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sábado, 8 de dezembro de 2012

Beato João Duns Scotus: "Doutor Sutil".

1. Congrega-nos, um ano mais, a memória do Doctor Subtil, o Beato João Duns Escoto, o «Doutor da Ordem», o «Doutor Subtil», o «Doutor Mariano», nomes pelos quais é conhecido este filho ilustre do Poverello e eminente representante da chamada «Escola Franciscana».

Permitam-me que situe convenientemente este nosso Irmão que, nas palavras de João Paulo II à nossa Comissão Escotista Internacional, depois de séculos «é ainda hoje um dos pilares da teologia católica, um Mestre original, rico em ideias e provocações para o conhecimento sempre mais completo das verdades da fé»[1].

2. Tanto Francisco de Assis como Domingos de Gusmão, tendo em conta a situação cultural e eclesial do seu tempo, empreenderam uma profunda renovação da Igreja. Os seguidores de Domingos fizeram-no, sobretudo, refreando e contrariando as heresias. Os filhos do Poverello procuraram a renovação da Igreja e o refrear das heresias, particularmente através de uma viragem para o Evangelho «sine glossa» vivido em fraternidade, inseridos inter gentes e com determinada orientação moral. Tal realidade encerra diferentes atitudes em relação à Universidade. Os Dominicanos vão para Paris para estudar. Os Franciscanos estudam em Paris porque estão lá. Esta diferença acarretará diferentes orientações teológicas.

3. No espaço franciscano, nos primeiros tempos, não há o que se poderia chamar de «doutrina de Escola», com critérios de pensamento válidos para todos, como havia no caso dos dominicanos. António de Pádua, Alexandre de Hales, John de la Rochelle, Odo Rigaldo, Guilherme de Melotina, Groseteste, Roberto, Ricardo Rugo, etc., a partir dos estudos que a Ordem tem em Paris, Oxford, Cambridge e Bolonha, fazem teologia principalmente à luz da sua cultura de origem, dos ensinamentos teológicos em uso, das suas preferências doutrinárias, das correntes internas da Ordem de interpretação do carisma de Francisco e, acima de tudo, no contexto universitário em que se movem[2]. O que distingue os nossos autores da primeira hora não são ideias originais, ou sistemas de pensamento coerentes e fechados em si mesmo, mas um espírito próprio, uma forma de se situarem frente à vida. Terá que passar algum tempo, até que a Ordem tenha a sua própria Ratio Studiorum, para que possamos falar de uma determinada corrente de pensamento franciscano, ou de «Escola Franciscana», sem que com isso se perca a liberdade na escolha dos temas - neste sentido o pensamento franciscano é verdadeiramente universal - e a praticidade, pois tudo está orientado para a vida, para uma prática ou ética genuinamente evangélicas. A ciência, para os nossos pensadores, não é um fim em si, mas existe «para que façamos o bem», intrinsecamente orientada para a experiência do amor e a partir da liberdade entendida como a obediência a Deus, que é a única relação capaz de salvaguardar a autonomia humana. Liberdade e praticidade são, portanto, os dois aspetos que sempre caracterizaram a conceção dos estudos na Ordem e a sua forma de fazer teologia.

4. Neste contexto, aparece João Duns Escoto, o Cantor da Imaculada. Este filho fiel de São Francisco «conseguiu incarnar o Evangelho e estar atento às realidades socioculturais da sua época, de que nunca desertou e à qual tentou responder a partir dos pressupostos filosófico-teológicos de então»[3]. Para isso, Escoto propõe-se fazer uma nova síntese entre a corrente platónica-agostiniana e a aristotélica-tomista. Esta síntese levou-o a destacar a harmonia entre fé e razão, a definir a natureza da teologia em relação à ação, ao ato, à praxis, ao amor, e fê-lo não como mera especulação[4].

5. Não são poucos os que acusaram, e acusam, Escoto ser um pensador abstrato, teórico e obscuro. Aqueles que fazem tais acusações mostram não conhecer Duns Escoto, nem as últimas e sérias investigações que se fizeram sobre o seu pensamento, e, através das quais, se têm destruído muitos preconceitos sobre o Doutor Subtil e Mariano. Escoto é, certamente, subtil no seu pensamento, mas esta subtilitas escotista nada tem a ver com o pensamento que tende para a abstração última. Toda a sua subtileza está ao serviço da praxis, com a finalidade de orientar o ser humano para que não se extravie no amor - errare in amando - o que é muito diferente de um «evangelismo impaciente e superficial, que tem alergia à especulação e ao pensamento profundo e meditativo»[5], para o qual Escoto, certamente, não pode ser invocado. Escoto é um grande e profundo pensador e, ao mesmo tempo, é uma pessoa eminentemente prática, preocupado com a pessoa como ser relacional – a solitudo em Escoto é a solidariedade – um ser constitutivamente referente e aberto a Deus, aos homens e ao mundo. Portanto, toda a sua especulação desemboca numa ética da ação. «O Doutor Subtil oferece-nos a esplêndida articulação de um humanismo cristão, em que o saber está ao serviço do bem-viver e do bom-conviver, isto é, de uma sociedade justa, pacífica e fraterna»[6].

6. Esta conceção de saber tem importantes consequências sobre a conceção da teologia como «ciência prática». Para o nosso autor a teologia é, por sua própria natureza uma «ciência prática», que visa não tanto dissipar a ignorância, mas, sobretudo, ordenar a vida diária. Para Escoto a teologia não se destina, de facto, a mostrar ao homem o seu próprio destino e as formas de o alcançar. Esta atividade da inteligência que leva ao crescimento e ao conhecimento da verdade - «na história da humanidade, diz Escoto, cresce sempre o conhecimento da verdade»[7] - envolve uma busca constante, apaixonada e cansativa, mas que permanece sempre prática.

7. Em outras palavras: para Escoto não existe uma ciência teológica puramente especulativa, pois, simplesmente, não seria teologia. Para ele não basta o axioma que diz: «crede ut intelligas» (acredita para que possas entender)[8], é, também, necessário «intellige ut credo» (entende para que possas acreditar), caso contrário, como diz Santo Anselmo, seria negligência: «Negligentia mihi videtur si postquam confirmati sumus in fide, non studemos – quod credimus – intelligere» (Da nossa parte parece-nos negligência se, depois de confirmados na fé, não nos esforçamos para compreender com a razão o que acreditamos com a fé)[9].

8. Este conceito de «ciência teológica» do Escoto adverte-nos contra duas tentações. Uma, pensar que fazer «ciência teológica» é um desperdício de tempo, porque o que não pode ser explicado de forma expedita na cura das almas, pensam vários, deve ser rejeitado, sem mais, como inútil e contrário à finalidade da revelação. Deste modo, o necessário sentido pastoral torna-se um entrave real para o desenvolvimento da própria teologia. A outra, fazer uma teologia meramente especulativa sem consequências na vida concreta de cada dia. À luz da doutrina de Escoto temos que dizer: nem pastoral ou espiritualidade sem uma ciência teológica que as sustente e lhes dê verdadeira solidez, pois seriam estéreis; nem uma «ciência teológica» que nada tenha a ver com a espiritualidade e com a atuação, pois seria um afastamento de teologia.

9. Peço a todos os nossos estudiosos e investigadores do campo filosófico e teológico, assim como no da espiritualidade, e a todos os professores das nossas universidades, em especial a todos os professores franciscanos, que, através de um trabalho crítico, atento e minucioso, destaquem os elementos ainda válidos do pensamento do Doutor Subtil e Mariano, e dos outros grandes Mestres Franciscanos, convencidos, como eu estou, de que esses elementos podem influenciar e orientar o pensamento atual, e dar respostas adequadas, como afirmou o Papa João Paulo II, para as questões existenciais, muitas vezes «dramáticas», da humanidade, no início deste terceiro milénio[10]. Neste sentido faço inteiramente minhas as palavras do Frei Constantino Koser, ofm, que escreveu, por ocasião do sétimo centenário do nascimento de Escoto: «Há valores perenes contidos no trabalho do Doutor Subtil [...], negligenciá-los seria como deixar inutilizada parte importante do tesouro que a Ordem Franciscana deve difundir, hoje, na Igreja»[11].

10. Depois do Concílio [Vaticano II] temos feito um esforço muito grande e um trabalho imprescindível: descobrir, ou redescobrir, a pessoa de Francisco, através do estudo de seus Escritos. Neste sentido, muito ajudou a edição crítica dos ditos Escritos publicada em 1976 por K. Esser, por ocasião do 750º. aniversário da morte do pai São Francisco, e que, por mais de 30 anos, tem sido ponto de referência para estudiosos e leitores. E porque a pesquisa não para, por ocasião da comemoração dos 800 anos da fundação da Ordem dos Frades Menores, eu mesmo encarreguei o Frei Carlo Paolazzi de «rever» esta edição crítica e a atualizar; revisão, que, mais tarde, se tornou numa nova edição crítica dos Scripta Francisci Assisiensis, que está prestes a ver a luz - esperamos antes do fim do ano - e que nos trará, sem dúvida, a forma mais próxima possível do original, finalidade de toda a edição crítica.

11. Feito este trabalho de aproximação a São Francisco e de conhecimento do seu pensamento, temos de fazer um esforço para conhecer aqueles que tornaram possível o desenvolvimento das ideias do Poverello. Entre eles cabe citar, em primeiro lugar, o bem-aventurado João Duns Escoto, «torre espiritual da fé», como o definiu pelo Papa João Paulo II no seu discurso na Catedral de Colónia (1980), «fiel discípulo de São Francisco de Assis», como o qualificou Bento XVI[12], «aperfeiçoador de São Boaventura», e o representante «mais qualificado» da Escola Franciscana, como lhe chamou Paulo VI. Aproximarmo-nos de Escoto é aproximarmo-nos de Francisco, pois no seu trabalho, diz Paulo VI, «latent certe ferventque S. Francisci Asisinatis perfectionis pulcherrima forma et seraphici spiritus ardores» [escondem-se e dilatam-se a belíssima forma de perfeição de São Francisco de Assis e os ardores do espírito seráfico]. Além disso, do tesouro teológico de Escoto podem-se procurar «lucida arma ad impugnandam et amovendam piceam atheismi nubem, quae aetati nostrae caliginem offundit» [armas luminosas para impugnar e remover a nuvem de ateísmo que derrama a escuridão na nossa época], cuja doutrina poderá oferecer «uma teia de ouro» para «serenos colóquios» entre a Igreja Católica e as outras Confissões cristãs[13].

12. Este esforço por atualizar e destacar a atualidade do pensamento de Escoto exige, antes de mais, um conhecimento profundo de seu pensamento. Para tal nos ajuda o louvável trabalho da monumental edição crítica da Opera Omnia doDoctor Subtil e Mariano, realizada, superando dificuldades nada comuns num trabalho como este, com imenso suor, competência profissional e com muito amor para com este Mestre do pensamento franciscano, pela Comissão Internacional Escotista. Até agora, a Comissão publicou onze volumes que cobrem as Ordinatio e quatro volumes correspondentes à Lectura do livro das Sentenças. Atualmente prepara a publicação do Volume XVI com o tratado de Escoto sobre a Eucaristia, o maior tratado escrito sobre o assunto na Idade Média. Sem o trabalho e sacrifício da Comissão não seria possível a abordagem ao genuíno pensamento do Doutor Subtil. Aos membros da Comissão, de ontem e de hoje, em meu nome, e no de toda a Ordem e dos estudiosos de Escoto, expresso toda a gratidão e reconhecimento, e a esperança de que novos investigadores se venham a juntar ao grupo de Sócios investigadores.

13. O esforço de atualizar e destacar o pensamento de Escoto também exige aos professores, pesquisadores e estudiosos, um método e uma disciplina. Tal studium introduz uma inversão intelectual prolongada, profunda e, sem dúvida, austera. Os nossos Mestres são grandes pensadores. Entrar nas suas categorias de pensamento, na maioria das vezes muito diferente da nossa, exige isso. Convido aqueles que se aproximam de Escoto a não desanimar com as dificuldades, porque, com o tempo, encontrarão uma justa satisfação e gratificação para o seu trabalho; a satisfação e a recompensa que encontra todo o estudioso que procura e se aproxima do conhecimento da verdade, meta de todo o estudo. Convido, também, os nossos estudantes a fazerem teses de doutoramento sobre Escoto e os grandes Mestres, sem medo de confrontar o seu próprio pensamento com este grande escolástico, cuja mensagem é ainda futura, e cujo pensamento é ainda fecundo no diálogo com a cultura do nosso tempo[14].

14. O Doutor que hoje honramos não é um Doutor do passado, não é um «fóssil» para ser admirado, é um Mestre vivo e palpitante, cheio de preciosas intuições, mas, acima de tudo, é um «filho ilustre de Francisco», como o chamou Bento XVI[15], cheio de paixão por Deus, por Jesus Cristo, pela Igreja, e pelo criação e pelo homem, enquanto pessoa como ensimesmamento e alteridade.
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[1] AOFM 121 (2002) 11

[2 ]Cf FRESNEDA, Martínez, Francisco, Textos e contextos de la Teología Franciscana, in Manual de Teología Franciscana, BAC, Madrid 2003, 19

[3] Ata OFM, An CXXVII, nº. 3, pg 405

[4] Bento XVI, Carta Apostólica pelo VII Centenário da Morte do Beato João Duns Scoto, Roma, 2008

[5] Cf Ata OFM, An CXXVII, nº. 3, pg 405

[6] Idem408

[7] OrdinatioIV, d.1, q.3, nº. 8

[8] Santo Agostinho, Sermões, Sermão 43, c.7, nº. 9 (PL 38, 258)

[9] Santo Anselmo, Cur Deus homo I, c.2 (PL 158, 362)

[10] João Paulo II,Atas do Congresso Internacional de Universidades e Centros de Investigação OFM, pg. 25

[11] KOSER, Constantino, Carta encíclica pelo VII Centenário do nascimento de João Duns Scoto, 15.08.1966, nº. 9

[12] Bento XVI, Carta apostólica pelo VII Centenário da morte do Beato João Duns Scoto, Roma, 2008

[13] AAS 58 (1966) 609-614

[14] Cf Ata OFM, An CXXVII, nº. 3, pg 409

[15] Bento XVI, Carta apostólica pelo VII Centenário da morte do Beato João Duns Scoto, Roma, 2008


http://www.ofm.org.pt/index.php/espiritualidade/105-joao-duns-escoto-mestre-de-ontem-e-de-hoje

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