflexão sobre essa Palavra do Senhor, demonstrando o Amor de Cristo pela humanidade ao dar a Sua Mãe e o Amor da Mãe ao Filho ao suportar com Ele as dores da Paixão.

“Estava, pois, a aflita Mãe junto à cruz, e, assim como o Filho sacrificava a vida, sacrificava ela a sua dor pela salvação dos homens, participando com suma resignação de todas as penas e opróbrios que o Filho sofria ao expirar. Diz um autor que desabonam a constância de Maria os que a representam desfalecida aos pés da cruz: ela foi a mulher forte que não desmaia, não chora, como escreve S. Ambrósio: “Leio que estava em pé e não leio que chorava” (In cap. 23 Lc). A dor, que a Santíssima Virgem suportou na paixão do Filho, superou a todas as dores que pode padecer um coração humano. A dor, porém, de Maria não foi uma dor estéril, como a das outras mães vendo os sofrimentos de seus filhos; foi, pelo contrário, uma dor frutuosa: pelos merecimentos dessa dor e por sua caridade, diz S. Agostinho, assim como é ela mãe natural de nosso chefe Jesus Cristo, tornou-se então mãe espiritual dos fiéis membros de Jesus, cooperando com sua caridade para nosso nascimento e para fazer-nos filhos da Igreja (Lib. de sanc. virgin. c. 6). Escreve S. Bernardo que no monte Calvário estes dois grandes mártires, Jesus e Maria, se calavam: a grande dor que os oprimia tirava-lhes a faculdade de falar. (De Mar.). A Mãe contemplava o Filho agonizante na cruz, e o Filho, a Mãe agonizante ao pé da cruz, toda extenuada pela compaixão que sentir apor suas penas. (LIGÓRIO, Afonso M. de. Op.cit, p.21).

Assim, nessa Palavra de Cristo, somos agraciados com Sua Mãe, que doravante estará a nosso lado a nos conduzir a seu Filho amado.

“Jesus é o Filho Único de Maria. Mas a maternidade espiritual de Maria estende-se a todos os homens que Ele veio salvar: "Ela gerou seu Filho, do qual Deus fez “o primogênito entre uma multidão de irmãos” (Rm 8,29), isto é, entre os fiéis, em cujo nascimento e educação Ela coopera com amor materno”. (Catecismo da Igreja Católica § 501).

4ª Palavra: “Elói, Elói, lammá sabactáni?, que quer dizer: Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mc 15,34-35)

Nesta quarta Palavra de Cristo na Cruz, ele expressa a dor de carregar em seu corpo santo todo o pecado da humanidade, a fim de redimi-la, tal dor é expressa com o brado: Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?

É preciso compreender que Cristo sendo verdadeiro Deus e verdadeiro homem, não se valeu de sua divindade para suportar as dores e sofrimentos da Paixão, mas pelo contrario, os sentiu com maior dor pelo fato de ter um corpo santo (cf. Hb 4,15), sujeito a pagar pelos pecados de todos os homens. São Paulo e S. Afonso de Ligório expressam com clareza o desprendimento de Jesus, ao assumir nossa condição miserável, a fim de redimi-la:

“Sendo ele de condição divina, não se prevaleceu de sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-se aos homens.E, sendo exteriormente reconhecido como homem, humilhou-se ainda mais, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz”. (Fl 2,6-8).


“Cumpre saber que Jesus estava sobrecarregado de todos os pecados do mundo inteiro e por isso, ainda que pessoalmente fosse o mais santo de todos os homens, tendo de satisfazer por todos os pecados deles, era tido pelo pior pecador do mundo e como tal fez-se réu de todos e ofereceu-se para pagar por todos. E porque nós merecíamos ser abandonados eternamente no inferno, no desespero eterno, quis ele ser abandonado ou entregue a uma morte privada de todo o alívio, para assim livrar-nos da morte eterna”. (LIGÓRIO, Afonso M. de. Op.cit, p.23).

Este sentimento de abandono, sentido por Cristo padecente na Cruz, nos mostra a dor do abandono que sente o pecador que se afasta de Deus. E todo esse sofrimento foi assumido pelo Cristo em nosso lugar:

“Ele não cometeu pecado, nem se achou falsidade em sua boca (Is 53,9). Ele, ultrajado, não retribuía com idêntico ultraje; ele, maltratado, não proferia ameaças, mas entregava-se àquele que julga com justiça. Carregou os nossos pecados em seu corpo sobre o madeiro para que, mortos aos nossos pecados, vivamos para a justiça. Por fim, por suas chagas fomos curados (Is 53,5). (I Pd 2,22-24)

S. Afonso de Ligório citando S. Leão Magno nos traz importantes reflexões acerca dessa Palavra de Jesus, vejamos:

“Escreve S. Leão que esse brado de Jesus não foi queixa, mas ensino (Serm. 17 de pas. c. 13). Ensino, porque com aquele brado queria dar-nos a entender quão grande é a malícia do pecado, que quase obrigava Deus a abandonar às penas, sem alívio, seu dileto Filho, somente por ter ele tomado sobre si a obrigação de satisfazer por nossos delitos. Jesus não foi então abandonado pela divindade, nem privado da glória que fora comunicada à sua bendita alma desde o primeiro instante de sua criação; foi, porém, privado de todo consolo sensível, com o qual costuma Deus confortar seus fiéis servos nos seus padecimentos e foi deixado em trevas, temores e amarguras, penas essas por nós merecidas. Esse abandono da presença sensível de Deus experimentou Jesus também no horto de Getsêmani: mas o que sofreu pregado na cruz foi maior e mais amargo”. (LIGÓRIO, Afonso M. de. Op.cit, p.23).

O protestante Calvino, no seu comentário sobre o Evangelho de São João, profere uma blasfêmia ao afirmar que Cristo sofrera o pecado do desespero ao proferir essa Palavra. Explica S. Afonso de Ligório apoiado nos Santos Padres, que tal expressão de Nosso Senhor, expressa exatamente a dor dos sofrimentos provenientes da Paixão e jamais o desespero, que só acomete àqueles que voluntariamente pelo pecado se privam da amizade de Deus:

“Calvino, no seu comentário sobre S. João, disse uma blasfêmia (...) Como poderia satisfazer pelos nossos pecados com um pecado ainda maior, qual o do desespero? E como conciliar-se esse desespero de que sonha Calvino, com estas palavras que Jesus pronunciou depois: “Pai, em vossas mãos entrego o meu espírito”?(Lc 23,46). A verdade é, segundo a explicação de S. Jerônimo e S. Crisóstomo e outros, que nossos Salvador lança essa exclamação de dor para nos patentear, não o seu desespero, mas o tormento que sofria tendo uma morte privada de todo o alívio.” (LIGÓRIO, Afonso M. de. Op.cit, p.23).

Em fim, esta Palavra nos mostra a dor que nossos pecados acarretam para o Salvador, entretanto, demonstram mais uma vez a grandiosidade do amor e da misericórdia de Deus para com os homens, se fazendo verdadeiro homem para padecer em nosso lugar: “Com efeito, de tal modo Deus amou o mundo, que lhe deu seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna”. (Jo 3,16)

“Ao abraçar em seu coração humano o amor do Pai pelos homens, Jesus "amou-os até o fim" (Jo 13,11), "pois ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos” (Jo 15,13). Assim, no sofrimento e na morte, sua humanidade se tornou o instrumento livre e perfeito de seu amor divino, que quer a salvação dos homens.” (Catecismo da Igreja Católica § 609).

5ª Palavra: “Tenho sede” (Jo 19,28).

Na quinta Palavra de Cristo na Cruz, Ele expressa a debilidade de seu corpo em meio aos tormentos suportados até aquele instante, e exaurido pela perda de sangue e água durante todo esse martírio, diz: “Tenho sede”.

“Em seguida, sabendo Jesus que tudo estava consumado, para se cumprir plenamente a Escritura, disse: Tenho sede”. (Jo 19,28)

A “Escritura” aludida pelo evangelista S. João, que deveria ser cumprida, é a que se encontra no Salmo de Davi:

“Puseram fel no meu alimento, na minha sede deram-me vinagre para beber”. (Sl 68,22).

Comentando sobre o cumprimento dessa Escritura, diz São Tomás de Aquino:

“Jesus não diz que tem sede para que seja consumada a profecia do Antigo Testamento; pelo contrário: a profecia é que foi escrita porque devia, um dia, ser vivida pelo Cristo” (S. Tomás de Aquino. Comentários de S. João, 19,28 in: AQUINO, Felipe. As Sete Palavras de Cristo na Cruz. Lorena-SP: Cléofas, 2005, p.60).

Essa “sede” de Jesus, não era um fator simplesmente biológico, decorrente das circunstâncias da Paixão. Essa “sede” de Jesus era algo mais profundo. É a sede de almas, a sede de levar a salvação a cada ser humano da face da terra. Essa Palavra de Jesus na Cruz nos remete ao momento em que Ele pede de beber à samaritana (cf. Jo 4,1-15) no poço de Jacó, como se pedisse a cada um de nós, a nossa vida, a nossa alma para lhe saciar a sede. Ele afirma para a samaritana que Ele é a água viva (cf. Jr 2,13), quem Dele beber não terá sede:

“Respondeu-lhe Jesus: Se conhecesses o dom de Deus, e quem é que te diz: Dá-me de beber, certamente lhe pedirias tu mesma e ele te daria uma água viva. (...) o que beber da água que eu lhe der jamais terá sede. Mas a água que eu lhe der virá a ser nele fonte de água, que jorrará até a vida eterna”. (Jo 4, 10.14).

Santo Agostinho comenta essa passagem dizendo:

“Desejaria Ele beber, realmente, quando dizia à samaritana: Dai-me de beber? E quando diz sobre a Cruz: Tenho sede? Do que teria sede senão de nossas boas obras?” (S. Agostinho. Salmos 36, sermão 2,21.4 in: AQUINO, Felipe. Op.cit, p.62).

Também S. Afonso de Ligório ressalta essa sede de salvar toda a humanidade, sentida por Jesus pendente na Cruz:

“Grande foi a sede corporal que Jesus sofreu na cruz, já pelo sangue derramado no horto, já no pretório pela flagelação e coroação de espinhos, e mais ainda na mesma cruz onde de suas mãos e pés cravados escorriam rios de sangue como quatro fontes naturais. Sua sede espiritual foi, porém, muito maior, isto é, o desejo ardente que tinha de salvar todos os homens e de sofrer ainda mais por nós, como diz Blósio, em prova de seu amor (Mar. sp. p. 3 c. 18). S. Lourenço Justianiano escreve: “Esta sede nasce da fonte do amor” (De agon.c. 19)”. (LIGÓRIO, Afonso M. de. Op.cit, p.24).

São Tomás de Aquino comentando essa Palavra de Jesus expressa a veracidade do sofrimento e essa sede de salvar o mundo que o Cristo sentiu na Paixão:

“Se Jesus diz: tenho sede! é, antes de tudo, porque morre de morte verdadeira, não da morte de um fantasma. Ainda aqui aparece o seu desejo ardente da salvação do gênero humano, conforme diz São Paulo: Deus, nosso Salvador, quer que todos se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade (1 Tm 2,3-4). Jesus mesmo dissera: “o Filho do homem veio procurar e salvar o que estava perdido” (Lc 19,10). Ora a veemência do desejo exprime-se, muitas vezes, pela sede, como diz o salmista: “Minha alma tem sede do Deus vivo” (S. Tomás de Aquino. Comentários de S. João, 19,28 in: AQUINO, Felipe. Op.cit, p.62).

Com essa Palavra Cristo, continua a mostrar seu incomensurável Amor pela humanidade, chegando a sentir sede física e espiritual, pela salvação das almas. Santa Catarina de Sena ilustra perfeitamente esse fato, ao dizer:

“É a fome e a sede do ansioso desejo que Jesus tinha de nossa salvação, que o faziam exclamar sobre o madeiro da cruz: Tenho sede! Como se dissesse: Tenho sede e desejo de vossa salvação, mais do que vos pode demonstrar o suplício corporal da sede. Sim, por que a sede do corpo é limitada, mas a sede do santo desejo não tem limites” (S. Catarina de Sena, Cartas, 8 in: AQUINO,Felipe. Op.cit, p.62).

6ª Palavra: “Está consumado”.

“Havendo Jesus tomado do vinagre, disse: Tudo está consumado” (J0 19,30)

Essa penúltima Palavra de Cristo na Cruz vem selar todas as profecias a seu respeito. Nestes momentos finais Cristo nos diz com essa Palavra que toda a vontade do Pai para nos salvar foi cumprida Nele e por Ele.

“Nesse momento, Jesus, antes de expirar, pôs diante dos olhos todos os sacrifícios da antiga lei (todos eles figuras do sacrifício da cruz), todas as súplicas dos antigos padres, todas as profecias realizadas na sua vida e na sua morte, todos os opróbrios e ludíbrios preditos que ele devia suportar, e vendo que tudo se havia realizado, disse: “Tudo está consumado””. (LIGÓRIO, Afonso M. de. Op.cit, p.24).

Com essa Palavra Jesus nos ensina a perseverar em nossa fé até o fim. Confiando Nele (cf. Fl 4,13) não devemos jamais olhar para trás (cf. Gen 19,26; Lc 9,62), mas, seguir sempre em direção ao alvo (cf. Fl 3,14), à nossa meta: a salvação que nos é ofertada gratuitamente por Deus.

S. Afonso de Ligório citando Santo Agostinho explica com maestria este sentido profundo dessa Palavra de Jesus ao afirmar que:

“S. Agostinho escreve: “O que te ensinou pendente da cruz, não querendo dela descer, senão que fosses forte em teu Deus?” (In ps. 70). Jesus quis consumar o seu sacrifício com a morte, para nos persuadir de que Deus não recompensa com a glória senão aqueles que perseveram no bem até ao fim, como o faz sentir por S. Mateus: “Quem perseverar até ao fim será salvo” (Mt 10,22). Quando, pois, ou seja por motivo de nossas paixões ou das tentações do demônio ou das perseguições dos homens nos sentirmos molestados e levados a perder a paciência e a ofender a Deus, olhemos para Jesus crucificado que derrama todo o seu sangue por nossa salvação e pensemos que nós ainda não derramamos uma só gota por seu amor. É o que diz S. Paulo: “Pois ainda não tendes resistido até ao sangue combatendo contra o pecado” (Hb 12,4)”. (LIGÓRIO, Afonso M. de. Op.cit, p.24).

O saudoso Santo Padre João Paulo II, em uma Carta escrita aos Sacerdotes por ocasião da Quinta – Feira Santa no ano de 1998, nos traz uma reflexão muito significativa acerca da consumação do sacrifício salvífico de Nosso Senhor Jesus Cristo, ele escreveu:

“O Evangelho de S. João, com palavras cheias de carinho e de mistério, refere a narração daquela primeira Quinta-Feira Santa, quando tomou lugar à mesa com os discípulos, no Cenáculo, o Senhor — « ...Ele que amara os Seus que estavam no mundo, levou até ao extremo o Seu amor por eles » (13,1). Até ao extremo: até à instituição da Eucaristia, antecipação de Sexta-Feira Santa, do sacrifício da cruz e do mistério pascal. Durante a Última Ceia, Cristo toma o pão nas mãos e pronuncia as primeiras palavras da consagração: « Isto é o meu Corpo que será entregue por vós ». Logo a seguir, proclama sobre o cálice com vinho as sucessivas palavras da consagração: « Este é o cálice do meu Sangue, o Sangue da nova e eterna aliança, que será derramado por vós e por todos para remissão dos pecados », e acrescenta: « Fazei isto em memória de Mim ». Cumpre-se assim, no Cenáculo, de modo incruento o Sacrifício da Nova Aliança, que será realizado com o derramamento de sangue no dia seguinte, quando Cristo disser sobre a cruz: « Consummatum est », « Tudo está consumado! » (Jo 19,30). Oferecido uma vez por todas sobre o Calvário, este Sacrifício é confiado aos Apóstolos, graças ao Espírito Santo, como o Santíssimo Sacramento da Igreja”. (Papa João Paulo II. Carta aos Sacerdotes por ocasião da Quinta Feira Santa de 1998, Vaticano, 25/03/1998).

Assim, temos nessa Palavra de Jesus o cumprimento das Escrituras, e o ensino salvífico de perseverar até o fim, confiados sempre no Senhor.

“Como pela desobediência de um só homem todos se tornaram pecadores, assim, pela obediência de um só, todos se tornarão justos" (Rm 5,19). Por sua obediência até a morte, Jesus realizou a substituição do Servo Sofredor que "oferece sua vida em sacrifício expiatório", "quando carregava o pecado das multidões", "que ele justifica levando sobre si o pecado de muitos". Jesus prestou reparação por nossas faltas e satisfez o Pai por nossos pecados”. (Catecismo da Igreja Católica § 615)

7ª Palavra: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23,46).

Consumada as Escrituras, Nosso Senhor Jesus Cristo livremente entrega o espírito ao Pai, realizando a redenção definitiva da humanidade. É a realização do sacrifício da Nova e Eterna Aliança.

“A morte de Cristo é ao mesmo tempo o sacrifício pascal, que realiza a redenção definitiva dos homens pelo "cordeiro que tira o pecado do mundo", e o sacrifício da Nova Aliança, que reconduz o homem à comunhão com Deus, reconciliando-o com ele pelo "sangue derramado por muitos para remissão dos pecados". (Catecismo da Igreja Católica § 613)

São Lucas escreve:

“Era quase à hora sexta e em toda a terra houve trevas até a hora nona. Escureceu-se o sol e o véu do templo rasgou-se pelo meio. Jesus deu então um grande brado e disse: Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito. E, dizendo isso, expirou. Vendo o centurião o que acontecia, deu glória a Deus e disse: Na verdade, este homem era um justo”. (Lc 23,44-47)

Este do véu do Templo de Jerusalém que se rasga vem simbolizar justamente o advento da Nova e Eterna Aliança: “Não julgueis que vim abolir a lei ou os profetas. Não vim para os abolir, mas sim para levá-los à perfeição”. (Mt 5,17)

“O cumprimento perfeito da Lei só podia ser obra do Legislador divino nascido sujeito à Lei na pessoa do Filho. Em Jesus, a Lei não aparece mais gravada nas tábuas de pedra, mas "no fundo do coração" (Jr 31,33) do Servo, o qual, pelo fato de "trazer fielmente o direito" (Is 42,3), se tornou "a Aliança do povo" (Is 42,6). Jesus cumpriu a Lei até o ponto de tomar sobre si "a maldição da Lei” in quod illi incurrerant "qui non permanent in omnibus, quae scripta sunt, ut faciant ea", na qual incorrerreram aqueles que "não praticam todos os preceitos da mesma, pois “a morte de Cristo aconteceu para resgatar as transgressões cometidas no Regime da Primeira Aliança" (Hb 9, 15)”. (Catecismo da Igreja Católica § 580).

Outro fato singular dessa Palavra de Jesus foi a imediata conversão do centurião romano que acompanhava ao pé da Cruz (cf. Jo 3,14-15) a morte do Redentor: “Vendo o centurião o que acontecia, deu glória a Deus e disse: Na verdade, este homem era um justo” (Lc 23,47).

Com essa Palavra Jesus nos ensina a entregar-nos sempre, livre e totalmente ao Pai, que está sempre de braços abertos a nos esperar (cf. Lc 15,20). S. Afonso de Ligório apoiado nos Santos Padres ensina sobre essa Palavra:

“Escreve Eutíquio que Jesus proferiu estas palavras com grande voz, para dar a entender que ele era verdadeiramente o Filho de Deus, chamando a Deus seu Pai. S. Jerônimo escreve que ele deu este grande brado para demonstrar que não morria por necessidade, mas por própria vontade, emitindo um brado tão forte no momento mesmo em que estava para expirar. Isso combina com o que disse Jesus em vida, que ele de livre vontade sacrificava sua vida por nós,suas ovelhas, e não pela vontade ou malícia de seus inimigos. “Eu ponho minha alma por minhas ovelhas... ninguém ma pode tirar, eu mesmo a entrego de livre querer” (Jo 10,15). S. Atanásio ajunta que Jesus, recomendando-se ao Pai, recomendou-lhe justamente todos os fiéis que por seu intermédio deveriam receber a salvação, já que a cabeça com seus membros constituem um só corpo. E o santo conclui que Jesus então tinha em mente repetir o pedido feito antes: “Pai santo, conserva-os em teu nome, para que sejam um como nós” (Jo 17,11), e termina: “Pai, os que me destes quero que onde eu estiver estejam comigo” (LIGÓRIO, Afonso M. de. Op.cit, p.25).

Neste momento em que Cristo consuma o Santo Sacrifício para a redenção da humanidade, sua Cruz torna-se venerável para nós cristãos! Ela que fora objeto de maldição será doravante símbolo da salvação como nos ensina São Paulo:

“A linguagem da cruz é loucura para os que se perdem, mas, para os que foram salvos, para nós, é uma força divina”. (I Cor 1,18); “Quanto a mim, não pretendo, jamais, gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo”. (Gal 6,14); “Espoliou os principados e potestades, e os expôs ao ridículo, triunfando deles pela cruz”. (Col 2,15).

O Sagrado Magistério da Igreja nos ensina que:

"Sua sanctissima passione in ligno crucis nobis iustificationem meruit - Por sua santíssima Paixão no madeiro da cruz mereceu-nos a justificação", ensina o Concílio de Trento, sublinhando o caráter único do sacrifício de Cristo como "princípio de salvação eterna". E a Igreja venera a Cruz, cantando: crux, ave, spes unica - Salve, ó Cruz, única esperança". (Catecismo da Igreja Católica § 617)

Iluminados por essa Santa Palavra do Senhor possamos confiar-nos sempre a Ele, fazendo assim como o Cristo, a vontade do Pai: “Davi punha toda a sua esperança no futuro Redentor, dizendo: “Em vossas mãos, Senhor, entrego o meu espírito; pois vós me remistes, Senhor Deus da verdade” (Sl 39,6). Quanto mais nós devemos confiar em Jesus Cristo, que já realizou a nossa redenção? Digamos-lhe, pois, com grande confiança: “Vós me remistes, Senhor, por isso em vossas mãos encomendo o meu espírito.” (LIGÓRIO, Afonso M. de. Op.cit, p.25).

Salve, ó Cruz, única esperança!
Crux, Ave, Spes Única
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Referências Bibliográficas

AQUINO, Felipe. As Sete Palavras de Cristo na Cruz. Lorena-SP: Cléofas, 2005.

Bíblia Sagrada. 14º Ed. São Paulo: Ave Maria, 1998.

Catecismo da Igreja Católica – Edição típica Vaticana. São Paulo: Loyola, 2000.

LIGÓRIO, Afonso M. de. A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. Vol. II, Ed.PDF, Fl. Castro, abril 2002.

Papa João Paulo II. Carta aos Sacerdotes por ocasião da Quinta Feira Santa de 1998, Vaticano, 25/03/1998.

Papa Leão XIII. Carta Encíclica Adiutricem Populi, Roma, 25/09/1895.
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Observação: Todos os grifos do artigo são do autor.

Para citar este artigo:
JESUS, Leandro Martins de. Apostolado Veritatis Splendor: AS "SETE PALAVRAS DE CRISTO NA CRUZ".. Disponível em http://www.veritatis.com.br/article/4912. Desde 19/3/2008. 
Copiado de: http://www.recantodasletras.com.br/artigos/920986

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