Ordem dos Frades Menores Conventuais - Custódia Provincial Imaculada Conceição dos Franciscanos Conventuais do Rio de Janeiro - PAZ & BEM!!!

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

800 anos do carisma franciscano

INTRODUÇÃO 

Há 800 anos, o Espírito Santo agraciou Francisco e Clara com a vocação de levar uma vida de Irmãos Menores. A Igreja reconheceu e confirmou este carisma que deu início a um grande movimento, um modo especial de ser Igreja e sociedade civil. No decorrer dos séculos, houve inúmeras pessoas que se sentiram atraídas por esta forma vitae. É neste espírito que este trabalho vai apresentar o carisma em uma forma ampla; de como se dá esta manifestação e de como São Francisco transformou o seu tempo em um grande louvor ao Deus Altíssimo como a forma de vida dentro do mundo, cheia de atitude, ressaltando a vida em comum, sua eclesialização e suas conseqüências. 

O carisma Franciscano tem como fundamento a inspiração feita pelo Espírito Santo de Deus a um homem de uma pequena cidade de Assis na Itália. Inspiração esta do encontro com o Senhor Jesus Cristo, pobre e crucificado, e através da observância e vivência do santo Evangelho. 

Nesta inspiração, brota na Igreja, através de Francisco de Assis, uma maneira original e singular de viver o Evangelho, in illo tempore. Ou seja, um estilo de vida pautada na Boa Nova de Jesus em resgate a modalidade das primeiras comunidades cristãs como nos descreve o livro dos Atos dos Apóstolos (2,42-47): 




Eles eram perseverantes em ouvir o ensinamento dos apóstolos, na comunhão fraterna, na fração do pão e nas orações. Apossava-se de todos o temor, e pelos apóstolos realizavam-se numerosos prodígios e sinais. Todos os que abraçavam a fé viviam unidos e possuíam tudo em comum; vendiam suas propriedades e seus bens e repartiam o dinheiro entre todos, conforme a necessidade de cada um. Perseverantes e bem unidos, freqüentavam diariamente o templo, partiam o pão pelas casas e tomavam a refeição com alegria e simplicidade de coração. Louvavam a Deus e eram estimados por todo o povo. E, cada dia, o Senhor acrescentava a seu número mais pessoas que seriam salvas. 

A vida franciscana se tornara à imitação apostólica tendo como regra e carisma o Evangelho. Em Francisco o Senhor fez suscitar em muitos corações o desejo de experimentar este estilo de vida, atraindo para ela não só homens, mas mulheres virgens e as viúvas, e também os casados. Nascendo as três ordens franciscanas: o ramo masculino da 1ª Ordem chamado de Frades Menores; o ramo feminino da 2ª Ordem chamada de Ordem das Damas Pobres orientada e co-fundada por Santa Clara; e dos leigos casados chamado inicialmente de Ordem da Penitência, hoje conhecidos por Ordem Franciscana Secular (OFS). Todos com a mesma proposta de São Francisco de Assis de viver segundo o Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, na minoridade, obediência, sem nada de próprio, e em castidade. “Foram muitos os que quiseram deixar os cuidados mundanos para chegar ao conhecimento de si mesmos na vida e na escola do Santo Pai Francisco, caminhando para o amor de Deus e seu culto” (1 Cel 37). 

Com isso, este trabalho vai apresentar como se dão o carisma de forma ampla e mostrar como Francisco trabalhou a questão da entrega total a Deus, seguindo os preceitos de Evangelho . 




O CARISMA (LATO SENSU) 




Antes de descrever o carisma franciscano é necessário inferir como se caracteriza o carisma no sentido mais universal. Geralmente, o que dá forma ao carisma é, antes de tudo, a manifestação, que está além do ordinário: é dom que é suscitado em pessoas especiais, denominadas profetas. Por conseguinte, esses anunciam através da palavra uma mensagem que mobiliza outras pessoas a seguirem-no. Este anúncio não se dá motivado somente pela instrução intelectual, mas, sobretudo, pela animosidade, que possibilita uma mudança da atitude, transformando o coração e dando um sentido mais ascendente à vida. 

Logo, os profetas são vistos como personae non gratae, ocasionando conflitos entre pessoas e estruturas já definidas. E também o exemplo contribui para que seus seguidores sintam-se motivados a verem que vale a pena seguí-los. Destarte, vimos que todas essas características aqui citadas constituem um carisma que se move incessantemente, fomentando e estruturando a mentalidade. 

Prosseguindo com a movimentação do carisma, seus seguidores, devidos serem humanos e esses, por natureza, organizarem o espaço onde vivem; exigem algo mais concreto, para que suas vidas sejam conduzidas a um anseio à salvação, mediante a normas bem claras e distintas; à divisão de tarefas; à eleição de seus dirigentes. 

Então, aquela mensagem mencionada pelo profeta que, com a estruturação do carisma, torna-se um documento sagrado e, por fim, acomoda-se com outras características institucionalizadas, ao mundo. E, conseqüentemente, instâncias superiores discernem se, de fato, seguem com fidelidade o que é devido. Citamos como exemplo os movimentos heréticos que, no começo, foram fiéis à Igreja e logo se desviaram daquilo que os motivaram, indo contra a instituição. 

Com isso, o carisma franciscano transformou a sociedade medieval, trazendo à tona o sentido do ser humano, provido do amor divino, como veremos a seguir. 




O CARISMA FRANCISCANO: SUA FORMA DE VIDA 




Francisco de Assis, com seu fulgor cavalheiresco, foi um zeloso caminheiro pelas coisas do Alto. Sua fidelidade à Igreja foi um grande marco para aquela sociedade, que dava descrédito, inclusive, aos dirigentes da Igreja. 

Homem de muito vigor suscitou um novo modo de viver, cujo ideal não era estar isolado do mundo, mas continuar inserido nele. Isso o diferenciou dos beneditinos e dos agostinianos. Diante dessas diferenças, Francisco admoestava seus irmãos a jamais contrariarem os bispos e sacerdotes, seguindo com exemplar obediência e autêntico modo de vida o seu caminho, convicto de seus ideais. 

A forma de vida evangélica escolhida por Francisco e Clara foi uma verdadeira alternativa para as outras formas de vida então existentes. Eles moldam, durante toda a vida, esta nova identidade da sua comunidade. 

Se alguém lhe disser outra coisa ou sugerir algo diferente que impeça a sua perfeição, ou parecer contrário ao chamado de Deus, mesmo que mereça a sua veneração, não siga o seu conselho. Antes de mais nada, abraça o Cristo pobre, como uma virgem pobre! (2 In 17-18) .

Por ocasião de um Capítulo da Esteiras em Porciúncula, Francisco disse na presença do Cardeal de Óstia, aos irmãos: 

Deus chamou-me para o caminho da simplicidade em da humildade e, na verdade, indicou-me este caminho, para mi e para aqueles que confiam em mim e querem seguir-me neste caminho. Portanto, não quero que me citeis outra Regra nem de São Bento, ne de Santo Agostinho, nem de São Bernardo nem outro caminho e forma de vida além daquele que, misericordiosamente, o Senhor me revelou e concedeu. E o Senhor disse-me que devia ser como um novo louco neste mundo e não quis conduzir-nos por outro caminho, que não o desta ciência (EP 68, 6-7). 

Cabe inferir o que disse Elói Lerlec, OFM quando afirmara: 

Quando Francisco pediu à Igreja o reconhecimento da sua forma de vida e a dos seus irmãos, com certeza não pediu que a mesma se renovasse conforme a visão dele. Só pediu a autorização de poder viver segundo o Evangelho. Pediu o direito de poder viver numa comunidade reconhecida, pura, simples e evangélica. Pediu um espaço de liberdade e de simplicidade dentro da instituição eclesiástica feudal, uma zona franca fora das estruturas sedutoras de poder. A liberdade de viver segundo o Santo Evangelho pressupõe uma luta corajosa (LERLEC, E.Francisco da Assis, o retorno ao Evangelho). 







UMA ATITUDE DENTRO DO MUNDO 







O poverello de Assis nutre seu carisma a partir da leitura e seguimento do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, a partir de seu próprio modo de interpretação. Com isso, ele mostra uma atitude diante de tudo que o cercava. O que significa que o alter Christi não renunciara ao mundo, mas sim apresentar a esse qual o real sentido do homem, que deve buscar o sentido da sua vida nos vestígios de Deus, sem jamais renunciar a sua essência. 

Os primeiros irmãos ou andavam pregando pelo mundo, ou trabalhavam em casas de pessoas como jornaleiros. Entretanto, à noite retiravam-se para as florestas para rezarem, conversarem e admoestarem-se uns aos outros (SCHRENDER, 1963, p.51). 

Assim, eles levavam o ideal de perfeição evangélica ao mundo em que viviam, ou seja, àqueles que precisavam de algo que revigorassem as suas vidas. Daí que o trabalho para Francisco e seus irmãos tem uma nova perspectiva, visto que é, antes de tudo, uma gratia Dei; que era direcionado ao serviço caritativo, baseado na mensagem do Evangelho, “conveniente para um homem honesto” (SCHRENDER, 1963, p.52). 

Um outro aspecto relevante é que nunca rejeitava o seu próximo. O que significa que era indiferente mediante as classes sociais, tratando todos como criaturas de Deus por excelência e exortava seus irmãos a “não julgarem de modo depreciativo a nobreza, o clero e os cidadãos distintos” (id). Com isso, o santo de Assis demonstra o quão é importante os homens apresentarem seus corações ao Deus que os criou do que buscar as coisas do mundo terreno. E tudo isso ele fazia com a mais serena paz, sem usar força física, armas, tropas. 




A VIDA EM COMUM 




A reviravolta na sociedade assisiense ainda se dá na forma de vida comunitária franciscana. O sentido de não possuir nada de próprio é uma grande transformação que, pautada na solidariedade, manifestava o amor de Deus perante as pessoas, seja para com os irmãos, seja para com os mais necessitados e rejeitados como, por exemplo, os leprosos da cidade. Pode se ainda enaltecer que esta “grande comunidade” era confortada pelas pessoas de todas as classes sem distinção alguma. 

Como organismo humano, nesta comunidade havia também uma referência, uma autoridade. Francisco não utilizava tal autoridade para obter prestígio dos irmãos, clamor, fama, mas como um ministro – servidor – dos irmãos. Este serviço demonstrava que havia proximidade entre todos, não sendo algo distante ou submetê-los a uma autoridade superior, uma vez que se o ministro não desempenhar o seu papel de servidor da Ordem com humildade, sabedoria e obediência vinculada à pobreza, seus confrades podem retirá-lo deste serviço. 




A DINÂMICA DO CARISMA RUMO A ECLESIALIZAÇÃO 




O que Francisco pregara não era fixado em leis ou regras. Contudo, com o crescimento do número de pessoas na Ordem, ele teve a sabedoria em concordar com os que desejavam se dedicar à ciência, permitindo que esses passassem mais tempo nos conventos. Destarte, dinamismo de Francisco é demonstrado na regra, cuja base está no Evangelho, sem acomodações. 

Com tal crescimento via-se como uma má interpretação ascese no mundo o retirar-se do mundo, morar em conventos, observar uma ordem do dia. Todavia, o santo de Assis era democrata e “não proibiu a seus irmãos a vida contemplativa”. (SCHRENDER, 1963, p.56). Conseqüentemente, a Ordem foi clericalizada com o aumento de clérigos, que representavam 75% dos franciscanos na Europa Ocidental e a regra fora constituída como um documento jurídico, aumentando o abismo entre o fundador e a sua Ordem com o “enfraquecimento” do fulgor originário. A exigência de Francisco e além daquela época, uma vez que era um tempo imaturo para tal aspecto. 




O CARISMA FRACISCANO NOS TRÊS RAMOS DA PRIMEIRA ORDEM 




Na Família Franciscana, tendo “como ponto de partida” (2 Ct. In. 11), as três primeiras ordens, brotou muitos movimentos, congregações e institutos com o carisma franciscano. Inclusive na Ordem primeira, sob a qual ir-se-á explorar um pouco mais de perto e averiguar a maneira de viver o carisma inicial proposto pelo nosso Seráfico pai ao longo da história Franciscana. 

Ao longo da história franciscana “nascem” da primeira ordem duas ramificações, oriundas dos Frades da Comunidade, a saber: os frades da União Leonina e os frades Capuchinhos. Não se pode esquecer que as variações e modos de viver o carisma franciscano se manifestaram de muitas formas e em muitos nomes. No entanto, este trabalho se concentrará nas três famílias existentes hoje. 

A Regra é um elemento visível à intuição de Francisco e referência ao carisma original. A Ordem deve a Regra o seu sentido de ser e a pessoa de Francisco como modelo e ideal comum do “Irmão por excelência”. na Regra verifica-se a determinação carismática da vida, segundo o Santo Evangelho e os próprios Conselhos evangélicos de obediência, sem nada de próprio e me castidade. 

A pobreza, então, consistia em vivere de non próprio adotado por Francisco e pelos primeiros frades da comunidade, no entanto esta forma de viver a pobreza começou a ser questionada por alguns, conhecidos por “espirituais”. estes não questionavam o fundamento da pobreza , mas sim a forma de como praticá-la, que deveria ser de uma forma, com um compromisso radical de uma vida pobre. Desta querela se iniciou na Ordem de São Francisco um processo cismático de ver e viver o carisma originário franciscano. 

Os frades da comunidade buscavam vivenciar a dimensão da vida fraterna e na contemplação, os “espirituais” por sua vez, uma dimensão cada vez mais pastoral (paroquial / ação social). No início da Ordem estas duas dimensões deveriam englobar e entrelaçar a vida franciscana, no entanto, acabou se tornando um movimento pendular de extremos que qualificava a diferença entre estes dois grupos. 

Em 1517 o Papa Leão X, tinha a intenção de definir a situação da Ordem de São Francisco, convocando um Capítulo Geral na iniciativa de tentar para união para a Ordem. 

Na verdade, é o equilíbrio das duas dimensões que se exprime a vitalidade do carisma, que engloba e entrelaça contemplação e solidariedade. na história as duas dimensões têm aparecido como um ininterrupto movimento pendular, que gerou outros movimentos como os dos Espirituais, Bernardinos, Descalços, Alcantarinos, Recoletos e muitos outros mais. Foi desta história, cheia de tensões, que nasceram os três ramos da primeira Ordem hoje existentes. 

Em 1517, o então Papa Leão X queria definir a situação; Convocou um Capítulo Geral, chamado Capítulo da União, na tentativa de unificar a Ordem, que embora tivesse um único Ministro Geral, estava dividida em dois grandes grupos. Mas aquele que devia ser o Capítulo da União tornou-se o Capítulo da Divisão. Os frades, de fato, não quiseram aceitar a união proposta, e a solução foi à independência de duas Ordens (O carisma Franciscano, 1997, p. 27). 

O carisma foi ao longo do tempo interpretado pelos frades observantes, por uma vida de pobreza material muito rigorosa, sendo sujeito a enorme influencia exercida pela devotio moderna que salientava umas piedades pessoais, silenciosas, desvinculada e contra a vida comum e a piedade e reza comunitária. 

A pobreza material rigorosa nos edifícios, vestuários, viagens, dinheiro... estava sempre no centro do programa de vida. 

Viviam em lugares retirados, por vezes agrestes, em grupos pequenos, para poder dedicar-se à oração contemplativa com maior liberdade. O exercício da oração mental era fundamental na espiritualidade do movimento da observância.(...) A reação contra o “conventualismo” não era devida somente aos abusos em matéria de pobreza, mas também a uma religiosidade excessivamente monástica e rituais, cuja pomposidade não deixava espaço para a piedade pessoal e para a intimidade silenciosa com Deus (MASON, 1998, p. 118). 

As acusações feitas pelo movimento da observância, com o passar do tempo foi gradualmente admitidas nas suas atitudes em viver a pobreza e a vida de oração, tal qual era feita pelos frades da comunidade. Sobretudo depois de ter assumido a sua independência e ter “adquirido” a primazia da Ordem em detrimento a esta realidade histórica dos Conventuais. 

Em 1517, Leão X convocou os conventuais e os observantes para um capítulo geral extraordinário; obrigou também a todos os grupos reformados independentes a enviar seus representantes. Naquele soleníssimo capítulo, celebrado em Roma, os conventuais recusaram oficialmente a solução de ser “reduzidos” à observância e de dar à Ordem um geral observante. O papa então decretou a separação total pela bula “Ite vos in vineam meam” , invertendo a relação de dependência mantida até então, caso único na história das ordens religiosas: a observância passava a representar hierarquicamente a Ordem; o geral conventual foi obrigado a renunciar ao cargo e entregar o selo da Ordem (MASON, 1998, p.121). 

A efervescência de uma observância mais autêntica continuava no seio dos frades do movimento da observância, já no século XVI, ou seja, poucos anos após a bula de Leão X, o mesmo conflito acontecido entre os observante e os conventuais no passado. Tentou se uma maior compreensão para os descontentes, as iniciativas sempre cada vez mais particulares para uma maior perfeição de viver o carisma da ordem “repeliam o jugo da obediência para dar-se a uma vida de vagabundos!” 

Em 1525 um jovem sacerdote Frei Mateus de Bascio, reclamava a liberdade de observar a Regra ao pé da letra, neste mesmo ano teve uma visão em que o próprio São Francisco confiava sua atitude e que o seu hábito era rude e com um capuz pontiagudo costurado à túnica. Não conseguindo a aprovação de seus superiores e nem dos frades, procurou a aprovação papal, saindo secretamente do Convento de Montefalcone e foi para Roma. Obteve com facilidade de Clemente VII a permissão, vivae vocis oráculo, com a única preocupação de se apresentar ao seu provincial todos os anos durante o capítulo. Ao se apresentar ao provincial, Frei Mateus foi encarcerado como fugitivo e vagabundo e por não ter nenhuma autorização por escrito do papa para viver daquela forma. Apresentaram se ao mesmo provincial os dois irmãos Ludovico e Rafael de Fossombrone pedindo para viver eremíticamente com outros companheiros para viver a pureza da Regra original negado pelo provincial Frei João de Fano que passou a persegui-los. 

Os frades Ludovico e Rafael procuraram refugiar-se com Frei Mateus, que tinha sido libertado pela duquesa de Camerino Catarina Cibo, e posteriormente uniu-se aos três o frei Paulo de Chioggia. (...) 

Para se prevenir das investida do provincial dos observantes, Frei Ludovico, sagaz e decidido, julgou conveniente procurar a proteção dos Frades Conventuais, com a mediação influente da citada duquesa. O geral dos Conventuais tomou sob a sua proteção os quatros frades, deixando-se livre para viverem conforme suas aspirações. 

A posição dos quatro era no mínimo muito ousada: separados da comunidade, cada um com autorização pessoal, não tinham entre si nenhum laço de sociedade canônica, nem organização alguma reconhecida. era preciso dar o passo decisivo. Catarina Cibo apresentou a seu tio, Clemente VII, uma petição de Ludovico e Rafael. Então o papa expediu a bula Religionis zelus (1528) que dava existência jurídica à nova fraternidade. A Ordem capuchinha estava fundada. 

Como carisma franciscano, além dos já mencionados acima, a Ordem dos Capuchinhos se destaca ainda por outros elementos: 

A bula era dirigida a Ludovico e Rafael de Fossombrone e dava faculdade de levar vida eremítica, guardando a regra de São Francisco, de usar barba e o hábito com capuz piramidal e de pregar ao povo; os capuchinhos ficavam sob a proteção dos superiores conventuais, porém sob o governo de um superior próprio com autoridade semelhante à dos provinciais; estavam autorizados a receberem noviços (MASON, 1998, p. 147).




CONSEQUÊNCIAS 




A manifestação do Espírito Santo deve ser tratada com muita cautela. Vimos no início que o homem, por natureza, é um ser que organiza. Entretanto, por exigência, isso não deve ser negado. A grande questão é: como é possível desenvolver-se sem desviar-se do carisma original? O grande desafio é perpassar os séculos com tamanho vigor. Francisco foi pragmático, trabalhando para reconstruir as ruínas da casa do Senhor Jesus Cristo, sendo fiel a Igreja envolta do espírito do Evangelho: 

Atualmente, a muitos cristãos que estão sem dúvida, inspirados evangelicamente, mas não querem pôr as suas forças imediatamente a serviço da instituição eclesiástica para corroborar a influencia dela na sociedade. (SCHRENDER, 1963, p.62). 

As congregações que surgem têm finalidades limitadas como missões populares, retiros, ensinos. Porém, tais tarefas envolvem outras instancias causando esfriamentos do carisma e refletindo na queda do número de vocações. É com maior amplitude que São Francisco nos indica o caminho envolto numa gama de trabalhos; o que significa que o mundo era o seu convento. Logo, podemos inferir que a eclesialização não é fator negativo em uma estruturação de uma ordem ou congregação. O que se deve constatar é que essa transforma o que está se dando de forma indefinida, direcionando a Verdade sem ferir aquilo que anima tal instituto, que é o carisma. 

A celebração dos 800 anos do carisma franciscano é uma proposta de remetermos àquilo que nos move. Ainda somos uma alternativa evangélica em um mundo, no qual não se vê mias a esperança? Podemos mostrar algo “novo” a esta sociedade que, mesmo estando há séculos evoluindo, ainda tem atitudes de regresso frente aos desígnios de Deus.




CONCLUSÃO 




O espírito franciscano suscita um carisma que fascina, encanta, movimenta o homem. Esta inquietação mostra a esperança de que ainda há “Franciscos” no mundo que precisam de coragem em lançar-se à proposta originária, sem jamais apagar o fulgor carismático. 

A Ordem 1ª teve muitos outros imprevistos ao longo da história e muitos detalhes não foram relatados aqui por não ser um trabalho especificamente da história franciscana, há de se ponderar hoje que não existe uma diferença expressiva nos três ramos da primeira Ordem. claro que cada uma delas tem suas constituições próprias, Ministro Geral independentes, igualmente aos conventos e processo formativo. O Hábito é o grande resquício e diferencial das famílias. Devemos ressaltar que os Frades Franciscanos Conventuais sobreviveram a inúmeras tempestades, porém continuam a ter a primazia do carisma e da Ordem dos Frades Menores. Sem esta tradição, os franciscanos não teriam chegado até os tempos atuais. 

Concluímos com uma bela citação de Rober Schultz: 

Somente quando nosso coração se livrar de toda amargura e se encher de uma infinita amizade pelo próximo, este próximo poderá aceitar de nós advertências e conselhos. Quando o amor do Cristo vivo aumentar em nós, ser-nos-á simplesmente impossível deixar o próximo andar encurvado sob o peso de uma consciência má. Ao contrário, avançará por terra firme, na certeza de estar com Deus. 

Na história, há uma só testemunha de uma reforma verdadeira: São Francisco de Assis. Padeceu pela Igreja e a amou, conforme o exemplo de Cristo. Teria podido julgar as instituições eclesiásticas, os costumes e o endurecimento de certos cristãos da sua época. Mas é exatamente isso que ele não quis fazer. Preferiu morrer a si mesmo. Esperou com paciÊncia ardorosa, e do seu esperar, ardente em, amor, surgiram certo dia as renovações (SCHULTZ, R. Este é o dia de Deus, p.104). 







Por: Fábio Soares da Silva e Leonardo Rodrigues de Valença.




BIBLIOGRAFIA




O carisma missionário franciscano: A Família Franciscana. Petrópolis: Editora Vozes, 1997.




MASON, Fernando (org.).Compilação de história franciscana: Pro Manuscrito. Caçapava: Convento São Benedito, 1998.




SCHRENDER, O. Trad. Serafim Lunter. Instituição e carisma: Documentos CEFEPAL. Petrópolis: Vozes, 1963. p. 45-64.

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