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sábado, 20 de julho de 2013

Amizades de São Francisco: Jacoba e Praxedes

Encontrar uma verdadeira amizade é, segundo as Escrituras, encontrar um tesouro.
São Pessoas que dão um tom todo especial na vida.





Na sua vida, São Francisco experimentou o significado de tão belo ensinamento. De fato, ele pôde contar sempre com a amizade de Clara, de Frei Leão, da senhora Jacoba, de Praxedes, etc.
Falaremos brevemente sobre a amizade de São Francisco com essas duas mulheres de Roma: Jacoba e Praxedes.

Jacoba de Settesogli

 No Tratado dos Milagres, o Frei Tomás de Celano nos oferece algumas informações sobre esta amiga do seráfico pai: 
“Jacoba de Settesogli, ilustre, seja por sua nobreza, seja por sua santidade, na cidade de Roma, merecera o privilégio de uma afeição toda particular da parte do santo” (3Celano 37,1).
Estando gravemente enfermo, e sabendo que iria morrer em breve, o pai Francisco mandou escrever uma carta à Senhora Jacoba “comunicando-lhe que se apressasse, caso desejasse ver aquele a quem tanto amara, o exilado, que estava para retornar à sua pátria”(3Celano 37,3). 
Antes do mensageiro sair com a carta, chega uma comitiva com a Senhora Jacoba para visitar o santo. Ele se alegrou de tal forma que disse aos frades: “Bendito seja Deus, que nos enviou o nosso irmão, Senhora Jacoba! Abri as portas e introduzi-a, pois o decreto que proíbe a entrada de mulheres não vale para Frei Jacoba” (3Celano 37,8-9).
Um detalhe importante é descrito por Celano: 
“Tudo quanto a carta pedia que fosse trazido para as exéquias do pai esta santa mulher o trouxera. Um pano cinza para cobrir o corpo moribundo muitas velas, um sudário para cobrir o rosto, um travesseiro para a cabeça, e mesmo algumas iguarias de que o santo gostava. Tudo o que o espírito desse homem desejara Deus havia trazido” (3Celano 38,3). O biógrafo diz que a presença desta nobre senhora “deu mais força ao santo, e havia a esperança de que ele viveria ainda um pouco mais” (3Celano 38,6).
Poucos dias depois morre o santo pai. A senhora Jacoba permaneceu até os últimos momentos ao lado do amigo querido. Frei Elias, o Vigário de São Francisco, entregou o corpo do santo para que a distinta senhora pudesse contemplar melhor aquele que se tornara imagem de Cristo aqui na terra. Disse-lhe o Frei Elias: “Eis aqui, toma nos braços, depois de morto, aquele a quem amaste quando vivo” (3Celano 39,1b). 
E Tomás de Celano afirma que ela, afastando o sudário, viu as cinco chagas de Cristo esculpidas na carne do bem-aventurado pai, e que esta contemplação trouxe-lhe grande consolação.
São Boaventura nos conta que São Francisco, em certa ocasião, passando por Roma, deixou um cordeirinho aos cuidados da Senhora Jacoba, e que “o cordeiro, como se tivesse sido instruído pelo santo nas coisas espirituais, ligou-se à senhora como companheiro inseparável quando ela ia à igreja, quando lá permanecia e quando retornava” (LM 8,7).
Quando visitamos o sepulcro de São Francisco, podemos ver na mesma cripta o lugarzinho onde estão os restos mortais desta santa mulher tão dedicada ao Pobrezinho de Assis.

Praxedes

O Frei Tomás de Celano também nos informa que São Francisco foi amigo de uma eremita romana, chamada Praxedes. Era uma mulher que vivia na reclusão de uma pequena cela, dedicando-se dia e noite à oração, ao silêncio e à penitência.

No Tratado dos Milagres, Celano fala brevemente sobre esta mulher e de sua relação com o seráfico pai:
“Praxedes era muito famosa, tanto entre as religiosas de Roma quanto em todo o território romano, porque desde a mais tenra idade, por fidelidade para com seu Esposo eterno, se recolhera numa cela estreita, já passados quase quarenta anos. Mereceu o privilégio de uma santa familiaridade para com São Francisco. O que este não fizera a nenhuma outra mulher, fez com ela, aceitando-a à obediência e concedendo-lhe, por piedoso devotamento, o hábito religioso, isto é, a túnica e o cordão”. (3Celano 181, 1-2).

Certo dia, sofrendo uma terrível queda, Praxedes teve vários ossos quebrados, ficando praticamente paralisada sobre o chão. Como a eremita não queria renunciar de nenhuma maneira o seu voto de perpétua clausura, mesmo sendo aconselhada por um cardeal, não aceitou a presença de outras pessoas que pudessem socorrê-la.
Então ela voltou-se para São Francisco e implorou o seu auxílio: “Ó santíssimo Pai meu, que em toda parte socorres com bondade às necessidades de tantos, que nem sequer conhecias quando vivo, por que não vens em auxílio desta infeliz, que, mesmo que indignamente, teve o privilégio da tua amizade, enquanto vivias? Realmente, faz-se necessário, como vês, ó Pai, ou mudar o meu voto, ou, então, sofrer o juízo da morte”. (3Celano 181, 8-9). Depois deste lamento, ela caiu num sono profundo e viu São Francisco que vinha até ela, dizendo: “Levanta-te, filha bendita, não temas! Recebe o dom da completa saúde e conserva inviolável o teu voto”. (3Celano 181, 11b-12). Assim, quando ela acordou, percebeu que estava totalmente curada, e pôde levantar-se e andar como antes.
Esta amizade, mesmo que descrita de forma muito breve por Tomás de Celano, parece ter sido intensa. Esta conclusão é confirmada pelas fortes expressões utilizadas pelo autor: “Mereceu o privilégio de uma santa familiaridade para com São Francisco”; e “Por que não vens em auxílio desta infeliz, que, mesmo que indignamente, teve o privilégio da tua amizade, enquanto vivias?”.
Através destes relatos podemos enxergar um santo que não teve medo dos mais nobres sentimentos humanos. Já estando liberto dos apegos egoístas, pôde cultivar nobres amizades que alegraram seu espírito até mesmo nos seus últimos instantes.

Amizade entre Clara e Francisco 

Muitas pessoas, influenciadas geralmente por filmes, acham que São Francisco e Santa Clara, quando jovens, foram enamorados e apaixonados um pelo outro. Para esclarecer essa questão vamos procurar nas fontes históricas alguns elementos que nos proporcionem uma visão adequada e verdadeira da relação entre esses dois grandes santos de Assis.
O estudioso Optatus van Asseldonk nos assegura que, antes da conversão, São Francisco não teve nenhum contato com Clara: “Nas fontes históricas não há nenhuma alusão a um eventual contato direto entre os dois jovens, antes do seu relacionamento espiritual-vocacional.” (Dicionário Franciscano, Vozes, 1999, pág. 37).
Lembremo-nos de que Francisco era mais velho do que Clara pelo menos onze ou doze anos. Ele nasceu em 1181 ou 1182 e ela nasceu em 1193 ou 1194. Quando Francisco se despoja diante do bispo de Assis e se veste como eremita, Clara era uma menina de doze ou treze anos enquanto ele já tinha por volta de vinte e quatro anos.

Como foi a origem da amizade entre os dois santos?

Vejamos o que nos informa a Legenda de Santa Clara:
“Quando ouviu falar do então famoso Francisco que, como homem novo, renovava com novas virtudes o caminho da perfeição, tão apagado no mundo, quis logo vê-lo e ouvi-lo (...).
Ele, conhecendo a fama de tão agraciada donzela, não tinha menor desejo de ver e falar com ela (...). Ele a visitou, e ela o fez mais vezes ainda, moderando a frequência dos encontros para evitar que aquela busca divina fosse notada pelas pessoas e mal interpretada por boatos.
A moça saía de casa, levando uma só companheira, e frequentava os encontros secretos com o homem de Deus (...).
O Pai Francisco exortava-a a desprezar o mundo, mostrando com vivas expressões que a esperança do século é seca e sua aparência enganadora. (...)
Então, submeteu-se toda ao conselho de Francisco, tomando-o como condutor de seu caminho, depois de Deus.” (Legenda de Santa Clara 5-6).
No Processo de Canonização a Irmã Beatriz, monja em São Damião e irmã carnal de Clara, nos informa sobre os inícios da amizade entre os dois santos:
“Disse que São Francisco, conhecendo a fama de sua santidade, foi visitá-la muitas vezes para lhe falar e que a virgem Clara concordou com o que ele dizia, renunciou as coisas terrenas e foi servir a Deus o mais depressa que pôde.” (Proc. De Canonização, 12ª testemunha).

No seu Testamento, Clara recorda a promessa que São Francisco tinha feito a ela e suas irmãs:
“Vendo o bem-aventurado Francisco que nós, embora frágeis e fisicamente sem forças, não recusávamos nenhuma privação, pobreza, trabalho, tribulação, nem humilhação ou o desprezo do mundo ... alegrou-se muito no Senhor. E, movido de piedade para conosco, assumiu o compromisso, por si e por sua Ordem, de ter sempre por nós o cuidado diligente e a mesma atenção especial que tinha para com seus irmãos.
E assim, por vontade de Deus e do nosso bem-aventurado pai Francisco, fomos morar junto da igreja de São Damião.”(Testamento 27-30).

Mesmo não sendo frequentes os encontros de Francisco com Clara e suas irmãs, ele as amava com profundo amor fraternal:
“De vez em quando, admirando-se os irmãos de que ele não visitasse mais frequentemente tão santas servas de Cristo com sua presença corporal, ele dizia: ‘Não creiais, caríssimos, que eu não as ame com perfeição. (...) Dou-vos o exemplo para que, como eu faço, façais também vós. Não quero que alguém se ofereça espontaneamente para visitá-las, mas ordeno que sejam delegados aos serviços delas, contra a vontade e resistindo muito, tão somente homens espirituais, provados por digno e longo modo de vida.”(2Celano 205).

Tomás de Celano faz uma observação a respeito da pouca presença do seráfico pai em São Damião:
“Embora o pai pouco a pouco lhes subtraísse a sua presença corporal, no entanto, intensificou no Espírito Santo a disposição para cuidar delas.” (2Celano 204).
“Da parte de Clara o afeto e a amizade por Francisco parecem ter causado poucos problemas de consciência. Ela e suas irmãs exprimirão espontânea e frequentemente o desejo de ver e ouvir o Pai. Os frades, a começar pelo vigário, aprovam esse desejo (cf. 2Cel 207).” (Dic. Franciscano, Vozes, 1999, pág. 39).
Estando já bem próximo da morte de São Francisco, a bem –aventurada Clara “como estivesse muito enferma e temesse morrer antes que o bem-aventurado Francisco, chorava com alma amarga e não podia consolar-se, porque não podia ver antes de sua morte o seu único pai depois de Deus (...). E, por isso, comunicou por um irmão ao bem-aventurado Francisco. O bem-aventurado Francisco, ouvindo isto, como a amasse com paternal afeto – a ela e suas irmãs – pelo santo modo de vida delas, moveu-se de piedade (...).
Mas o bem-aventurado Francisco, considerando que o que ela desejava – a saber, vê-lo -, não podia acontecer naquela ocasião, porque ambos estavam gravemente enfermos, para consolá-la escreveu-lhe por carta a sua bênção (...). Dizendo ao mesmo irmão que ela enviara: ‘Vai e leva esta carta à senhora Clara e dir-lhe-ás que deixe de lado toda dor e tristeza, porque agora não pode ver-me; mas saiba em verdade que, antes de sua morte, tanto ela quanto suas irmãs me verão e terão de mim a maior consolação.”(Compilação de Assis 13).

Há uma belíssima página da obra “I Fioretti” que retrata o amor fraternal que unia Francisco e Clara:
“São Francisco, quando estava em Assis, frequentes vezes visitava Santa Clara, dando-lhe santos ensinamentos. E tendo ela grandíssimo desejo de comer uma vez com ele, o que lhe pediu muitas vezes, ele nunca lhe quis dar esta consolação. Vendo os seus companheiros o desejo de Santa Clara, disseram a São Francisco: “Pai, a nós nos parece que este rigor não é conforme à caridade divina; que à irmã Clara, virgem tão santa, dileta de Deus, não atendas em coisa tão pequenina como é comer contigo; e especialmente considerando que ela por tua pregação abandonou as riquezas e as pompas do mundo. E deveras, se te pedisse graça maior do que esta, devias concedê-la à tua planta espiritual”. Então São Francisco respondeu: “Parece-vos que devo atende-la?” E os companheiros: “Sim, pai: digna coisa é que lhe dês esta consolação”. Disse então São Francisco: “Pois se vos parece, a mim também. Mas, para que ela fique mais consolada, quero que esta refeição se faça em Santa Maria dos Anjos; porque ela esteve longo tempo reclusa em São Damião: ser-lhe-á agradável ver o convento de Santa Maria onde foi tonsurada e feita esposa de Jesus Cristo; e ali comeremos juntos em nome de Deus.
Chegando o dia aprazado, Santa Clara saiu do mosteiro com uma companheira, e, acompanhada pelos companheiros de São Francisco, chegou a Santa Maria dos Anjos e saudou devotamente a Virgem Maria diante do altar onde fora tonsurada e velada; assim a conduziram a ver o convento até a hora do jantar. E nesse tempo São Francisco mandou pôr a mesa sobre a terra nua como de costume. E chegada a hora de jantar, sentaram-se São Francisco e Santa Clara, juntos, e um dos companheiros de São Francisco com a companheira de Santa Clara, e depois todos os companheiros de São Francisco se acomodaram humildemente à mesa.
Como primeira vianda São Francisco começou a falar de Deus tão suave, tão clara, tão maravilhosamente que, descendo sobre eles a abundância da graça divina, ficaram todos arrebatados em Deus. E estando assim arrebatados, com os olhos e as mãos levantados para o céu, os homens de Assis e de Betona e os da região circunvizinha viram que Santa Maria dos Anjos e todo o convento e a selva, que havia então ao lado do convento, ardiam inteiramente; e parecia que fosse um grande incêndio que ocupasse a igreja, o convento e a selva, ao mesmo tempo. Pelo que os assisienses com grande pressa correram para ali, crendo firmemente que tudo estava ardendo.
Mas, chegando ao convento e não encontrando nada queimado, entraram dentro e acharam São Francisco com Santa Clara e com toda a sua companhia arrebatados em Deus em contemplação e assentados ao redor desta humilde mesa. Pelo que compreenderam ter sido aquilo fogo divino e não material, o qual Deus tinha feito aparecer miraculosamente para demonstrar e significar o fogo do divino amor no qual ardiam as almas daqueles santos frades e santas monjas; de onde voltaram com grande consolação em seus corações e com santa edificação. (...)
E assim, terminado aquele bendito jantar, Santa Clara, bem acompanhada, voltou a São Damião. (...) As irmãs muito se alegraram quando a viram voltar; e Santa Clara ficou de ora em diante muito consolada. Em louvor de Cristo. Amém. (I Fioretti 15). 

Paz e Bem!

Frei Salvio Romero, eremita capuchinho.
http://escolafranciscanademeditacao.blogspot.com.br/2012/07/amizades-de-sao-francisco-jacoba-e.html

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