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quarta-feira, 5 de março de 2014

Tempo de Conversão


Por: Frei Carlos Roberto de Oliveira Charles, OFMConv.*
A Quaresma se caracteriza como um tempo sinalizado pela liturgia da Igreja como preparação para a grande festa anual da Páscoa do Senhor e nossa. São quarenta dias, vividos como um caminhar pedagógico e espiritual, quando a comunidade e seus membros buscam assemelhar-se ao Cristo obediente, solidário e vencedor da morte, numa atitude discipular de conversão a Jesus e ao seu projeto. O caminho quaresmal é marcado pela caridade, pelo jejum e pela oração, num clima simbólico de deserto.
Os quarenta dias têm um sentido mais teológico-bíblico que numérico. Os cristãos refazem o caminho da Aliança que em Cristo tem o seu sentido e desfecho. Como o Povo da Primeira Aliança, vivemos o “deserto” quaresmal como tempo de elaboração, tempo de gestação de uma nova pessoa, nova comunidade e nova sociedade. Por isso, os textos bíblicos nos dão o sentido maior desse tempo: os quarenta dias em que Moisés esteve no Monte Sinai (Ex 24, 12-18.34); os quarenta dias em que Golias, o gigante filisteu, desafiou Israel, até que Davi avançou contra ele, abateu-o e o matou ( cf. 1Sm 17, 4-54); os quarenta dias durante os quais Elias, fortificado pelo pão cozido sob as cinzas e pela água, chegou ao Monte de Deus, o Horeb (1Rs 19, 3-8); os quarenta dias nos quais Jonas pregou a penitência aos habitantes de Nínive (Jn 3, 1-4); e, principalmente o jejum de quarenta dias de Jesus Cristo (cf. Lc 4, 1-13).
Jesus é o protagonista da Quaresma: sobe a Jerusalém, faz o caminho da cruz e passando pela morte, chega à nova vida que o Pai lhe dá. É em Cristo que, cada ano, revivemos esta experiência pascal.
É necessário fazer da Quaresma um tempo favorável de avaliação das nossas opções de vida e linhas de trabalho, de corrigir erros e aprofundar a dimensão ética da fé, abrindo-nos aos outros e realizando ações concretas de solidariedade. É tempo forte de escuta da Palavra, pois através dela vamos conhecer os desejos de Deus e praticar a sua vontade, descobrindo sua face misericordiosa.

Para melhor vivenciar o tempo quaresmal e explicitar nossa atitude interior de penitência e disposição à conversão, é importante que a comunidade tenha alguns cuidados:

  1. A Quaresma começa na quarta-feira de Cinzas, dia de jejum e abstinência, e termina na quarta-feira santa. Todavia o clima quaresmal perpassa a quinta-feira santa, Festa da Instituição da Eucaristia, a sexta-feira santa, recordação da Paixão-Morte do Senhor (dia de jejum, abstinência, moderação e recolhimento interior) até sábado santo à noite, quando se celebra a Vigília Pascal;
  2. O espaço dentro da igreja deve ser despojado, guardando as expressões festivas, como uso de flores, para a Páscoa;
  3. A cor litúrgica da Quaresma é roxa, que expressa a dimensão maior de penitência e disposição à conversão;
  4. Os cantos também são sóbrios possibilitando a interiorização e a meditação, evitando-se instrumentos musicais que produzam sons festivos;
  5. Escolher um gesto concreto para experimentar a penitência quaresmal. A Igreja teve por muitos anos a tradição de não consumir carne durante a Quaresma. Atualmente reserva-se apenas a quarta-feira de cinzas e a sexta-feira santa para este preceito, ainda que muitos fiéis ainda observem o antigo costume. Outros passam a Quaresma inteira observando o preceito penitencial às quartas e sextas-feiras. A abstinência de carne, durante a Quaresma, não na quarta-feira de cinzas nem na sexta-feira santa, pode ser substituída por outros gestos mais peculiares à conversão peculiar; outro gesto é acompanhar a via-sacra às sextas-feiras;
  6. A Igreja sugere a seus membros que experimentem a graça sacramental do perdão através do Sacramento da Confissão Individual que estão obrigados a celebrar pelo menos uma vez ao ano, preferivelmente neste período de preparação para a Páscoa;
  7. A Confissão Comunitária, que já é costumeira, é apenas uma preparação e motivação para se fazer uma boa confissão pessoal e não atende às necessidades de reconciliação sacramental;
  8. A Quaresma é um tempo oportuno para que a Família Cristã possa resgatar seus valores e princípios no coração do lar, promovendo reflexões familiares com os filhos, leituras bíblicas, conversas amadurecidas e informativas, oração do terço, novenas, etc;
  9. A Quaresma é um convite a Caridade Cristã, principalmente em favor dos empobrecidos e excluídos da sociedade;


  10. No Brasil, a CNBB orienta toda a Igreja para a Campanha da Fraternidade, quando os fiéis são convidados a refletir sobre os desafios atuais sejam da sociedade ou da Igreja. Neste ano, refletiremos a fraternidade e o tráfico humano;
  11. Quaresma também é sinônimo de CATECUMENATO, ou seja, tempo de concluir o longo processo de preparação de adultos para o Batismo e celebrar os Ritos de Iniciação Cristã de Adultos (RICA), com os escrutínios de acolhimento, ritual de ingresso, exorcismos, entrega da cruz, da Bíblia e pré-unção, para que o Batismo seja celebrado no Sábado Santo. Neste tempo, a quaresma, através destes ritos, a Comunidade Paroquial acolhe e passa a conhecer melhor seus catecúmenos (pessoas que se preparam para o batismo) e estes, pouco a pouco, vão conhecendo a comunidade da qual desejam ser membros;
  12. Por fim, a Quaresma é uma oportunidade solene para crescer na fé, buscando a direção certa do coração de Deus no caminho que é Jesus Cristo.

Que a Quaresma seja para cada um de nós o momento da união, da confraternização e do exercício da caridade em favor da comunhão e do testemunho de nossa vida cristã.

*Frei Carlos Charles é doutorando em Teologia na PUC-Rio, pároco em Juiz de Fora, membro do conselho presbiteral, do definitório custodial e do MiReFALC OFMConv, pintor e escritor.

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