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segunda-feira, 6 de maio de 2013

O Eremitismo Franciscano





O carisma franciscano encontrou na vida eremítica um ambiente natural e fecundo onde ele pôde se expressar com vigor e originalidade.  Não esqueçamos de que os eremitérios tiveram grande peso espiritual na vida e na história de São Francisco e de sua Ordem. Como falar do seráfico pai e dos seus primeiros companheiros sem mencionar suas experiências de solidão contemplativa nos eremitérios?



Porém, para compreendermos melhor o eremitismo na Ordem de São Francisco, é preciso situá-lo dentro do desenvolvimento da própria vida eremítica na história da Igreja. Só assim, perceberemos a sua originalidade e a sua importância para a vivência do carisma franciscano.




Durante o primeiro milênio da era cristã, prevaleceu no mundo ocidental um eremitismo ligado diretamente às Ordens Monásticas. A Regra de São Bento determina que o eremita deve ser aquele monge que, depois de um longo período de vida comunitária, recebe permissão de seu abade para retirar-se à solidão em busca de uma maior perfeição cristã. Geralmente, esses eremitas monásticos passavam a viver em pequenas celas dentro do próprio mosteiro ou nas suas proximidades, e não exerciam nenhuma atividade apostólica junto ao povo. Havia um entendimento comum de que essa forma de vida era considerada mais elevada e mais perfeita porque os eremitas eram aqueles que “tendo passado diuturna experiência no mosteiro, aprenderam com o auxílio de muitos a lutar contra o demônio e, treinados nas fileiras de seus irmãos para batalhas singulares do deserto, bastante firmes para dispensarem a companhia de outro, tornaram-se capazes, por meio do socorro de Deus, a sustentarem sós com a sua mão e o seu braço, a luta contra os vícios da carne e do pensamento.”[1]




A partir do século X, o eremitismo ocidental conheceu um fecundo renascimento, que, por não estar ligado às Ordens Monásticas, como ocorria tradicionalmente, desenvolveu características bem particulares. De fato, “pessoas leigas ou clérigos seculares começaram a retirar-se ao ermo diretamente, sem passar por um período de formação monástica. Vivendo em bosques e desenvolvendo como melhor podiam sua maneira própria de viver, permaneciam em contato bastante intenso com os pobres (isto é, falando, de modo geral, com sua própria classe), marginalizados, os fora-da-lei e os itinerantes sempre numerosos na Idade Média.” [2]




Diferentemente dos tradicionais eremitas monásticos, esses novos anacoretas se tornaram, com muita frequência, pregadores itinerantes “uma vez que de fato a pregação havia sido abandonada nas igrejas paroquiais e que os monges não pregavam ao povo mas somente a si mesmos.” [3] Muitos desses eremitas saíam de suas celas e, com ou sem mandato oficial, começavam a pregar, sendo bem aceitos pelo povo. No século XI, esses eremitas pregadores chegaram a exercer grande influência junto ao povo; basta recordarmos da ilustre figura de Pedro, o Eremita, o pregador da primeira Cruzada. 



     
Esse tipo de eremita itinerante e pregador, típico dos séculos XI-XII, preparou o ambiente para o eremitismo franciscano do século XIII. De fato, São Francisco de Assis viveu alternadamente no ermo e no meio do povo, pregando o Evangelho. Da sua Regra para os eremitérios, mais do que normas ou disciplinas diárias, emana um espírito de santa simplicidade e de amor fraternal que deve impregnar a vida cotidiana dos contemplativos solitários. Para o Pobrezinho de Assis, um eremitério é, de fato, “uma pequena comunidade de três ou quatro irmãos onde alguns vivem em completo silêncio e solidão contemplativa com outros que deles cuidam como suas Mães.” [4] A função dos que faziam o papel de “mães” era cuidar para que nada perturbasse o recolhimento dos demais, seus “filhos”. Porém, de tempos em tempos, os “filhos” deveriam assumir as tarefas ativas de suas “mães” para que estas pudessem também se recolher na solidão.


Carceri - Assis


O eremitismo franciscano é “profundamente evangélico e permanece sempre aberto ao mundo – embora reconhecendo a necessidade de que seja mantido certo distanciamento e certa perspectiva.” [5] Portanto, a tradição franciscana, herdeira em muitos aspectos do eremitismo não-monástico dos séculos XI-XII, não compreende a vida eremítica como afastamento total e definitivo do mundo, pelo contrário, a contemplação se abre ao mundo, dando fruto na ação evangelizadora.


 
Paz e Bem




Frei Salvio Romero, eremita capuchinho.


[1] Regra de São Bento, Cap. I
[2] MERTON, Thomaz. Contemplação num mundo de ação, Vozes, Petrópolis, pg. 241.
[3] Ibidem, pg. 241
[4] Ibidem, pg.242
[5] Ibidem, pg. 245

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