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sexta-feira, 12 de abril de 2013

O serviço ao Evangelho, o "irmão Mosca" e o verdadeiro Frade Menor

Por: Frei Luiz Pinheiro Sampaio, OFMCap*

Introdução

“Vamos começar a servir a Deus, meus irmãos, porque até agora fizemos pouco ou nada.” (1Cel 103,3; LM 14,1)

A caminhada franciscana, enquanto serviço, deve ser pautada pelo Evangelho nas dimensões concretas da vida. Deve haver uma estreita relação entre as realidades da Palavra e do cotidiano. Em todo o seu peregrinar, São Francisco e Santa Clara de Assis harmonizaram muito bem essas dimensões. Para eles era impossível separar o Evangelho da vida e vice-versa. Portanto, quando falamos de serviço evangélico e de fraternidade evangélica precisamos ter diante de nós, franciscanos e franciscanas, a compreensão de que estamos servindo a Jesus Cristo (Evangelho do Pai) e à Fraternidade, que abrange a comunidade de irmãos e irmãs (koinonia), a igreja-povo de Deus (ecclesia), a sociedade humana e a ecologia (a harmonia entre as pessoas e todas as criaturas).
Para os iniciadores do Movimento Franciscano, o compromisso assumido significava não descansar nunca nem se acomodar frente aos desafios e apelos concretos da existência humana. Entretanto, encontramos no seio da Fraternidade franciscana, de ontem e de hoje, quem acha mais fácil servir ao Evangelho como algo maravilhoso e bonito, aquilo que agrada e é suave, sem amargor e dificuldades. Para São Francisco, o amargo se lhe transformara em doçura (Test. 1), pois aprendera a encarar as mazelas da vida com muita coragem. É neste sentido que o Santo se posicionava tenazmente contrário ao irmão que não assumia a própria vocação de frade menor. A quem agia desse modo, ele dava o apelido de “irmão mosca”, porque, como tal, não contribuía com nada e só queria se beneficiar das coisas da Fraternidade.



Nos primórdios da Ordem, quando os frades residiam em Rivotorto, próximo de Assis, havia um frade entre eles que rezava pouco, não trabalhava e comia bem! Considerando essa conduta, São Francisco, inspirado pelo Espírito Santo, conheceu que era um homem carnal e lhe disse: “Segue teu caminho, irmão mosca, porque queres te alimentar do trabalho de teus irmãos e ficar ocioso na vinha do Senhor. És como o zangão ocioso e estéril, que nada produz, porque não trabalha, e, contudo, se nutre do trabalho e do ganho das laboriosas abelhas.”

Nesta reflexão, vamos procurar identificar alguns elementos que nortearam a experiência franciscana a partir de um olhar sobre o Evangelho e seus reflexos nas vidas de São Francisco e Santa Clara e, sem dúvida, na história do Movimento Franciscano. O assunto em destaque será tratado sob duas linhas: servir ao Evangelho de Jesus Cristo e servir ao irmão e à fraternidade. Para tanto, usaremos alguns textos das Fontes Franciscanas e outros referenciais.

1. A serviço do Evangelho de Jesus Cristo

Os franciscanos e as franciscanas de ontem e de hoje se caracterizam por uma peculiar experiência vivencial e concreta do Evangelho, seja em nível de serviço dentro da fraternidade ou em nível de serviço fora dela, procurando assim responder aos diversos contextos do mundo. Foi desse modo que os fundadores da Família Franciscana entenderam, assimilaram e praticaram profundamente a proposta de Jesus Cristo. Cada aspecto das vidas de São Francisco e Santa Clara reflete a capacidade que tiveram de ir alem das letras e das palavras escritas. Podemos lembrar, por exemplo, a superação de Santo Pai quanto ao “nojo” de leprosos (Test 1). Da Mãe Clara, recordamos a ousadia que teve de abandonar as comodidades familiares e fugir de casa pela “porta dos mortos” (LSC 7-8). Foi dessa maneira que os dois se deixaram contagiar por Jesus Cristo e, nesse entusiasmo, encantaram muita gente.

1.1 A Regra franciscana: “observar o Evangelho”

Sabemos muito bem e vale a pena acentuar, que as Regras de São Francisco, de Santa Clara e da Ordem Franciscana Secular têm como núcleo o Evangelho de Jesus Cristo com suas reais consequências para a vida cotidiana, seja na dimensão religiosa ou leiga. Embora canonizadas, isto é, reconhecidas pela Igreja, essas regras não podem ser vistas e tomadas como normas jurídicas em si, mas como um conjunto de princípios vitais que dão sentido à vocação de cada pessoa inspirada a abraçar o ideal de vida franciscano.
A Regra não Bulada (1221) de São Francisco, em duas passagens, enfatiza o conteúdo da vocação evangélica dos frades menores com os seguintes termos: “Esta é a vida do Evangelho de Jesus Cristo, que Frei Francisco pediu que lhe fosse concedida e confirmada pelo senhor Papa. E ele o concedeu e confirmou para si e seus irmãos, presentes e futuros.” (RNB prol. 2). E continua mais adiante: “A regra e vida destes irmãos é esta, a saber, viver em obediência, em castidade e sem nada de próprio, e seguir a doutrina e as pegadas de nosso Senhor Jesus Cristo…” (RNB 1,1).
Por sua vez, de forma mais sintética, a Regra Bulada (1223) retoma e reitera o mesmo teor evangélico da regra anterior: “A Regra e a vida dos Frades Menores é esta: observar o santo Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo, vivendo em obediência, sem nada de próprio e em castidade.” (RB 1,1).
Santa Clara, fiel companheira do Santo de Assis, introduziu em sua Regra, aprovada depois de muitas lutas em 1253, o mesmo propósito evangélico dos frades menores: “A forma de vida da Ordem das Irmãs Pobres, que o bem-aventurado Francisco instituiu, é esta: observar o santo Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo, vivendo em obediência, sem nada de próprio e em castidade.” (RSC 1,1).
A Regra da Ordem Franciscana Secular, após referir-se sobre a pertença desse ramo à Família Franciscana, afirma que os irmãos e as irmãs seculares estão comprometidos pela Profissão, a partir da convivência fraterna, a viver o Evangelho, espelhando-se na experiência do Seráfico Pai: “Nelas [nas fraternidades], os irmãos e as irmãs, impulsionados pelo Espírito a atingir a perfeição da caridade no próprio estado secular, são empenhados pela Profissão a viver o Evangelho à maneira de São Francisco e mediante esta Regra confirmada pela Igreja.” (RegOFS 2). Mais adiante, no capítulo II, encontramos a caracterização da forma de vida desses irmãos e irmãs: “A Regra e a vida dos franciscanos seculares é esta: observar o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo o exemplo de São Francisco de Assis, que fez do Cristo o inspirador e o centro da sua vida com Deus e com os homens.” (RegOFS 4). Todavia, conforme o mesmo texto, essa proposta só será eficaz a partir do momento que se realizar a passagem do “Evangelho à vida e da vida ao Evangelho” (RegOFS 4).
Baseados nas fontes acima, percebemos que a Regra franciscana é a mesma para todos: “observar o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo”. Nesta perspectiva das três regras, o que significa observar ? Esse termo, aqui empregado, não é simplesmente uma questão de olhar ou prestar atenção em algo que foi feito ou se faz, como se viveu ou se vive. Expressa, sobretudo, envolvimento e participação nos acontecimentos atuais. E mais, tem a acepção de colocar em prática aquilo que é inerente à identidade do projeto que uma pessoa ou um grupo abraçou. Em outras palavras, na ótica franciscana, observar implica seguimento de uma proposta de vida, obediência a princípios fundamentais, vivência de valores essenciais, comprometimento com as situações concretas da comunidade, inserção no mundo e serviço à vida dos seres humanos e de todas as criaturas através do anúncio de Jesus Cristo e pelo testemunho do amor fraterno.
Nesta dimensão da observância do Evangelho, tão fundamental para São Francisco e Santa Clara, cada franciscano e franciscana, subjetiva e objetivamente, terá uma definição plausível da vocação e da caminhada quando projetar essas no horizonte da experiência e vivência profundas dos valores que significam o jeito de ser e agir, aqui e agora, no chão da história.

2. A serviço dos irmãos e da Fraternidade

Não há fraternidade sem irmãos e tampouco estes sem aquela. Ambos são indispensáveis para que o serviço ao Evangelho seja eficazmente situado. Tanto São Francisco, como Santa Clara, apreenderam o verdadeiro sentido da fraternidade e, principalmente, aprenderam a ser irmão e irmã na relação fraterna e no empenho das obrigações cotidianas. O itinerário dos dois compreendia as diferentes dimensões da vida religiosa: oração, formação, relação fraterna, trabalho manual, cuidado dos irmãos e irmãs sadios e doentes, comunhão eclesial, missão, etc . Assim, a fraternidade primitiva franciscana pode ser vista e entendida sob vários ângulos: reconhecimento e valorização das qualidades uns dos outros, intensidade das relações afetivas, interesse e cuidado uns com os outros, disponibilidade para os trabalhos internos e externos e, naturalmente, enfrentamento de desafios e dificuldades.

2.1 Uma “fraternidade perfeita”

De modo absoluto, não há nenhuma sociedade humana perfeita, terminada e pronta, de forma que não necessite mais de mudanças e renovação no tempo e no espaço. O que existe, de fato, é um processo dinâmico, porque o ser humano caminha e se transforma no curso da história, da qual ele é o protagonista. Neste mesmo sentido, a primitiva fraternidade estava em vias de construção paulatina. Quem ingressava nela tinha a grave tarefa de fazer parte desse processo de crescimento.
A fraternidade franciscana estava (e está) no rumo da perfeição. São Francisco tinha uma visão muito nítida das capacidades de cada um dos companheiros. Acolhia indistintamente a todos como “dom” de Deus (Test 14) e com eles queria fazer a singular experiência evangélica. Nessa atmosfera, o Santo de Assis havia aprendido que a “fraternidade perfeita” correspondia à soma qualitativa dos dons e virtudes dos irmãos. Assim, depois de uma percepção profunda dos próprios valores, destacou de cada um deles os aspectos de significativa importância para o amadurecimento pessoal e fraterno.
A biografia Espelho da Perfeição apresenta uma bela lista de nove frades com suas virtudes, que segue: 1- Frei Bernardo com sua ardente fé e seu amor à pobreza; 2- Frei Ângelo com sua simplicidade, pureza, grande cortesia e gentileza; 3- Frei Masseo e sua distinção e o bom senso natural, sua bela e piedosa eloquência; 4- Frei Gil e seu espírito elevado à contemplação; 5- Frei Rufino e sua prece virtuosa e constante; 6- Frei Junípero, sua paciência e ardente desejo de imitar a Cristo; 7- Frei João das Laudes e seu vigor corporal e espiritual; 8- Frei Rogério e sua ardente caridade; e, por fim, 9- Frei Lúcio e sua inquietação, que não queria ficar em um mesmo lugar mais que um mês, dizendo: “Não temos morada aqui, mas no céu” .
Pela exposição acima, o frade tem seu valor não pelo número de qualidades que possui, mas pela relevância da virtude dele, mesmo que seja só uma. Além disso, o elencamento dos dons aponta para dimensões específicas da vocação franciscana: seguimento de Jesus Cristo, vida de oração, contemplação, pobreza, simplicidade, cortesia (gentileza e acolhida), paciência, piedade, caridade fraterna, dom da pregação (eloquência), itinerância (inquietação). A fraternidade é servida no compartilhamento dos talentos de todos e se expande no serviço ao Reino através dos dons colocados em prática.

2.2 Fraternidade e relações afetivas sinceras

O que mais nos chama a atenção nas primeiras gerações franciscanas é a forma como se dava o cultivo das relações fraternas. Conforme Tomás de Celano, quando se encontravam, em algum lugar, para celebrar momentos importantes, por ocasião de capítulos ou por outras razões, os frades tratavam-se de forma calorosa. Os irmãos se portavam do mesmo jeito ad intra e ad extra, isto é, agiam igualmente dentro e fora da fraternidade (espaço físico). Esse modo de relacionar-se deixava impressões positivas no meio do povo, que passava a estimar e admirar os frades.
Apresentamos a seguir três sucintos textos que caracterizam o clima afetivo que existia entre os irmãos menores das primeiras gerações, a solicitude de um para com o outro e o impacto que isso suscitava nas pessoas.
O primeiro texto, de Celano, retrata o intenso amor fraterno que aquecia a vida daqueles frades: “Quando se reuniam em algum lugar, ou quando se encontravam na estrada, reacendia-se o fogo do amor espiritual, espargindo suas sementes de amizade verdadeira sobre todo o amor. E como? Com castos abraços, com terno afeto, com ósculos santos, uma conversa amiga, sorrisos modestos, semblante alegre, olhar simples, ânimo suplicante, língua moderada, respostas afáveis, o mesmo desejo, pronto obséquio e disponibilidade incansável.” (1Cel 38).
O segunda texto, da Legenda dos Três Companheiros, destaca sobretudo a dedicação e empenho dos irmãos na oração e no trabalho, e a solicitude fraterna que tomava conta de todos: “Todos os dias eram solícitos para rezar e trabalhar com as próprias mãos para afastar absolutamente toda ociosidade, inimiga da alma… Amavam-se com entranhado amor e cada qual servia e nutria o outro como uma mãe com seu filho único e dileto. ”(LTC 41).
Por fim, o terceiro texto, do Anônimo Perusino, chama a atenção para o impacto que o testemunho de vida dos irmãos provocava no meio do povo: “O povo, vendo-os serenos em meio aos sofrimentos aceitos pacientemente pelo Senhor, e sempre esforçados para rezar com devoção, recusando receber e ter consigo dinheiro, como o faziam os outros pobres, e eles querendo bem um ao outro, sinal de que eram discípulos de Cristo: muitos ficaram comovidos e arrependidos, e foram pedir-lhes desculpas pelos maus tratos… Alguns até acabavam pedindo para serem recebidos em seu grupo…” (AP 24; cf. Tb LTC 41).

2.3 Fraternidade e desafios cotidianos

Enquanto realidade mutável, sujeita às vicissitudes históricas, a fraternidade franciscana se deparou (e ainda se depara) com situações concretas de diferentes naturezas: humana, formativa, estrutural, econômica, administrativa, social etc. Paulatinamente, depois de identificados, os desafios eram superados dentro do tempo certo.
São Francisco não era alheio a nenhuma dessas situações. Estava atento a tudo que se passava ao seu redor. Acompanhava todos os passos da fraternidade em todas as dimensões. Conhecia as necessidades pessoais e básicas dos irmãos. Procurava servi-los com esmero e especial cuidado, pois o confrade lhe era muito caro.

2.3.1 Serviço gratuito ao irmão: amor caritativo

O amor caritativo é aquele amor fraterno desinteressado, isto é, aquela expressão de compaixão incondicional que se dobra diante das necessidades do próximo. Ademais, significa um modo informal, espontâneo e gratuito, sempre disponível para ajudar e servir o outro sem medir esforços ou impor barreiras. Trata-se de uma experiência vital que transcende os limites pessoais, sociais, religiosos e culturais. Sem dúvida, é algo que revela também a capacidade que o ser humano tem de sair de si mesmo e ir ao encontro do semelhante (o/a leproso/a e o/a samaritano/a).
A espiritualidade franciscana está marcada profundamente por esse amor entranhado. As Fontes Franciscanas e, de forma mais direta, os Escritos de São Francisco, sublinham, com relevância, a experiência desse amor-serviço caritativo. O Santo de Assis, durante a sua vida, soube cuidar do irmão sem reservas ou medo de perder alguma coisa. Foi alguém todo comprometido com a caminhada pessoal, vocacional e espiritual dos companheiros (irmãos).
O caso típico que ilustra a disposição do Poverello para apoiar o outro é o do Frei Leão que precisou da ajuda e foi benevolamente atendido, conforme o texto da singela carta que o Seráfico Pai lhe enviou, que aqui transcrevemos: “1 Frei Leão, teu irmão Francisco deseja-te saúde e paz. 2 Assim te digo, meu filho, como uma mãe: coloco brevemente nesta frase todas as palavras que falamos pelo caminho e [te] aconselho; e, se depois precisares por motivo de conselho vir a mim, assim te aconselho: 3 qualquer que seja o modo que te pareça melhor agradar ao Senhor Deus (cf. 1Cor 7,32) e seguir seus passos (cf. 1Pd 2,21) e pobreza, faze-o com a bênção do Senhor Deus e com minha obediência. 4 E, se te for necessário outra consolação para tua alma e quiseres vir a mim, Frei Leão, vem!”
De igual modo, todos os irmãos eram educados a manifestar uns aos outros as próprias necessidades e a ter aquele amor sincero e prestativo de mãe pelo confrade em todas as circunstâncias da vida (RNB 9,10-11) . Portanto, acreditamos que esta orientação pedagógica, quando posta em prática, fortalece os vínculos fraternos, estimula a convivência nas diferenças e sustenta, hoje também, os passos dos franciscanos e franciscanas.
Outrossim, na mesma dimensão do amor-doação, o Papa Bento XVI, na sua primeira carta encíclica, Deus Caritas Est (2005), ao citar alguns Santos, menciona também o nome de São Francisco de Assis que, entre tantos homens e mulheres suscitados por Deus, procurou servir ao Senhor na pessoa do próximo, respondendo às situações prementes do seu tempo (cf. n. 40). Portanto, o Santo de Assis não foi alguém surdo e indiferente aos gritos e necessidades do irmão, tanto dentro como fora da comunidade. O Evangelho se encarnava em São Francisco através de sua experiência(vivência) cotidiana.

2.3.2 Trabalho e serviço: compromisso fraterno

Quando olhamos e sentimos de perto as situações concretas da primitiva fraternidade franciscana, descobrimos muitos outros aspectos que nos levam a compreender a dinâmica de vida de São Francisco e seus companheiros. Acima já constatamos alguns. Mas, outro elemento caro ao Santo Pai era a questão do trabalho . Este era (e ainda o é hoje) um meio pelo qual o irmão dava significado ao seu sentido de pertença à fraternidade e colaborava com o seu suor para o bem de todos.
Ele, o próprio Poverello, dava testemunho com o trabalho manual que fazia e queria realizar em todo tempo (Test. 20), pois tinha-o como graça recebida de Deus: “Os irmãos a quem o Senhor deu a graça de trabalhar, trabalhem fiel e devotamente.”(RB V,1). É nesse entendimento que Insistia para que todos os frades trabalhassem e se não soubessem, procurassem aprender, não por interesses particulares, mas para descruzar os braços e fugir das acomodações (Test. 21).
Em síntese, podemos afirmar que o trabalho era (e continua sendo) uma das maneiras de colocar em prática aquilo que se aprendia na escola franciscana. Além do mais, sob essa ótica, pelo trabalho e como assalariados, os frades davam testemunho do estilo de vida que haviam assumido e, através desse instrumento de subsistência, podiam exercer sua missão de evangelizadores. Sendo assim, o trabalho adquiria um significado mais amplo, isto é, não visava apenas o provimento das necessidades básicas, mas também o anúncio do Reino de Deus e sua justiça.

2.3.3 Correção fraterna do comodismo

A caminhada é um processo de crescimento, discernimento e amadurecimento da pessoa frente às escolhas e opções que faz e abraça. No seio da fraternidade franciscana, cada irmão e irmã é conduzido a ter clareza da vocação para observar o Evangelho. São Francisco considerava indispensáveis o esforço e a austeridade pessoais para se levar adiante o propósito de vida.
É partindo daí, que o Santo chamava a atenção do irmão que não assumia nem se comprometia com os desafios do dia a dia fraternidade local (e também em sentido mais amplo) a que pertencia. Entretanto, por outro lado, esse tal irmão queria ser bem servido com os frutos do suor dos companheiros. São Francisco denominava-o fraternalmente de “irmão mosca” (fraternalmente porque não chamava-o simplesmente de mosca, mas de irmão mosca).
A título de ilustração, tomamos o texto da Segunda biografia de São Francisco escrita por Frei Tomás de Celano (2Cel 75) , que trata da questão do comodismo, com algumas nuances interessantes.
O parágrafo 75 destaca, em primeiro lugar, o alerta do Santo para que nenhum irmão deixasse de se ocupar nalguma tarefa significativa, ou seja, não admitia que o frade ficasse desocupado ou à-toa: “São Francisco dizia muitas vezes que o verdadeiro frade menor não devia ficar muito tempo sem ir mendigar” (cf. 2Cel 75).
Em segundo lugar, temos a constatação de um caso nada animador para São Francisco e, certamente, para todo o grupo. E este que era “ninguém” para o trabalho, “valia” por muitos na hora das refeições:
“Havia em certo lugar um frade que não era ninguém na hora de esmolar mas valia por vários na hora de comer.”(cf. 2Cel 75).
Por fim, destacamos a figura do “irmão mosca”. A reação do Seráfico admoestou e desaprovou o comportamento desse frade e o rumo tomado por aquele irmão, que, como acentua o texto, saiu da fraternidade e continuou sendo “ninguém”: “Vendo que era comilão, participava dos frutos mas não do trabalho, disse-lhe uma vez: `Segue teu caminho, irmão mosca, porque queres comer o suor de teus irmãos e ficar ocioso no trabalho de Deus. Pareces com o irmão zângão, que não ajuda as abelhas a trabalhar, mas quer comer o mel por primeiro`. Quando esse homem carnal viu que sua glutoneria tinha sido descoberta, voltou para o mundo, que nunca tinha deixado. Saiu da Ordem: já não era frade nenhum, ele que nunca tinha sido ninguém para esmolar.” (cf. 2Cel 75).
Notamos, então, nesta ocasião, a conduta desaprovável desse frade, que faltava com o dia a dia da fraternidade. As suas atitudes eram contrárias à identidade do autêntico frade menor. A exortação e o discernimento de São Francisco visavam, sem dúvida, preservar o espírito de colaboração mútua e reforçar o sentido de pertença à fraternidade.

CONCLUSÃO
O Evangelho é a força vital que ontem deu sentido à vocação de São Francisco e de Santa Clara e hoje dinamiza e revigora a própria essência do Carisma Franciscano. A observância dos princípios e valores evangélicos por parte dos irmãos e irmãs franciscanos significa manter viva a chama do propósito assumido.
Como vimos acima, a vida fraterna compreende um conjunto de componentes ou forças que solidificam a caminhada pessoal e comunitária. Os membros da Família Franciscana são os personagens principais para a construção da Fraternidade, em sentido mais amplo, sem fronteiras, aqui e agora. Para tanto, faz-se necessária a participação, o compromisso e a colaboração de cada um e de todos para a eficácia do “projeto de vida franciscano”, servindo ao Evangelho e à Fraternidade, como bem entendeu e viveu o Pobrezinho de Assis, quando disse: “Como sou servo de todos, a todos estou obrigado a servir e a prestar-lhes em serviço as odorosas palavras de meu Senhor”(2CtaFi 2).
De tudo isso, podemos afirmar que a fidelidade ao Evangelho ou à forma vitae (forma de vida) alcançará a sua significação à medida que forem contemplados os diversos componentes que caracterizam a fisionomia do itinerário franciscano, enquanto realidade dinâmica e prenhe de vitalidade. Ou seja, aqueles aspectos que conhecemos – relações fraterno-afetivas, formação, oração, trabalho e serviço, missão e evangelização, responsabilidade com a vida do ser humano e das criaturas e outros – são exigências fundamentais que garantem a permanência do Evangelho na atuação e itinerância dos franciscanos e das franciscanas de todos os tempos e em todos os lugares.

ABREVIATURAS USADAS NO TEXTO:
1- RNB: Regra NÃO Bulada de São Francisco
2- RB: Regra Bulada de São Francisco
3- Test. – Testamento de São Francisco
4- CtLe: Carta a Frei Leão
5- 2CtFi: Segunda Carta aos Fiéis
6- RSC: Regra de Santa Clara
7- LSC: Legenda de Santa Clara
8- RegOFS: Regra da Ordem Franciscana Secular
9- 1Cel: Primeira Vida de Tomás de Celano
10- 2Cel: Segunda Vida de Tomás de Celano
11- LM: Legenda Maior de São Boaventura
12- EP: Espelho da Perfeição (Biografia de São Francisco de Assis);
13- LP: Legenda Perusina

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
FONTES FRANCISCANAS E CLARIANAS. Apres. Sérgio M. Dal Moro; Trad. Celso Mácio Teixeira [et. al.]. Petrópolis, (RJ): Vozes 2004.
BOFF, Leonardo. São Francisco de Assis – Ternura e vigor – Uma leitura a partir dos pobres. 9ª edição, Petrópolis (RJ): Vozes, 2002.

CONTI, Martino. Il “Codice” di Comunione dei Frati Minori: Introducione e commento alla Regola. Roma (Itália): Edizioni Antonianum, 1999.
SABATIER, Paul. Vida de São Francisco de Assis. Trad. Fr. Orlando A. Bernardi, OFM. Bragança Paulista (SP): IFAN / Editora Universitária São Francisco de Assis, 2006.
URIBE ESCOBAR, Fernando , La Regla de San Francisco. Letra y espíritu, collana Textos – 3, Ed. Inst. Teol. Franciscano, Murcia, 2006, p. 381.
URIBE ESCOBAR, Fernand, ofm. A Todos Estoy Obligado a Servir (2 CtaF 2): El servicio, según los escritos de san Francisc: In: http://www.franciscanos.net/teolespir/servicio%20uribe.htm
BENTO XVI. Deus Caritas Est: sobre o amor cristão. 2005. In: http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/encyclicals/documents/hf_ben-xvi_enc_20051225_deus-caritas-est_po.html

REFERÊNCIAS VIRTUAIS:

http://www.franciscanos.net/teolespir/servicio%20uribe.htm

http://www.fratefrancesco.org/fot/e.libros.htm

http://www.paxetbonum.net/

http://www.franciscanos.org/frandp/menup.html

http://ofsaraxa.blogspot.com.br/2012/02/belissima-reflexao-do-saudoso-frei.html

http://200.241.192.6/cgi-bin/houaissneth.dll/cabec?palavra=b&Res=0

http://www.intratext.com/Catalogo/Autori/Aut154.HTM

http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/encyclicals/documents/hf_ben-xvi_enc_20051225_deus-caritas-est_po.html

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1 Cf. o texto latino de 1Cel: “Incipiamus, fratres, servire Domino Deo, quia hucusque vix vel parum in nullo profecimus”. In: http://www.procasp.org.br/paragrafo_subcapitulo.php?indice=104&titulo=Primeira Vida (1Cel)&parágrafo=225&cSubCap=46#1Cel 103.
E também a passagem latina de São Boaventura,LM 14,1: ”Incipiamus, fratres, servire Domino Deo nostro, quia usque nunc parum profecimus”. In http://www.procasp.org.br/paragrafo_subcapitulo.php?indice=140&titulo=Legenda Maior&cParagrafo=620&cSubCap=57#LM XIV,1
2 Cf. Dicionário Eletrônico Houaiss: OBSERVAR: verbo transitivo direto e pronominal- 1 fixar os olhos em (alguém, algo ou si mesmo); considerar(-se) com atenção, com aplicação; ver-se mutuamente; estudar(-se): Ex.: ; transitivo direto: 1.1 fazer uma observação científica de: Ex.: dedicou sua vida a o. o comportamento animal; transitivo direto e bitransitivo: 2 olhar, fitar com atenção e minúcia, buscando chegar a um julgamento, a uma conclusão; constatar, perceber, notar, considerar, verificar: Ex.: ; transitivo direto: 3 olhar às escondidas; espiar, espreitar: Ex.: os meninos queriam o. as meninas pelo buraco da fechadura; transitivo direto: 4 conformar-se a (uma regra, uma lei, um regulamento); praticar, obedecer; transitivo direto e bitransitivo: 5 atentar para ou fazer atentar para: Ex.: ; transitivo direto e bitransitivo: 6 expressar uma opinião ou um julgamento; ponderar, replicar: Ex.: observou(-lhe) que a renúncia seria humilhante.
3 NB: As regras e os escritos de São Francisco e Santa Clara, em geral, contemplam todos esses elementos.
4 O texto completo é o seguinte: EP capítulo 85: “Tendo o Seráfico Pai, de algum modo, transformado os frades em santos pelo ardor do seu amor e pelo zelo fervoroso que nutria pela perfeição, examinava em si mesmo as qualidades e as virtudes de que deveria ser dotado o bom frade menor. E dizia que seria um bom frade menor o que reunisse em si a vida e os méritos destes santos frades: “A fé de Frei Bernardo, que a tinha tão perfeita quanto seu amor à pobreza; a simplicidade e a pureza de Frei Ângelo que foi o primeiro cavaleiro a entrar na Ordem e foi dotado de grande cortesia e gentileza; a distinção e o bom senso natural de Frei Masseo com sua bela e piedosa eloquência; o espírito elevado à contemplação que Frei Gil teve em toda perfeição; a prece virtuosa e constante de Frei Rufino que rezava constantemente, sem parar: fosse dormindo ou trabalhando seu espírito estava sempre com o Senhor; a paciência de Frei Junípero que alcançou um estado de paciência perfeita, porque tinha constantemente na consciência a evidente realidade de sua própria vileza e um ardente desejo de imitar a Cristo, seguindo a via da cruz; o vigor corporal e espiritual de Frei João das Laudes que no seu tempo suplantava em força corporal os outros homens; a caridade de Frei Rogério cuja vida inteira e a conversão foram inspiradas por uma fervente caridade; enfim, a inquietação de Frei Lúcio que estava sempre muito preocupado, não querendo ficar em um mesmo lugar mais que um mês, pois quando começava a gostar de um lugar punha-se de novo a caminho, dizendo: ‘Não temos morada aqui, mas no céu”‘
5 Entendida aqui também como Movimento Franciscano, que, desde o seu nascimento no início do século XII, sofreu transformações estruturais e teve grande repercussão ao longo dos tempos.
6 Cf. texto original: “1 Frater Leo, frater Francisco tuo salutem et pacem. 2 Ita dico tibi, fili mei, sicut mater: quia omnia verba, quae diximus in via, breviter hoc verba [!] dispono et consilio, et si dopo [tibi?] oportet propter consilium venire ad me, quia ita consilio tibi: 3 In quocumque modo melius videtur tibi placere Domino Deo, et sequi vestigiam [!] et paupertatem suam, faciatis cum benedictione Domini Dei et mea obedientia. 4 Et, si tibi est necessarium animam tuam propter aliam consolationem tuam, et vis, Leo, venire ad me, veni”
Cf. RNB 9,10-11: “10 E com segurança manifeste um ao outro sua necessidade, para que encontre o que lhe é necessário e o sirva. 11 E cada um ame e nutra seu irmão, como a mãe ama e nutre seu filho (cfr. 1Ts 2,7), naquilo em que Deus lhe der a graça”.
Veja também RNB X e RB VI (sobre os doentes).
7 Sobre o assunto há alguns poucos artigos disponíveis na internet. Nos Escritos de São Francisco (veja RNB 7, RB V e o Test. 20-23) se insiste sobre a importância do trabalho para o frade enquanto pessoa e enquanto fraternidade.
8 Sobre o tema temos basicamente nas Fontes Franciscanas os seguintes: 2Cel 75; LM 5,6; LP 62; EP 24.
9 Cf. tb. LM 5,6; LP 62; EP 24

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