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quinta-feira, 15 de novembro de 2012

O sofrimento humano: cruz e ressurreição



Por: Jorge Danielián, OFMCap*
Em São Damião, Francisco encontrou-se com Cristo e com todos os crucificados do mundo. Descobriu o sentido do sofrimento da cruz e da ressurreição na vida cristã.
O Cristo de São Damião é um ícone, pintado por um artista úmbrio do século XII, no estilo oriental sírio. Mede 2,10m de altura e 1,30m de largura. Como todos os ícones orientais impressionam pela profundidade de seu conteúdo teológico e espiritual. A luz, o sinal de santidade de Deus, é o elemento essencial.
O que impressiona e salta aos olhos neste ícone é o fato de que Cristo não está pregado na cruz ou nela suspenso, mas apresenta-se solto dela e ressuscitado, vencedor da morte e senhor da vida. Em vez de coroa de espinhos tem uma auréola de luz e, com as mãos estendidas, está subindo ao céu onde esperam o Pai e o Espírito Santo significado este, talvez, pelo dedo de Deus, símbolo com o qual frequentemente esse Espírito é designado na liturgia.  
Hardick e Brancaloni, dois estudiosos especialistas desse famoso Cristo, concluem suas investigações dizendo que, através de seu profundo conteúdo, este crucifixo é único, por exprimir o mistério pascal total e universal de Cristo.
A sabedoria do evangelho levou Francisco a unir a alegria com o sofrimento, a compaixão com o amor (2 Celano 13; Legenda dos três companheiros 17,21,22). O mesmo êxtase vamos encontrar na estigmatização, misto de sofrimento e gozo, clara manifestação de quem compreendeu o sentido do sofrimento cristão (1 Celano 93.94). “O sofrimento é o fio com o qual se faz o tecido da alegria” (Henri de Lubac)(...)
A explicação teológica de novo paradoxo consiste no fato de que Francisco, devido ao retorno espiritual à inocência original, conseguiu tal reconciliação com as criaturas, que fraterniza, chega a uma relação fraterna com todas elas. O que acontece também com a irmã morte que deixa de ser uma inimiga e se converte em irmã na viagem a caminho rumo a Deus. Soube acolher todas as manifestações de morte: limitações, incômodos, ignorância, fragilidade corporal e espiritual. “As próprias enfermidades não eram para ele inimigas, mas irmãs; suportava-as com paciência e alegria e dava graças a Deus por elas” (Legenda Maior 7,2).
Finalmente o que São Francisco descobriu e viveu em seu encontro com o Cristo de São Damião foi revivido todos os dias de sua vida e particularmente em sua oração: no Ofício da Paixão, nos Louvores para todas as horas canônicas e em outras orações de sua devoção. Os salmos escolhidos para esta oração espontânea falam de um Cristo morto, mas ao mesmo tempo vivo, glorioso, Senhor e Filho do Pai. Um Cristo crucificado-ressuscitado.
Concluindo, o Cristo de São Damião ajudou Francisco a ler o sofrimento sob o prisma da redenção e ressurreição, tanto para si mesmo como para os demais.
* In.: Cadernos Franciscanos 5. Petrópolis: CEFEPAL/Vozes, 1993 pp. 69-70.  

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