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sexta-feira, 30 de novembro de 2012

O Modernismo e os tradicionalistas paranóicos

Por: Dom Henrique Soares da Costa*


Vários sites da Internet, em nome de certa visão estreita e equivocada do catolicismo, da Tradição e do próprio Magistério, têm feito
graves acusações ao Concílio Vaticano II, além de mais ou menos veladas críticas aos últimos papas, de João XXIII a Bento XVI. Esses sites são de orientação mais ou menos próxima à Fraternidade São Pio X, do falecido Arcebispo cismático Dom Marcel Lefebvre, que faleceu excomungado: são todos eles tradicionalistas (não tradicionais, no sentido correto e sadio do termo e da Tradição católica), reacionários (não simplesmente conservadores, o que não seria mal nenhum. Reacionários porque seu estado de espírito é destrutivo, inquisitorial, de retranca, de visão estreita, arcaica e hostil a qualquer progresso na teologia, no dogma e na vida da Igreja).

O refrão desses referidos sites é individuar em todos os níveis e ambientes da vida da Igreja erros e perigos à reta fé, espalhar anátemas e condenações e fomentar uma estranha e ultrapassada guerra apologética, própria do início do século XX, em nome da ameaça onipresente da heresia modernista. Para eles, paranoicamente, todo mundo é modernista: os últimos papas, os teólogos atuais, o episcopado em geral, o clero como um todo, os vários movimentos leigos...

É mais que patente para qualquer pessoa de bom senso que esse pessoal vai rapidamente tomando o caminho do cisma. Primeiro dá-se o cisma psicológico, afetivo, que faz ver com suspeita a Igreja e seus pastores; depois, vem o cisma de fato, a incompatibilidade entre a fé do grupelho de “iluminados” e a percepção da Grande Igreja, aquela composta pelo Povo Santo de Deus em comunhão com seus legítimos pastores com Pedro e sob Pedro. Em geral – mesmo quando não diz – esse pessoal somente considera como papas sem nenhuma restrição os pontífices até Pio XII. A fidelidade deles é ao papado do passado ou, melhor falando, ao papado da cabeça deles. Os papas atuais são por essa gente julgados, crivados de crítica e manipulados nas suas intenções e magistério; se alguns deles citam Bento XVI, é de modo unilateral e desonesto, sempre manipulando o Magistério pontifício para tentar fazer o Papa dar razão às próprias irracionalidades. Que ninguém se iluda pela linguagem engomada e afetada que utilizam, cheia de “V. Revma.”, “V. Excia. Revma”, “Senhor Padre”, etc. Toda essa afetação, na verdade, somente revela um apego doentio ao arcaico e tudo que os segure no final do século XIX e início do século XX, final do pontificado de Pio IX e pontificado de Pio X.

Como muitas pessoas perguntam-me sobre esses sites e pedem-me uma avaliação sobre eles, pois que estranham a animosidade em relação à Igreja e ao Episcopado, aos teólogos e a muitas sãs manifestações da vida eclesial, resolvi descrever de modo esquemático e bem simples a crise modernista, suas conseqüências e o atual estado da questão, para que o leitor possa compreender o quanto essas pessoas nominalmente católicas, mas às portas do cisma, aparentemente tão fiéis à Tradição e ao Magistério, mas deles tão distantes de fato, estão equivocadas e distantes do reto sentir da Igreja de Cristo. Como me dirijo ao grande público, procurei ser sucinto e evitar detalhes aprofundados sobre questões teológicas que escapariam de modo geral às pessoas. Meu intento é somente fazer com que se compreenda a posição da Igreja e o erro dos tradicionalistas reacionários.

Não nutro nenhum desejo de polemizar ou dialogar com esses grupos, que, de tão radicais, fechados e fundamentalistas, são impenetráveis a qualquer argumentação que não se enquadre em seus estreitos e pobres horizontes. Tentar dialogar com eles é como tentar dialogar com os protestantes fundamentalistas, sem tirar nem pôr. Nem mesmo freqüento tais sites, pois de modo algum valem a pena. Meu interesse é somente prevenir de modo argumentado e metódico aqueles que se sentem perplexos ante a aparente solidez da argumentação desses reacionários. Assim, cumpro somente com meu dever de defender a fé católica e ajudar o rebanho de Cristo para que não caia nas armadilhas que tantas vezes aparecem na sua peregrinação terrestre.

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1. A situação da Igreja na segunda metade do século XIX e início do século XX

Para bem se compreender o modernismo e a reação do Papa em relação a ele, é necessário ter em mente a situação histórica da Igreja na segunda metade do século XIX e primeiras décadas do século XX.

Até a Revolução Francesa, a Igreja tinha o controle moral de todos os setores da vida humana: havia ainda uma sociedade de inspiração cristã em todos os seus grandes aspectos. Tudo mudou a partir da Revolução de 1789: foi nascendo uma sociedade fora dos limites da Igreja, uma sociedade industrial e urbana (com valores como o consumo, o sucesso, a intensa circulação de idéias e riquezas, o surgimento dos proletários e das idéias socialistas) animada por novas correntes filosóficas desligadas da tradição escolástica medieval (a filosofia agora não levava realmente Deus em conta: procurava pensar o mundo a partir de si mesmo, da imanência, sem voltar-se para o Transcendente); desenvolveram-se intensamente as ciências naturais, com seu método experimental (já não se prestava atenção na autoridade de quem afirmava, mas nas provas que eram apresentadas) e a ciência histórica, com o método histórico-crítico, que procurava reinterpretar criticamente as fontes históricas (assim, tendia-se a uma releitura dos fatos históricos a partir de um estudo crítico das fontes).

Diante dessa cultura moderna e estranha ao controle eclesiástico – muitas vezes até hostil e contrária à fé cristã -, a Igreja procurou erguer barreiras contra o mundo exterior. Toda esta situação de profunda e veloz mudança pegou a Igreja desprevenida, sem um instrumental teórico próprio para dialogar eficazmente com a nova situação, de modo que a Igreja se encontrou incapaz de enfrentar e argumentar com profundidade, serenidade e solidez em face às novas e urgentes exigências. Restou à nossa Mãe católica uma posição muito ruim: colocar-se na defensiva, sentindo-se como uma fera acuada; e, como toda fera acuada, atacou ferozmente procurando defender-se de uma situação que poderia destruir todo o fundamento da doutrina cristã.

Já o Santo Padre Pio IX (1846-1878) teve que enfrentar tal situação. Havia primeiramente a ferida aberta e supurante, provocada pela Questão Romana: a Igreja perdera os Estados Pontifícios, exatamente em nome das novas idéias sociais e da democracia... Isto gerava todo um estado de espírito de contraposição ao mundo moderno, fazendo a Igreja assumir uma atitude reacionária, já que se posicionava contra tudo que tivesse ligação com a “revolução”: idéias como democracia, liberdade religiosa, liberdade de consciência, luta pela justiça social, etc, eram vistas com infinita desconfiança porque eram defendidas exatamente pelos ambientes liberais e racionalistas que se contrapunham à religião cristã. O ideal, para a hierarquia eclesiástica, seria o impossível: a volta do Antigo Regime, da monarquia absoluta pré-Revolução Francesa. A mentalidade católica tornou-se, assim, reacionária, fechada, fossilizante. De uma Igreja que tinha sido tantas vezes criativa e propositiva na Antiguidade e na Idade Média, passava-se a uma mentalidade estéril e de retranca. Em 1864, Pio IX escreveu a Encíclica Quanta Cura e o Syllabus, um catálogo de 80 erros contemporâneos, contendo condenações generalizadas de tendências liberais dentro da Igreja. Só para se ter uma idéia da mentalidade de então: a 76ª. tese condenava quem afirmasse que o fim do Estado Pontifício ajudaria à liberdade da Igreja; a 80ª. tese negava que o papado pudesse se reconciliar com o progresso. Note-se que a Igreja foi assumindo uma atitude profundamente negativa em relação ao mundo atual, tornado-se não somente conservadora, mas reacionária mesmo – no sentido em que adota uma postura defensiva, hostil e negativa a tudo quanto vinha do mundo moderno... Na verdade, ela se sentia sempre mais perplexa ante uma realidade forte, difusa, a ela hostil e com a qual ela não sabia como estabelecer um diálogo ou neutralizá-la. Já aqui é necessário ressaltar que tal atitude da Igreja não foi culpa do Papa ou de quem quer que seja. Tratava-se de uma situação para a qual a Igreja da época realmente não estava preparada para e não soube como enfrentar essa realidade.
Papa Leão XIII
O sucessor de Pio IX, Leão XIII, tentou diminuir o abismo entre a Igreja e a ciência moderna. Ao menos na questão social deu um importante passo com a Encíclica Rerum Novarum. Passo, sem dúvida, grande, mas nem de longe suficiente, para frear um afastamento sempre maior entre mundo e Igreja. Baste recordar a situação dolorosa do proletariado, o inchaço das cidades, o desenraizamento da população européia que agora deixava de ser rural e perdia seus referenciais... A Igreja não percebeu nada disso a tempo e a classe operária foi seduzida pelas doutrinas filosóficas de esquerda, sobretudo o marxismo. Uma outra tentativa do Papa para responder de modo intelectual às novas idéias foi restaurar o tomismo, isto é a filosofia da São Tomás de Aquino, valorizando a neo-escolástica, com a Encíclica Aeterni Patris, em 1879. Muitos eruditos católicos procuraram responder aos novos problemas a partir de São Tomás de Aquino. Um luminoso exemplo foi o Pe. Reginaldo Garrigou Lagrange, eminente teólogo dominicano. O problema é que o tomismo tradicional simplesmente não respondia mais às questões de modernidade. Era como a tentativa de colocar vinho novo em odres velhos... Toda genialidade e frescor de São Tomás – bem próprios e eficazes na Idade Média - foram engaiolados em fórmulas já prontas, em respostas mais ou menos engomadas, que realmente não satisfaziam e pouco diziam ante os grandes problemas colocados pela modernidade. A filosofia neo-escolástica parecia uma receita fria e irreal ante os problemas colocados pelas novas correntes filosóficas. Uma atitude positiva de Leão XIII foi ainda tomada na Encíclica Libertas (1888), na qual se pronunciou contra o “casamento do trono com o altar”, defendido pelos papas anteriores. Na França, chegou mesmo a incentivar uma política de aproximação entre os católicos e a república - coisa inadmissível para alguns papas anteriores.

A Leão XIII sucedeu Pio X, homem virtuoso e afável, que deu ao seu pontificado uma orientação proeminentemente pastoral: incentivou a comunhão das crianças e sua prática freqüente, promoveu o canto gregoriano e a catequese ministrada por leigos, preparou a codificação do Direito Canônico (promulgado depois por Bento XV), determinou a reforma do breviário e permitiu que os católicos italianos votassem – o que fora proibido no pontificado de Pio IX, desde que os nacionalistas italianos tomaram os Estados Pontifícios e unificaram a Itália. Foi no pontificado de Pio X que estourou de modo virulento a crise modernista, fazendo este Papa fechar-se mais ainda para o mundo de então.

2. O modernismo

Diante de toda esta situação, certamente, os desafios que o mundo colocava para a Igreja repercutiram profundamente dentro da própria comunidade católica. Muitos estudiosos e leigos mais conscientes procuraram encontrar respostas novas para os novos problemas. Havia realmente muitos que, procurando conciliar a fé católica com a nova mentalidade, terminavam por trair essa fé que procuravam apresentar de um modo novo. Mas, havia outros que, com equilíbrio, e sem se afastar em nada da essência do catolicismo, procuravam realmente, como o bom escriba de que fala o Evangelho, tomar do seu tesouro coisas novas e velhas: mantendo-se fiéis à Tradição, tentavam, no entanto, apresentá-la de modo novo, compreensível à sensibilidade de um mundo profundamente transformado. Este último grupo é chamado de progressista.

Infelizmente, ante a situação tão desafiadora e complexa, o Santo Padre Pio X, avaliou de modo extremamente negativo toda e qualquer tentativa de diálogo entre os católicos e o mundo moderno. Diante de tantas e tão velozes mudanças, o medo do Papa era que um diálogo da teologia cristã com as novas tendências viesse a dissolver o núcleo da fé católica. Sendo assim, sem separar nem distinguir os que se rendiam ao espírito do mundo (modernistas propriamente ditos) e os que com ele dialogavam, mas sem em nada ferir à Tradição (os progressistas), denominou a todos de modernistas e classificou a tendência de dialogar com as idéias modernas e a elas fazer concessão de ”modernismo”. Poderíamos dizer, portanto, que modernismo, de modo geral, é um movimento que desejava a reforma da Igreja e de sua doutrina para adaptá-las às exigências colocadas pela sociedade moderna. Observe-se que se trata de um conceito amplo demais, demasiadamente abrangente, englobando num só grupo segmentos e mentalidades realmente muito diferentes e, às vezes, incompatíveis. Pio X colocou a todos no mesmo saco! Na realidade esses teólogos católicos do fim do século XIX e início do século XX, conforme seu modo de pensar, suas idéias a respeito de reforma, sua origem e sua educação, pertenciam às mais diversas e até opostas tendências. O que os “modernistas” – como o Papa os chamava - tinham em comum era a vontade de superar o abismo que se abrira entre a Igreja e o mundo moderno, entre a teologia e a ciência.

O Santo Padre Pio X viu no modernismo uma perigosa irrupção do espírito do mundo dentro da Igreja e o definiu como o compêndio e o veneno de todas as heresias. Certamente, havia um bom número de pensadores que, no intento de dialogar com as novas idéias, terminavam por desfigurar a fé cristã. Uma posição bastante comum desse grupo heterodoxo era aquela de converter a experiência religiosa em critério decisivo da relação do homem com Deus. Isto em oposição ao conceptualismo da neo-escolástica oficial. Em palavras mais claras: para os modernistas radicais, a experiência religiosa, a religião, era uma questão sobretudo de sentimento, de subjetividade. Isto era gravíssimo, pois sendo assim, a religião já não era uma questão de verdade, mas simplesmente de sentimento, a revelação de Deus a Israel e em Jesus Cristo era reduzida a uma questão sentimental... Note-se que se fosse assim, Deus não se teria revelado e tudo quanto soubéssemos de Deus não passaria de uma idéia feita pelo próprio homem sedento de Absoluto. Tratam-se de idéias imanentistas, subjetivistas e relativistas, já que a verdade seria feita pelo próprio homem e teria o homem como critério. Com isto, já não teria mais muito sentido a Igreja como estrutura nem o Magistério teria alguma autoridade dada por Deus! Aliás, o próprio ser divino de Cristo terminaria colocado em xeque, pois o Infinito não poderia se manifestar diretamente neste mundo finito.

Em 1907, com o Decreto Lamentabili, Pio X condenou 65 sentenças dos dois modernistas mais famosos: o francês Alfred Loisy e o inglês Geroge Tyrell e na Encíclica Pascendi, o Papa procurou traçar um perfil do modernismo como um sistema completo, homogêneo, uma verdadeira síntese das heresias, criadas para aniquilar não apenas a religião católica, mas toda e qualquer religião. Já afirmei antes e repito agora que, assim fazendo, o Santo Padre colocou num mesmo saco gatos muito muito diferentes! A Pascendi juntava e reunia num único personagem – o herege modernista – características encontradas em intelectuais muito diferentes e até opostos entre si. O Papa afirmava ainda que a periculosidade dos modernistas seria tanto maior porque se disfarçavam com uma vida moralmente austera, porém motivada por orgulho e soberba. As medidas tomadas por São Pio X foram drásticas: os clérigos foram severamente exortados a voltarem à filosofia de são Tomás de Aquino; as dioceses deveriam constituir comitês de vigilância, que fiscalizariam publicações e ensino dos sacerdotes, devendo enviar relatórios periódicos a Roma; aos padres suspeitos somente seriam confiadas funções sem importância nem incidência; salvo com a permissão expressa, os clérigos não deveriam ir às universidades estatais, sobretudo não deveriam freqüentar os cursos de filosofia e de história. Ora, tal atitude dura de São Pio X despertou a reação áspera de alguns modernistas. Isto fez o Papa determinar, em 1910, o juramento antimodernista. Por causa dos duros protestos, Pio X dispensou do juramento somente os professores de teologia da Alemanha.
Papa Pio X
Como se pode imaginar, este foi um período muito triste na história recente da Igreja: (1) Triste porque a sociedade mudava rapidamente, desenvolvia-se numa velocidade vertiginosa, as novas idéias e as recentes descobertas científicas pululavam e a Igreja não sabia como reagir e muito menos como interagir com toda esta situação; (2) Triste porque um Papa santo, de coração manso e humilde e de profundo sentido pastoral, como foi Pio X, sentindo-se no dever sagrado de defender a fé católica, não conseguiu separar aqueles que realmente rendiam-se ao espírito das novas idéias sem discernimento (modernistas) daqueles que queriam dialogar com a nova mentalidade e aproveitar as novas idéias naquilo que tivessem de compatível com a fé cristã (progressistas). (3) Triste porque se criou na Igreja um terrível clima de tensão, desconfiança, fofoca, delação e perseguição. Foi um período no qual muitas vezes esqueceu-se a caridade e o respeito pelo irmão, prevalecendo a desconfiança e o mau juízo... Isto porque surgiram grupos integristas, que procuravam nos ensinamentos da Igreja e do Papa, de modo unilateral e infantil, resposta a todas as perguntas, inclusive as da ciência e da arte, bem como da vida particular e política: “Nós somos católicos romanos integrais, isto é, consideramos verdade absoluta não apenas a doutrina eclesiástica tradicional, mas também as orientações do Papa sobre coisas práticas, fortuitas, isto é, sobre todas as coisas e pessoas. A Igreja e o papa constituem uma unidade perfeita” (integristas) – estas são palavras de uma revista integrista da época. Claro que tal mentalidade nada tinha com a verdadeira Tradição católica! Tem-se aqui uma outra tendência herética, extremista: um ultramontanismo doentio e fanático, que desejava ser mais papista que o Papa! Contra quem pensasse diferente, os integristas eram agressivos e inquisitoriais. É deste ambiente terrivelmente fechado, fanático e reacionário que surgiu o Sodalitium Pianum (“piano”, aqui, refere-se ao Papa Pio X). Esse grupelho de ânimo intransigente era uma associação secreta (Sapinière) fundada e dirigida por Mons. Umberto Benigni, bispo sub-secretário de Estado, e considerava sua tarefa mais urgente desmascarar todos os modernistas, estigmatizá-los e providenciar sua condenação eclesiástica. Em outras palavras: tínhamos na Igreja um serviço secreto de informação e delação uma KGB... Infelizmente, esse grupelho recebeu apoio financeiro e moral de São Pio X, apesar de vários membros da Cúria Romana serem contrários a tal grupo, que era fechado, exagerado, policiesco e tendente ao fanatismo. Graças a Deus essa confraria foi imediatamente colocado no canto pelo sucessor de Pio X, o Papa Bento XV, em 1921. Pio X apoiava tal grupo porque foi se sentindo cada vez mais sozinho e ameaçado no seu modo de avaliar a situação – realmente o Papa fechou-se demasiadamente, vendo perigo em tudo!

Não há dúvidas de que a situação era realmente perigosa e difícil. Os modernistas radicais colocavam sim em perigo a fé católica. Além do mais, o modernismo extravasou o âmbito meramente teológico: como escapadouro das ânsias represadas, desenvolveu-se também como modernismo político, que defendia o liberalismo, esforçando-se para imbuir do espírito católico as novas forças da democracia e das lutas sociais. Em outras palavras: havia pensadores católicos apoiando abertamente a democracia, a separação entre Igreja e Estado e várias das reivindicações sociais da classe operária – reivindicações que hoje todos pensamos normalíssimas, mas que na época eram inovadoras e revolucionárias. Ante a posição decididamente negativa do Papa, desabafava o modernista radical Ernesto Buonaiuti: “Tentamos trazer as doutrinas do catolicismo para mais perto do nosso tempo, falando a sua linguagem e expressando seus próprios pensamentos, a fim de que por esse contato a mútua semelhança, que vai longe, se evidencie. Não podemos acreditar que a Igreja continue considerando destrutivo o nosso programa. Em alguma tentativa de aproximação podemos nos ter enganado, e nesse caso não há nada que mais desejamos do que uma advertência paternal. Mas contra a nossa atividade, cheia de sacrifícios e abnegações, não se lance uma áspera e irrevogável condenação!” Na Alemanha, os católicos reformistas (que não eram modernistas e, infelizmente, foram tratados como tais), desejavam harmonizar a vida e a doutrina da Igreja com o progresso da cultura e da ciência, sem violar a revelação e a fé, nem as estruturas fundamentais da Igreja. Mesmo assim, também eles não escaparam da suspeita e das restrições.

Repito: tudo isto foi muito triste! Se tivesse havido espaço para o diálogo, se tivesse havido mais discernimento para separar alhos de bugalhos... Mas, nada disso: diante do perigo grande, sorrateiro, diante do inimigo cujo rosto era desconhecido e cujos contornos eram de difícil delimitação, a condenação foi taxativa e geral, levando a um duplo resultado negativo: (1) os modernistas realmente modernistas terminaram por romper com a Igreja, sendo excomungados e degenerando de vez na sua doutrina herética e (2) os moderados, que realmente não tinham em nada se afastado da autêntica fé católica e muitíssimo teriam contribuído para o diálogo são e correto entre a Igreja e a sociedade que estava nascendo, foram silenciados e obedeceram. O problema é que isto deixou a Igreja falando sozinha, trancada em si mesma, sem uma real incidência no mundo que caminhava por sua própria conta. Isso é muito ruim porque um Deus sem mundo termina levando a um mundo sem Deus! A teologia, assim engessada e reprimida, degenerou-se, ficando extremamente medíocre: os professores eram obrigados simplesmente a repetir velhas explicações e fórmulas das quais sabiam serem ultrapassadas e ineficazes para exprimir a fé, pois que já não serviam para alimentar uma piedade, um pensamento e uma pastoral que fossem sal e luz para o mundo tão transformado... Muitos excelentes teólogos, homens santos e fiéis à Igreja, foram colocados sob suspeição de serem modernistas sem motivo algum; isto provocou muitos danos à teologia... Eis alguns exemplos: (1) O grande exegeta, Pe. Marie-Joseph Lagrange,OP procurou aplicar os princípios do método histórico ao estudo da Sagrada Escritura e às origens do cristianismo, mas isto sempre harmonizando suas investigações progressistas (não modernistas) com o ensinamento oficial da Igreja. Apesar de toda sua prudência, foi objeto de denúncias pelos integristas reacionários e suas pesquisas foram imensamente prejudicadas. (2) No âmbito da filosofia, Maurice Blondel, católico sério e leigo consciente, quis apresentar a fé e suas conseqüências práticas com um novo vigor, utilizando o seu assim chamado “método da imanência”. Seu desejo era demonstrar que a fé é plenamente condizente com o homem moderno, pois que a revelação cristã seria a plenitude de uma aspiração natural e primordial do homem. Pois bem: em nome de um conceito errado atribuído erroneamente a Santo Tomás lido de modo capenga, Blondel foi denunciado como modernista pelos integristas de sempre, acusado de destruir e esvaziar a realidade sobrenatural e a gratuidade da graça de Deus. A mesma acusação seria feita ao grande Pe. De Lubac décadas mais tarde. Em síntese: tudo que não fosse a velha cantilena tomista cantada de um modo a-histórico, míope e conceptualista, era colocado sob suspeição pelos integristas que dominaram no pontificado de São Pio X. Resultado final de tudo isto: os graves problemas da relação entre fé e modernidade permaneceriam sem solução até que começassem a ser afrontados claramente e com coragem a partir do Vaticano II! É uma lição que deveríamos aprender: não adianta – mesmo com toda a boa vontade do mundo – colocar os problemas debaixo do tapete da história: cedo ou tarde ter-se-á que afrontá-los, de um modo ou de outro!

Somente a título de ilustração, eis alguns breves acenos sobre Alfred Loisy, que foi o mais conhecido dentre os modernistas. Era sacerdote carmelita. Pretendia sobretudo aplicar o método histórico-crítico também à história das origens bíblicas e da Igreja. Em seus cursos no Instituto Católico de Paris e em sua revista L’Enseignement biblique, seguindo a exegese protestante alemã, afirmava que Moisés não poderia ser o autor do Pentateuco e que os onze primeiros capítulos do Gênesis não pertenceriam ao gênero literário histórico. Depois, transcendendo a questão bíblica, procurou analisar a natureza dos dogmas na Igreja. Fê-lo relativizando de modo forte a revelação e o dogma. Na verdade, desejava confrontar o sistema vigente, a-histórico, da neo-escolástica com as idéias newmanianas sobre a evolução do dogma. Ele pretendia mostrar que a Igreja e o dogma não vão contra as intenções de Jesus, mas foram conseqüência de seu ensinamento. Afirmava, por exemplo, que a Igreja era a única forma pela qual, após a morte de Jesus, poderia sobreviver o anúncio do Reino pregado por Cristo. O que Jesus havia proposto somente poderia sobreviver com a adaptação às novas exigências históricas, com a procura de novas repostas para as novas situações que Jesus não havia previsto e, por isso, não tinha podido revelar aos seus discípulos. Justamente por isso os dogmas não constituiriam verdades caídas do céu, mas eram somente o produto da história. A identidade decisiva entre o Jesus e a Igreja não estaria na manutenção da mesma verdade, mas no fato de ambos estarem na mesma corrente de vida. Interessante aqui notar que a intenção principal de Loisy não era criticar, mas apologizar, defender a fé contra o protestantismo liberal de Adolf Harnack; só que os princípios que usou para tanto levavam à conclusões incompatíveis com a fé católica.

Esta é a complicação e a fraqueza do modernismo: muitas vezes eram intenções boas, intuições corretas, mas apresentadas de modo inaceitável para a fé, pois terminava por reduzi-la a um fenômeno meramente humano e imanente, sem vínculo objetivo e real com o Transcendente. Analisemos as afirmações acima: Loisy estava correto quando percebera que o dogma evolui na história – e isto sempre aconteceu na vida da Igreja – o Cardeal Newman, por exemplo, tinha-o demonstrado muito bem. O problema é quando o Carmelita atribui isso simplesmente a um dinamismo histórico, esquecendo que a Igreja é guiada pelo Espírito Santo que preside a esse processo e que tem um órgão próprio para avaliar e discernir, que é o Magistério do Papa e dos Bispos em comunhão com o Sucessor de Pedro. Como o teólogo carmelita apresenta as coisas parecia que o dogma era um produto do dinamismo meramente histórico e cultural, obra meramente humana, sem nenhuma participação de divina. Foi condenado e, posteriormente, radicalizou suas posições, afirmando que a revelação e a fé em Deus pareciam até se volatilizar. Não foi por acaso que Loisy se tornou cada vez mais racionalista, a ponto de negar a divindade de Jesus Cristo e reduzir a experiência religiosa a uma simples questão filantrópica e humanitária. Seu mérito foi ter levantado, no início do século XX, certos problemas que antes dele praticamente não tinham sido enunciados na Igreja. Apesar de todo o seu exagero e seus erros, sua obra abriu caminho para a posterior aceitação do método histórico-crítico na Igreja.

3. O período pós-modernista

Com uma perseguição implacável aos modernistas – fossem eles verdadeiros ou supostos -, São Pio X realmente conseguiu livrar a Igreja do tsunami que a cercava: aquela mentalidade nova e, muitas vezes, incompatível com o cristianismo. Como já foi dito, as duras condenações de modo amplo e sem matizes esterilizaram por um bom tempo a pesquisa dos exegetas católicos. Num clima assim, muitos, por prudência, se fecharam na erudição e na arqueologia. Somente a partir de Pio XII, com a Encíclica Divino afflante Spiritu, começou-se, pouco a pouco, um pequeno ensaio de afrouxar mais as rédeas da exegese e de incentivar os exegetas no seu trabalho. O mesmo valeu para os teólogos e a teologia de modo geral, até então sob estrita e fossilizante vigilância integrista dentro da Igreja. Agora, já não mais se obrigava os teólogos a afirmarem que o dogma não tinham história. Alguns teólogos, como Chenu, Congar e De Lubac proppuseram uma rica e fecunda teologia fortemente enraizada nos Padres e na história da Igreja. Apesar de serem plenamente ortodoxos, ainda tiveram que enfrentar um clima de suspeitas em certos ambientes adeptos de um tomismo dogmático e fossilizado que, além de errar por pensar que o tomismo é a única escola de teologia realmente católica, defendiam uma interpretação de São Tomás que não era realmente fiel ao pensamento e às intuições do Doutor Angélico. Esses teólogos brilhantes foram colocados injustamente em linha de fogo, sua teologia foi denominada de modo pejorativo de Nouvelle Théologie, “Nova Teologia”, no sentido de ser infiel à Tradição eclesial. Graças a Deus esse importante grupo de teólogos, mesmo sofrendo incompreensões, manteve-se fiel à Igreja e levaram adiante seus estudos, que foram de inestimável valor para a renovação da e colocaram as bases para o Concílio Vaticano II. O próprio Papa Pio XII sofreu influência desses ambientes reacionários, chegando a desconfiar de alguns aspectos da teologia do Pe. De Lubac e condenando-os indiretamente na Encíclica Humani Generis. Em todo caso, uma certa abertura estava realmente em curso: tanto a eclesiologia como as relações entre a Igreja e a modernidade iam, aos poucos, sendo abordadas não mais simplesmente em termos jurídicos, mas iam sendo enfocadas de modo mais positivo, vital e dinâmico. O próprio Papa Pio XII começou a interagir com mais abertura em relação ao mundo circunstante. Começou-se a defender pacificamente – como o filósofo cristão Jacques Maritain – que a Igreja não deveria exercer uma tutela sobre o âmbito temporal. Isto ficara na Idade Média, por motivos históricos bem precisos e justificáveis; agora tal pretensão seria inconcebível!

Contudo, foi somente com o Vaticano II que a Igreja deu o passo decisivo na tentativa de dialogar com o mundo moderno. Antes mesmo dos documentos do Concílio, é importante salientar a própria mentalidade que dirigiu a Assembléia conciliar: o desejo de apresentar o Evangelho e a fé católica na plena fidelidade à Tradição mas, por outro lado, deixando de lado aqueles elementos não essenciais que eram expressões próprias de uma situação histórica ultrapassada. Distinguia-se a fé das expressões nas quais ela pode ser expressa; distinguia-se o que é doutrina normativa e definitiva, pertencente ao Depósito da Fé, daquilo que é contingente e pode ser mudado e melhorado – distinções que não puderam ser feitas por Pio IX e Pio X pelo clima envenenado da época da crise modernista. Assim, problemas como o ecumenismo, a questão exegética, a questão social, a liberdade religiosa, a avaliação das várias religiões não-cristãs, particularmente do judaísmo e do islamismo, tudo isto foi revisto à luz da nova situação histórica e de uma mentalidade não mais reacionária, mas, ao invés, positiva e propositiva. É importantíssimo notar que não se tratou de renegar o passado, de adulterar a fé ou de desdizer a doutrina no que tem de imutável, mas sim de ser fiel ao patrimônio perene da Mãe católica, apresentando-o, no entanto, de modo dialógico em relação ao homem atual. Isto a Igreja fizera já quando saíra do ambiente judaico para o mundo grego, quando deixara o mundo greco-romano para penetrar no mundo celta, depois, fê-lo novamente quando teve que interagir com o mundo germânico. Novamente iria fazê-lo agora, dialogando de modo crítico e construtivo com a mentalidade saída do iluminismo, do racionalismo e do cientificismo da modernidade. Neste novo horizonte, o Magistério eclesial pôde reavaliar com mais serenidade e profundidade várias das teses que no tempo da polêmica modernista foram condenadas como heréticas ou perigosas para a fé. Separando o joio do trigo, evitando os pressupostos filosóficos incompatíveis com a fé, os Papas e o Episcopado do pós-concílio, de modo sereno e decidido vêm fazendo este trabalho de discernimento. Muitas vezes o Magistério tem aprovado as novas impostações da teologia e da exegese e, outras tantas vezes tem repreendido, corrigido e até punido os desvios e erros. É isto que os tradicionalistas empedernidos (herdeiros da mentalidade integrista, mesquinha e tacanha do Sodalitium Pianum) e muitos teólogos excessivamente progressistas (herdeiros do modernismo, que falam num tal de “espírito do Concílio” para defenderem tudo quanto é teologia extravagante e contrária à fé) não conseguem entender. Quem tem seguido com seriedade e empenho os passos do Magistério da Igreja nas últimas décadas percebe claramente o cuidado de fazer constantemente este discernimento, bem como o belíssimo equilíbrio do Magistério dos papas recentes.

4. Os tradicionalistas reacionários

É todo este processo, certamente tão guiado pelo Espírito Santo como ocorrera nas demais épocas da história da Igreja, que os tradicionalistas não conseguem compreender. Agarram-se aos antigos documentos sem nenhuma perspectiva histórica, lendo-os como se a Igreja estivesse no final do século XIX e inícios do século XX. Vivem em guerra contra moinhos de vento. O perigo é que citam os antigos documentos sem conhecerem ou sem levaram em conta todo este contexto e, assim, de modo obtusamente fundamentalístico, impressionam os desavisados. Quantos jovens católicos bem intencionados, no desejo de serem fiéis à Tradição da Igreja, caem na armadilha desses diretores de museu eclesiástico! Aí, de modo tolo e com uma ignorância de dar pena, saem acusando todo mundo de modernista, impugnando teólogos sérios e importantes, como o Pe. De Lubac, que foi convocado para perito do Concílio pelo Bem-aventurado João XXIII, foi elogiado por Paulo VI, feito cardeal por João Paulo II e foi um dos principais mestres de Bento XVI.
Papa Pio V
Analisando com calma, pode-se afirmar – e eu afirmo sem medo – que a “igreja” (com “i” minúsculo) propugnada por esses tradicionalistas pouco tem da Igreja de Cristo, sustentada pelo Espírito: a visão deles é de uma igreja fossilizada, parada numa determinada época (e que não é a época apostólica), que não compreende as necessidades do mundo e nada tem a dizer a ele; é uma igreja medrosa, infiel ao seu mandato de ser sal e luz; uma igreja aleijada, que olha para trás e não para frente, ao encontro com o Senhor que vem; uma igreja que concebe o riquíssimo tesouro da Tradição como um baú velho, com respostas amareladas como as anotações de um professor repetitivo e preguiçoso, que morreu intelectualmente; é uma igreja que confunde o essencial com o acessório, a verdade com as maneiras com as quais esta pode ser apresentada; é uma igreja que coloca São Tomás acima da Escritura e dos Santos Padres, que coloca a Idade Média acima da época apostólica, que de modo desonesto desqualifica os papas do presente em nome dos papas do passado numa herética contraposição... É interessante que até mesmo a linguagem desses tradicionalistas, pouco amigos da Tradição, é empolada e afetada... Um sinal claro de que vão cada vez mais perdendo contato com a Igreja real é que se isolam do Episcopado e dos demais irmãos na fé. Interessante que, cheios de presunção, se arvoram em defensores e intérpretes da Tradição, função que Cristo confiou aos Bispos e, para tanto, os assiste com o Espírito Santo!

Para concluir. Elaborei este texto para esclarecer àqueles que, bem intencionados, ficam confusos ao lerem em sites tradicionalistas e reacionários – descendentes diretos dos integristas do Sodalitium Pianum - citações de antigos documentos do Magistério que parecem contradizer as afirmações do Magistério atual. Também quis explicar o que foi o modernismo e quais os seus perigos. Quis ainda mostrar como algumas coisas que foram condenadas em bloco pelo Magistério da época devido a precisas condições históricas, atualmente, purificadas, foram acolhidas e ensinadas pelo Magistério eclesiástico sem nenhuma contradição com a fé católica e a perene Tradição da Igreja.
Papa Bento XVI
Não tenho neste texto objetivo polêmico. Não perco tempo polemizando com reacionários, porque o reacionarismo é uma doença da inteligência. Pode-se ser tranquilamente conservador, pode-se ter esta ou aquela sensibilidade litúrgica, teológica, espiritual, mas ser reacionário impede o diálogo, mata a caridade e turba a compreensão. Meu escrito não é para os reacionários, mas para os leitores sinceramente católicos, fiéis à Igreja de hoje e de sempre que, freqüentando meu site e meu blog, procuram orientação de alguém que deseja sinceramente estar em comunhão com o atual Sucessor de Pedro. Para estes dei-me a esta pequena fadiga deste texto. Se ajudar sentir-me-ei recompensado.

* Dom Henrique Soares da Costa, Bispo Titular de Acúfica e Auxiliar de Aracaju.Mais informações sobre o autor no site citado abaixo. ("grifo nosso" no texto para facilitar a leitura)

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Uma visão reflexiva à Encíclica Spe Salvi

Ao fazer um olhar panorâmico sobre a SPE SALVI destacamos de início a incapacidade do homem transcender a si mesmo por intermédio do próprio poder, colocando a alma em esperanças seculares e, não em poucas vezes na modernidade, fiando-se nas ciências como fonte de resposta para tudo que cerca a vida humana. Esta incoerência é chamada por Eric Voegelin de “imanentização do escháton” da qual o Santo Padre Bento XVI vem cunhar uma nova expressão: “deimanentizar” o escháton através das finalidades últimas de Deus para o homem na originalidade das três virtudes teológicas, como salienta a Encíclica Spe Salvi, ou seja, o lugar da esperança em nossa vida está fundamentada no destino transcendente do homem em se tornar pessoalmente um membro da cidade/Reino de Deus, sem claro, excluir a experiência da morte e do sofrimento, que fazem parte da condição do homem como criatura e pecador, dando sentido e esperança na possibilidade de serem redentoras. Como nos aponta a Encíclica: Neste sentido, é verdade que quem não conhece Deus, mesmo podendo ter muitas esperanças, no fundo está sem esperança, sem a grande esperança que sustenta toda a vida (cf. Ef 2,12). A verdadeira e grande esperança do homem, que resiste apesar de todas as desilusões, só pode ser Deus – o Deus que nos amou, e ama ainda agora “até ao fim”, “até à plena consumação” (cf. Jo 13,1 e 19,30). Quem é atingido pelo amor começa a intuir em que consistiria propriamente a « vida ». Começa a intuir o significado da palavra de esperança que encontramos no rito do Batismo: da fé espero a “vida eterna” – a vida verdadeira que, inteiramente e sem ameaças, em toda a sua plenitude é simplesmente vida. Jesus, que disse de Si mesmo ter vindo ao mundo para que tenhamos a vida e a tenhamos em plenitude, em abundância (cf. Jo 10,10), também nos explicou o que significa “vida”: “A vida eterna consiste nisto: Que Te conheçam a Ti, por único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a Quem enviaste” (Jo 17,3). A vida, no verdadeiro sentido, não a possui cada um em si próprio sozinho, nem mesmo por si só: aquela é uma relação. E a vida na sua totalidade é relação com Aquele que é a fonte da vida. Se estivermos em relação com Aquele que não morre, que é a própria Vida e o próprio Amor, então estamos na vida. Então “vivemos”.
Surge agora, porém, a questão: não será que, desta maneira, caímos de novo no individualismo da salvação? Na esperança só para mim, que, aliás, não é uma esperança verdadeira porque esquece e descuida os outros? Não. A relação com Deus estabelece-se através da comunhão com Jesus – sozinhos e apenas com as nossas possibilidades não o conseguimos. Mas, a relação com Jesus é uma relação com Aquele que Se entregou a Si próprio em resgate por todos nós (cf. 1 Tm 2,6). O fato de estarmos em comunhão com Jesus Cristo envolve-nos no seu ser “para todos”, fazendo disso o nosso modo de ser. Ele compromete-nos a ser para os outros, mas só na comunhão com Ele é que se torna possível sermos verdadeiramente para os outros, para a comunidade. Neste contexto, queria citar o grande doutor grego da Igreja, S. Máximo o Confessor († 662), o qual começa por exortar a não antepor nada ao conhecimento e ao amor de Deus, mas depois passa imediatamente a aplicações muito práticas: “Quem ama Deus não pode reservar o dinheiro para si próprio. Distribui-o de modo ‘divino’ [...] do mesmo modo segundo a medida da justiça”. Do amor para com Deus consegue a participação na justiça e na bondade de Deus para com os outros; amar a Deus requer a liberdade interior diante de cada bem possuído e de todas as coisas materiais: o amor de Deus revela-se na responsabilidade pelo outro. A mesma conexão entre amor de Deus e responsabilidade pelos homens podemos observá-la com comoção na vida de S. Agostinho. Depois da sua conversão à fé cristã, ele, juntamente com alguns amigos possuídos pelos mesmos ideais, queria levar uma vida dedicada totalmente à palavra de Deus e às realidades eternas. Pretendia realizar com valores cristãos o ideal da vida contemplativa expressa pela grande filosofia grega, escolhendo deste modo “a melhor parte” (cf. Lc 10,42). Mas as coisas foram de outro modo. Participava-o na Missa dominical, na cidade portuária de Hipona, quando foi chamado pelo Bispo do meio da multidão e instado a deixar-se ordenar para exercer o ministério sacerdotal naquela cidade. Olhando retrospectivamente para aquela hora, escreve nas suas  Confissões :
“Aterrorizado com os meus pecados e com o peso da minha miséria, tinha resolvido e meditado em meu coração, o projeto de fugir para o ermo. Mas Vós mo impedistes e me fortalecestes dizendo: ‘Cristo morreu por todos, para que os viventes não vivam para si, mas para Aquele que morreu por todos’ (cf. 2 Cor 5, 15)”. Cristo morreu por todos. Viver para Ele significa deixar-se envolver no seu “ser para”.

Apontamos uma característica elementar da fé Judaico-cristã é estar inserida na história concreta da humanidade (Jo 1,14) e o seu caráter comunitário (Jo 17, 11-21), mesmo a vocação seja feita a cada individuo a sua repercussão é de total alteridade para com Deus que chama e com os irmão que deve servir. Logo, a esperança não pode estar alheia aos acontecimentos da história e nem ser individualista. Isso O Santo Padre salienta em toda a Encíclica como poderemos observar: Façamos um resumo daquilo que emergiu no desenrolar das nossas reflexões. O homem, na sucessão dos dias, tem muitas esperanças – menores ou maiores – distintas nos diversos períodos da sua vida. Às vezes pode parecer que uma destas esperanças o satisfaça totalmente, sem ter necessidade de outras. Na juventude, pode ser a esperança do grande e fagueiro amor; a esperança de certa posição na profissão, deste ou daquele sucesso determinante para o resto da vida. Mas quando estas esperanças se realizam, resulta com clareza que na realidade, isso não era a totalidade. Torna-se evidente que o homem necessita de uma esperança que vá mais além. Vê-se que só algo de infinito lhe pode bastar, algo que será sempre mais do que aquilo que ele alguma vez possa alcançar. Neste sentido, a época moderna desenvolveu a esperança da instauração de um mundo perfeito que, graças aos conhecimentos da ciência e a uma política cientificamente fundada, parecia tornar-se realizável. Assim, a esperança bíblica do reino de Deus foi substituída pela esperança do reino do homem, pela esperança de um mundo melhor que seria o verdadeiro “reino de Deus”. Esta parecia finalmente à esperança grande e realista de que o homem necessita. Estava em condições de mobilizar – por um certo tempo – todas as energias do homem; o grande objetivo parecia merecedor de todo o esforço. Mas, com o passar do tempo fica claro que esta esperança escapa sempre para mais longe. Primeiro deram-se conta de que esta era talvez uma esperança para os homens de amanhã, mas não uma esperança para mim. E, embora o elemento “para todos” faça parte da grande esperança – com efeito, não posso ser feliz contra e sem os demais – o certo é que uma esperança que não me diga respeito a mim pessoalmente não é sequer uma verdadeira esperança. E tornou-se evidente que esta era uma esperança contra a liberdade, porque a situação das realidades humanas depende em cada geração novamente da livre decisão dos homens que dela fazem parte. Se esta liberdade, por causa das condições e das estruturas, lhes fosse tirada, o mundo, em última análise, não seria bom, porque um mundo sem liberdade não é de forma alguma um mundo bom. Deste modo, apesar de ser necessário um contínuo esforço pelo melhoramento do mundo, o mundo melhor de amanhã não pode ser o conteúdo próprio e suficiente da nossa esperança. E, sempre a este respeito, pergunta-se: Quando é “melhor” o mundo? O que é que o torna bom? Com qual critério se pode avaliar o seu ser bom? E por quais caminhos se pode alcançar esta “bondade”?
 Mais ainda: precisamos das esperanças – menores ou maiores – que, dia após dia, nos mantêm a caminho. Mas, sem a grande esperança que deve superar tudo o resto, aquelas não bastam. Esta grande esperança só pode ser Deus, que abraça o universo e nos pode propor e dar aquilo que, sozinhos, não podemos conseguir. Precisamente o ser gratificado com um dom faz parte da esperança. Deus é o fundamento da esperança – não um deus qualquer, mas aquele Deus que possui um rosto humano e que nos amou até ao fim: cada indivíduo e a humanidade no seu conjunto. O seu reino não é um além imaginário, colocado num futuro que nunca mais chega; o seu reino está presente onde Ele é amado e onde o seu amor nos alcança. Somente o seu amor nos dá a possibilidade de perseverar com toda a sobriedade dia após dia, sem perder o ardor da esperança, num mundo que, por sua natureza, é imperfeito. E, ao mesmo tempo, o seu amor é para nós a garantia de que existe aquilo que intuímos vagamente e, contudo, no íntimo esperamos: a vida que é “verdadeiramente” vida. Procuremos concretizar ainda mais esta idéia na última parte, dirigindo a nossa atenção para alguns “lugares” de aprendizagem prática e de exercício da esperança.
03) Antes de qualquer resumo à última parte da Encíclica, trago a luz o exemplo de vida, fé, esperança, caridade e justiça que brilharam na história de Santa Bakhita, donde o Santo Padre, de forma iluminada, apresenta brevemente no início da Spes Salvi onde vemos a providencia e a graça de Deus se manifesta na ação e no sofrer caritativo desta que antes de conhecer pessoalmente o Deus Revelado, sabia em seu coração que era uma “Afortunada” do Senhor!
Diz-nos o Papa Bento XVI: O exemplo de uma santa da nossa época pode, de certo modo, ajudar-nos a entender o que significa encontrar pela primeira vez e realmente este Deus. Refiro-me a Josefina Bakhita, uma africana canonizada pelo Papa João Paulo II. Nascera por volta de 1869 – ela mesma não sabia a data precisa – no Darfur, Sudão. Aos nove anos de idade foi raptada pelos traficantes de escravos, espancada barbaramente e vendida cinco vezes nos mercados do Sudão. Por último, acabou escrava ao serviço da mãe e da esposa de um general, onde era diariamente seviciada até ao sangue; resultado disso mesmo foram as 144 cicatrizes que lhe ficaram para toda a vida. Finalmente, em 1882, foi comprada por um comerciante italiano para o cônsul Callisto Legnani que, ante a avançada dos mahdistas, voltou para a Itália. Aqui, depois de “patrões” tão terríveis que a tiveram como sua propriedade até agora, Bakhita acabou por conhecer um “patrão” totalmente diferente – no dialeto veneziano que agora tinha aprendido, chamava “paron”  ao Deus vivo ao Deus de Jesus Cristo. Até então só tinha conhecido patrões que a desprezavam e maltratavam ou, na melhor das hipóteses, a considerava uma escrava útil. Mas agora ouvia dizer que existe um “paron” acima de todos os patrões, o Senhor de todos os senhores, e que este Senhor é bom, a bondade em pessoa. Soube que este Senhor também a conhecia, tinha-a criado; mais ainda, amava-a. Também ela era amada, e precisamente pelo “Paron” supremo, diante do qual todos os outros patrões não passam de miseráveis servos. Ela era conhecida, amada e esperada; mais ainda, este Patrão tinha enfrentado pessoalmente o destino de ser flagelado e agora estava à espera dela “à direita de Deus Pai”. Agora ela tinha “esperança” ; já não aquela pequena esperança de achar patrões menos cruéis, mas a grande esperança: eu sou definitivamente amada e aconteça o que acontecer, eu sou esperada por este Amor. Assim a minha vida é boa. Mediante o conhecimento desta esperança, ela estava  “redimida” , já não se sentia escrava, mas uma livre filha de Deus. Entendia aquilo que Paulo queria dizer quando lembrava aos Efésios que, antes, estavam sem esperança e sem Deus no mundo: sem esperança porque sem Deus. Por isso, quando quiseram levá-la de novo para o Sudão, Bakhita negou-se; não estava disposta a deixar-se separar novamente do seu “Paron”. A 9 de Janeiro de 1890, foi batizada e crismada e recebeu a Sagrada Comunhão das mãos do Patriarca de Veneza. A 8 de Dezembro de 1896, em Verona, pronunciou os votos na Congregação das Irmãs Canossianas e desde então, a par dos serviços na sacristia e na portaria do convento, em várias viagens pela Itália procurou, sobretudo incitar à missão: a libertação recebida através do encontro com o Deus de Jesus Cristo, sentia que devia estendê-la, tinha de ser dada também a outros, ao maior número possível de pessoas. A esperança, que nascera para ela e a “redimira”, não podia guardá-la para si; esta esperança devia chegar a muitos, chegar a todos.
Podemos perceber como a esperança se manifesta no agir, no sofrer e no juízo daqueles que buscam o Caminho, a Verdade e a Vida com sinceridade de coração sem se desligar dos acontecimentos experimentados na história de vida de cada pessoa, pois é nestas experiências de encontro que Deus vai se revelando, sobretudo no escândalo da Cruz e na esperança que dela brota! Este é o centro da reflexão do número 43 da Encíclica Spes Salvi: o cristão pode e deve aprender sempre de novo no Deus que fez-Se uma “imagem”: em Cristo que Se fez homem. N'Ele, o Crucificado, a negação de imagens erradas de Deus é levada ao extremo. Agora, Deus revela a sua Face precisamente na figura do servo sofredor que partilha a condição do homem abandonado por Deus, tomando-a sobre si. Este sofredor inocente tornou-se esperança-certeza: Deus existe, e Deus sabe criar a justiça de um modo que nós não somos capazes de conceber, mas que, pela fé, podemos intuir. Sim, existe a ressurreição da carne. Existe uma justiça. Existe a “revogação” do sofrimento passado, a reparação que restabelece o direito. Por isso, a fé no Juízo final é, primariamente, e, sobretudo esperança – aquela esperança, cuja necessidade se tornou evidente justamente nas convulsões dos últimos séculos. Estou convencido de que a questão da justiça constitui o argumento essencial – em todo o caso o argumento mais forte – a favor da fé na vida eterna. A necessidade meramente individual de uma satisfação – que nos é negada nesta vida – da imortalidade do amor que anelamos, é certamente um motivo importante para crer que o homem seja feito para a eternidade; mas só em conexão com a impossibilidade de a injustiça da história ser a última palavra, é que se torna plenamente convincente a necessidade do retorno de Cristo e da nova vida.

Bibliografia:

BENTO XVI, Papa. Carta Encíclica Spes Salvi: sobre a esperança cristã. São Paulo: Edições Loyola, 2007.

COMMUNIO. Revista Internacional de Teologia e Cultura. Vol: XXVIII, nº3 (Jul/ Set. 2009). pp 713-722.


*Trabalho e pesquisa feito para o curso de Escatologia PUC-Rio

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

São Tiago das Marca, Ofm


Também conhecido como James della Marca

Nasceu em Monteblandone, Marca, em 1 de setembro de 1394 como Dominic.

Tomou o hábito dos franciscanos com 22 anos em 1416. Ele tomou o nome de James e da província de onde veio, assim passou a se chamar James della Marca. Nos países latinos seu nome é Tiago della Marca.
Antes de ser missionário por 50 anos ele foi educado com Sã Bernardino de Sienna em Fiezole, perto de Florença, Itália e foi ordenado em 1423 com 29 anos. Ele tornou-se um notável pregador. Ele pregou por todos dias durante 40 anos e era sua vocação andar por toda a Europa e pregar o Cristianismo, sempre onde ele sentisse necessário. Ele tinha a paciência de um Beneditino para reconstruir todas as suas jornadas inclusive aquelas que fez com São João Capristano através da Itália ,Alemanha, Bohemia, Polônia e Hungria.

Esse franciscano cheio de incrível energia andava por todos os lados. Ele apareceu na Bósnia em 1432 onde o Rei Tuerko o recebeu de braços abertos Ali ele pregou contra a heresia dos Bogomils.

Em 1436 Tiago estava na Bohemia, Hungria e Áustria, fundando um monastério por mês. Em 1437 o Imperador Segismundo iniciou uma cruzada contra os turcos e Tiago foi junto. Em 1438 ele retornou a Itália, fez um sermão em Bolonha, atendeu a um Concilio em Ferrara e voltou para a Hungria. Tudo a pé ou no lombo de cavalos ou mulas.

Em 1440 ele ficou doente em Chipre e, em um raro evento ele em 1444, ficou três dias descansando no monastério de Trasimene onde se encontrou com São João Capristrano e São Bernadino de Siena, que morreu no mês seguinte.

Sucedendo São João Capristrano como Legado Papal em 1456 ele foi para a Austria e Hungria para combater os Hussites. A ele foi oferecido o bispado de Milão mas ele recusou porque preferia continuar pegando.

Em 1462 como resultado de um sermão em Brescia, no qual ele deu sua opinião teológica sobre o " Precioso Sangue de Cristo", ele tornou-se sujeito a uma inquisição local. O caso era controvertido e Tiago recusou-se a comparecer ante a Inquisição e recorreu a Roma. Um silencio sobre o assunto, foi imposto aos inquisidores Dominicanos e aos Franciscanos e nenhuma decisão foi jamais alcançada.

E assim ele estava sempre indo de um lugar para o outro, sempre pregando e lutando uma boa causa até que em 28 de novembro de 1476 ele deixou Nápoles seguindo para o Céu em sua última jornada, onde temos razão para acreditar que o incansável franciscano ainda esteja.
Ele era magro e só dormia 3 horas por noite e usava um hábito feito de pano grosso. Ele jejuava dia sim, dia não. No final o papa proibiu que ele jejuasse porque sua saúde era de interesse público. O bom senso do Papa Sixtus IV foi notável para a época ao recomendar ao santo que cuidasse de sua saúde. Mas o bom frei comia apenas pão, feijão, alho e cebola. Dizia que o Espirito Santo o inspirava a grandes sermões com grande poder e ferocidade e com sucesso incrível, mesmo com o estômago vazio. E era verdade. Em Camerino, certa vez seu discurso quase fez com que a platéia queimasse seu adversário. Em Aquila, 40.000 pessoas aguardavam ele descer do púlpito para dar o que seria hoje uma espécie de autógrafo. Queriam que ele escrevesse o nome de Jesus em um pedaço de pergaminho.
Para conseguir satisfazer a demanda, os frades do monastério produziam milhares desses pergaminhos e Tiago colocava sua mão neles abençoando a todos os pergaminhos.
Diz a tradição que sua benção curava várias doenças.

Ele era também um grande pacificador. Nos turbulentos anos do 15° século, onde a paz parecia desaparecer por todos os cantos, ele conseguiu com seu dom especial, reconciliar lados opostos de franciscanos que tinha interpretações diferentes sobre o verdadeiro espirito do seu fundador, São Francisco de Assis, com o seu notável raciocínio teológico. Ele reconciliou católicos de todos os lados. Por exemplo: ele moderou a oposição aos Hussites da Hungria oferecendo no Consílho de Basle a prática das Comunhões em ambos os credos. Ele participou em 1438 do Consílho de Florença e da Reunião das Igrejas Orientais e Ocidentais. E acima de tudo ele reconciliou o homem com Deus, o que sem duvida é o melhor meio de reconciliar o homem com o homem.

Em 1473 ele foi para Nápoles, onde veio a falecer em foi enterrado na Igreja de Santa Maria Nuova. Seu túmulo se tornou local de peregrinação e vários milagres foram creditados a sua intercessão.

Papas e reis chamavam por ele, porque queriam ouvir a voz de Deus. Cada manhã ele pregava diferente porque, segundo ele, a noite havia respirado o Espirito Santo.

Na arte litúrgica da Igreja, São Tiago della Marcha é representado com um cálice e uma serpente saindo do cálice, as vezes com um cálice e um véu, e outras vezes com um báculo e um lírio apontando para IHS.

Ele é venerado em Ancona e é o padroeiro de Nápoles. Foi beatificado em 1624 pelo Papa Urbano VIII e canonizado em 1726 pelo Papa Benedito XIII.

Sua festa é celebrada no dia 28 de novembro.

Missa com o Papa Bento XVI em Guaratiba: Encerramento da JMJ 2013

Guaratiba, na Zona Oeste, foi o local escolhido para receber a Vigília e a Missa de Encerramento da Jornada Mundial da Juventude Rio2013 com o Papa Bento XVI, nos dias 27 e 28 de julho, respectivamente. 
O anúncio acaba de ser feito pelo prefeito da cidade, Eduardo Paes, e pelo Arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Orani João Tempesta, durante o II Encontro Preparatório para a JMJ Rio2013, que está sendo realizado esta semana, na capital fluminense. Estavam presentes ao anúncio o ministro Gilberto Carvalho e o embaixador do Brasil junto a Santa Sé, Almir Barbuda.

A organização da Jornada trabalhará com a estrutura de lotes e ruas, que contarão com ilhas de serviço para apoiar os peregrinos. Estes locais contarão com banheiros, postos médicos, alimentação, tendas de adoração, torre de segurança, telões e bebedouros.

Ainda de acordo com a organização, o planejamento para o acesso ao terreno estuda duas possibilidades: a chegada a pé, a partir de pontos de desembarque, por três opções de trajetos, de cerca de 13 quilômetros cada; e a saída por meio de um sistema de shuttle, que é um serviço de transporte especial. Por problemas técnicos e de locomoção, a Base Aérea de Santa Cruz, local escolhido anteriormente, se apresentou inviável para a realização deste evento.

Fonte:http://www.portalum.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=5016%3Amissa-conclusiva-da-jmj-rio-2013-sera-em-guaratiba&catid=88%3Ario-de-janeiro&Itemid=462

terça-feira, 27 de novembro de 2012

São Francisco Antônio Fasani, OFMConv.

Nasceu em Lucera, Apúlia, Itália no dia 56 de agosto 1681. Donato António João Nicolau Fasani nasceu de um família de camponeses. Sua mãe casou-se após a morte de seu pai ainda quando Francisco era muito jovem e foi o seu padrasto que o enviou para os frades Conventuais para ser educado. Com a idade de 15 anos ele foi enviado para Monte Gargano para iniciar seu noviciado. 
Quando entrou para a Ordem dos Franciscanos Menores Conventuais em 23 de agosto de 1696 ele mudou seu nome para Francisco António. Em 1703 foi enviado a Assis onde ele foi ordenado sacerdote em 11 de setembro de 1705. Ele completou seu mestrado em teologia no Colégio São Boaventura em Roma. Daquele  tempo em diante ele passou a ser chamado de “Padre Mestre” em sua cidade natal onde ele ensinava teologia desde 1707. 
No Convento de Lucera ele também serviu como guardião, noviço e mestre e ministro provincial em Sant’Angelo. Embora sua escolaridade fosse notável ele era mais conhecido pelos seus sermões na cidade e no campo. Ele falava de um jeito que as pessoas podiam entender e dirigiu seus esforços para catequizar os pobres. 
Ele produziu vários volumes de sermões, alguns em Latim.Francisco António era devotado aos pobres, aos que sofriam e aos prisioneiros. Várias vezes ele acompanhava aqueles condenados à morte até o patíbulo. 
Francisco António promoveu a devoção a Imaculada Conceição a qual tinha grande devoção e especial amor muito antes deste dogma  ter sido definido. Ele trouxe de Nápoles uma estátua da Imaculada Conceição que ele colocou na igreja de São Francisco de Assis e ele escreveu hinos a ela para serem cantados pelo povo de sua terra. Essa estátua ainda é objecto de veneração em Lucera. Ele também  estabeleceu a Novena a Nossa Senhora da Imaculada Conceição
No dia 29 de novembro, no primeiro dia desta Novena, Francisco Antônio faleceu, como outro notável e também reverenciado Francisco  de Assis. Foi beatificado pelo Papa Pio XII em  15 de abril de 1951 e canonizado pelo Papa João Paulo II em 13 de abril de 1986.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

"A infância de Jesus": último livro da triologia de Bento XVI

Jesus nasceu em Belém no ano 15 do império de Tibério César, e seu nascimento virginal "não é um mito, mas uma verdade", afirma o papa Bento XVI em seu livro "A infância de Jesus", apresentado na última terça-feira (20) no Vaticano. O livro será vendido a partir da quarta, em 21 línguas, nas livrarias de 50 países.

"É certo que Jesus foi concebido por obra e graça do Espírito Santo e nasceu de santa Virgem Maria?. Sim, sem reservas", escreve o pontífice, que ressalta que há dois pontos na história de Jesus nas quais a ação de Deus intervém diretamente no mundo material: no parto de Nossa Senhora e na Ressurreição no Sepulcro, "no qual não permaneceu nem sofreu a corrupção".

"A infância de Jesus" é o terceiro livro da trilogia de Joseph Ratzinger-Bento XVI (são usados os dois nomes no volume, já que ele começou a escrevê-la quando ainda era cardeal) sobre Jesus.

O livro, de 176 páginas, tem um prólogo do papa e está dividido em quatro capítulos e um epílogo. O primeiro capítulo é dedicado à genealogia do Salvador nos Evangelhos de Mateus e Lucas, ambos muito diferentes, segundo o papa, mas com o mesmo significado teológico-simbólico: a colocação de Jesus na história.

O segundo capítulo fala do anúncio do nascimento de João Batista e de Jesus, e nele Bento XVI escreve que lendo o diálogo entre Maria e o anjo Gabriel, se vê como Deus, por intermédio de uma mulher busca "uma nova entrada no mundo".

O terceiro capítulo aborda o nascimento em Belém e seu contexto histórico, no Império Romano que, sob Augusto, se estende entre Oriente e Ocidente e que, com sua dimensão universal, "permite a entrada no mundo de um portador de salvação universal".

O quarto capítulo trata dos Reis Magos. No texto, o papa reconstrói uma ampla gama de informação histórico linguística e científica.

No epílogo, Bento XVI lança mão do Evangelho de Lucas e conta o último episódio da infância de Jesus, a última notícia que se tem dele antes do início de sua vida pública com o batismo nas águas do rio Jordão. Trata-se do episódio de três dias durante a peregrinação da Páscoa, na qual Jesus, com 12 anos, se afasta de Maria e José e permanece no Templo de Jerusalém debatendo com doutores da Lei.

A publicação é assinada por Joseph Ratzinger-Bento XVI (são usados os dois nomes porque ele iniciou a trilogia como cardeal). Os dois volumes anteriores tratam da vida adulta de Jesus e de seus ensinamentos públicos. 

Texto: http://riodasostrasjornal.blogspot.com.br/2012/11/papa-bento-xvi-lanca-livro-sobre.html



Segue alguns trechos publicado no Brasil pelo site UNISINOS (http://www.ihu.unisinos.br/noticias/515763-a-infancia-de-jesus-alguns-trechos-do-novo-livro-do-papa)


Publicamos aqui alguns trechos do novo livro do Papa Bento XVI, A Infância de Jesus. O texto foi publicado no jornal dos bispos italianos, Avvenire, 22-11-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O papel de uma mulher, Maria, na história do mundo

[A genealogia de Mateus] termina com uma mulher: Maria, que, na realidade, é um novo início e relativiza a genealogia inteira. Através de todas as gerações, tal genealogia havia procedido segundo o esquema: "Abraão gerou Isaac...". Mas, no fim, aparece algo bem diferente. Acerca de Jesus não se fala mais do que uma geração, mas se diz: "Jacó gerou José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, que é chamado Cristo" (Mt 1, 16).

No seguinte relato do nascimento de Jesus, Mateus nos diz que José não era o pai de Jesus e que ele pretendia repudiar Maria em segredo por causa do suposto adultério. E, então, lhe é dito: "O que nela foi concebido é obra do Espírito Santo" (Mt 1, 20).

Assim, a última frase dá toda uma nova abordagem à genealogia inteira. Maria é um novo início. O seu bebê não provem de nenhum homem, mas é uma nova criação, foi concebido por obra do Espírito Santo. A genealogia permanece importante: José é juridicamente o pai de Jesus. Mediante ele, Ele pertence, segundo a Lei, "legalmente", à tribo de Davi. Mas, mesmo assim, vem de outro lugar, "do alto" – do próprio Deus.

O mistério do "onde", da dupla origem, vem ao nosso encontro de um modo muito concreto: a sua origem é determinável, mas, contudo, é um mistério. Só Deus é, no sentido próprio, o seu "Pai". A genealogia dos homens tem a sua importância no que diz respeito à história do mundo. E, apesar disso, no fim, é Maria, a humilde virgem de Nazaré, aquela em que acontece um novo início, recomeça de modo novo o ser pessoa humana.

Capítulo 1: "De onde tu és?" (Jo 19, 9), p. 15-16.

O quadro histórico e teológico da narração do nascimento no Evangelho de Lucas

"Naqueles tempos apareceu um decreto de César Augusto, ordenando o recenseamento de toda a terra" (Lc 2, 1). Com essas palavras, Lucas introduz o seu relato sobre o nascimento de Jesus e explica por que ele aconteceu em Belém: um censo com o objetivo de determinar e depois cobrar os impostos é a razão pela qual José e Maria, sua esposa, que está grávida, vão de Nazaré a Belém.

O nascimento de Jesus na cidade de Davi se coloca no quadro da grande história universal, mesmo que o imperador não sabe nada do fato de que essa gente simples, por sua causa, está em viagem em um momento difícil, e assim, aparentemente por acaso, o menino Jesus nascerá no lugar da promessa.

Para Lucas, o contexto histórico-universal é importante. Pela primeira vez é registrada "toda a terra", o ecumene no seu todo. Pela primeira vez existe um governo e um reino que abraça o orbe. Pela primeira vez existe uma grande área pacificada, em que todos os bens podem ser registrados e postos ao serviço da comunidade. Só nesse momento, em que existe uma comunhão de direitos e de bens em larga escala e em que uma língua universal permite a uma comunidade cultural o entendimento no pensamento e no agir, uma mensagem universal de salvação, um portador universal de salvação pode entrar no mundo: de fato, é "a plenitude dos tempos".

Capítulo 3: O nascimento de Jesus em Belém, p. 71-72.

Astrologia e religião na história dos Magos

Gregório Nazianzeno diz que, no momento mesmo em que os Magos se prostraram diante de Jesus, teria chegado o fim da astrologia, porque, a partir daquele momento, as estrelas teriam girado na órbita estabelecida por Cristo (Poem. dogm. V, 55-64: PG 37, 428-429).

No mundo antigo, os corpos celestes eram vistos como potências divinas que decidiam o destino dos seres humanos. Os planetas traziam nomes de divindades. Segundo a opinião de então, eles dominavam o mundo de algum modo, e o ser humano devia tentar entrar em acordo com essas potências.

A fé no único Deus, testemunhada pela Bíblia, realizou aqui bem logo uma desmitificação, quando o relato da criação, com magnífica sobriedade, chama o sol e a lua – as grandes divindades do mundo pagão – de "lâmpadas" que Deus, juntamente com todas as hostes das estrelas, suspende na cúpula celeste (cf. Gn 1,16s).

Entrando no mundo pagão, a fé cristã devia novamente abordar a questão das divindades astrais. Por isso, nas Cartas da prisão aos Efésios e aos Colossenses, Paulo insistiu fortemente no fato de que o Cristo ressuscitado venceu todo Principado e Potestade do ar e domina todo o universo. Nessa linha também está o relato da estrela dos Magos: não é a estrela que determina o destino do Menino, mas sim o Menino que guia a estrela. Querendo, pode-se falar de uma espécie de reviravolta antropológica: o homem assumido por Deus – como aqui se mostra no Filho unigênito – é maior do que todas as potências do mundo material e vale mais do que o universo inteiro.

Capítulo 4: Os Magos do Oriente e a fuga ao Egito, p. 118-119.

Jesus deixa a família porque deve ser junto do Pai

A resposta de Jesus à pergunta da mãe é impressionante: Mas como? Vocês me procuraram? Não sabiam onde um filho deve estar? Ou seja, que deve se encontrar na casa do Pai, "nas coisas do Pai" (Lucas 2, 49)? Jesus diz aos genitores: encontro-me justamente lá onde é o meu lugar – junto do Pai, em sua casa.

Nessa resposta, são importantes sobretudo duas coisas. Maria dissera: "Teu pai e eu, angustiados, te procurávamos". Jesus a corrige: eu estou junto do Pai. Não é José o meu pai, mas sim um Outro – Deus mesmo. A Ele pertenço, junto dele Ele me encontro. Talvez poderia ser expressa mais claramente a filiação divina de Jesus?

Com isso, está diretamente conectada a segunda coisa. Jesus fala de um "dever" ao qual Ele se atém. O filho, o menino deve estar junto do pai. A palavra grega deî, que Lucas usa aqui, sempre retorna nos Evangelhos lá onde é apresentada a disposição da vontade de Deus, a qual Jesus se submete. Ele "deve" sofrer muito e ser rejeitado, ser morto e ressurgir, assim como diz aos discípulos depois da profissão de Pedro (cf. Mc 8, 31).

Esse "deve" já vale nesse momento inicial. Ele deve estar junto do Pai, e assim fica claro que o que aparece como desobediência ou como liberdade inconveniente com relação aos genitores, na realidade, é justamente expressão da sua obediência filial. Ele está no Templo não como rebelde contra os genitores, mas sim exatamente como Aquele que obedece, com a mesma obediência que levará à Cruz e à Ressurreição.

Epílogo: Jesus aos 12 anos no Templo, p. 143-144.


Também é importante o que Lucas diz sobre o crescimento de Jesus não só em idade, mas também em sabedoria. De um lado, na resposta do menino de 12 anos, tornou-se evidente que Ele conhece o Pai – Deus – a partir de dentro. Ele conhece a Deus não só apenas através das pessoas humanas que o testemunham, mas Ele também o reconhece em si mesmo. Como Filho, Ele está face a face com o Pai. Ele vive na sua presença. Ele o vê.

João diz que Ele é o Único que "está no seio do Pai" e, por isso, pode revelá-lo (Jo 1, 18). É justamente isso que se torna evidente na resposta do menino de 12 anos: Ele está junto do Pai, vê as coisas e os seres humanos na sua luz.

No entanto, também é verdade que a sua sabedoria cresce. Como homem, Ele não vive em uma onisciência abstrata, mas está enraizado em uma história concreta, em um lugar e em um tempo, nas várias fases da vida humana, e disso recebe a forma concreta do seu saber. Assim aparece aqui, de modo muito claro, que Ele pensou e aprendeu de forma humana.

Fica realmente claro que Ele é verdadeiro homem e verdadeiro Deus, como se expressa a fé da Igreja. Em última análise, não podemos definir o profundo entrelaçamento entre uma e outra dimensão. Permanece um mistério e, todavia, aparece de modo muito concreto na breve narração do menino de 12 anos – uma narração que, assim, ao mesmo tempo, abre a porta para o todo da sua figura, que depois nos é relatado pelos Evangelhos.

Abertura do II Encontro Preparatório: Rumo à JMJ 2013

Na festa solene de Cristo Rei do Universo, 206 representantes de 75 países de todas as partes do mundo, se reuniram na Igreja de Nossa Senhora do Carmo da Antiga Sé, no centro do Rio de Janeiro, para a missa de abertura do II Encontro Preparatório para a JMJ Rio2013.

“A providência nos conduziu a essa data, por um lado agradecemos a Deus por todos os dons todas as graças neste ano e por outro lado estaremos esta semana vendo as perspectivas para o próximo, que nos trará a Jornada”, disse o arcebispo do Rio e presidente do Comitê Organizador Local (COL), Dom Orani João Tempesta, que presidiu a cerimônia.

Concelebraram o Cardeal Stanislaw Rylko, presidente do PCL, Monsenhor Joseph Clemens, secretário do PCL e o Núncio Apostólico no Brasil, Dom Giovanni d'Aniello, junto aos demais bispos e sacerdotes presentes.

Os delegados internacionais participarão de uma série de atividades e painéis sobre a sobre os preparativos do encontro do Papa Bento XVI, que acontecerá entre os dias 23 e 28 de julho de 2013, no Rio de Janeiro.

Ao falar da importância desse encontro, pouco antes da missa, Cardeal Rylko, ressaltou que este encontro, para muitos dos delegados, será o primeiro contato com a cidade do Rio de Janeiro. “Tenho certeza que dará a eles mais entusiasmo de empenhar-se ainda mais para animar os jovens de todos os continentes para que digam ‘sim, vou ao Rio’”, disse.

Sob o Senhorio de Jesus

“Creio que o contexto dessa festa solene nos indica também a missão da JMJ”, destacou Dom Orani durante a homilia ao falar do papel dos jovens, chamados a ser sinal de presença e de transformação no mundo e “da missão primeira de deixar que em suas mentes, vida e coração haja o reinado de Jesus”.

Para Dom Orani é a “esperança que nos move e que nos faz enxergar além do horizonte” e “junto com o nosso trabalho, Senhor também realizará maravilhas no coração dos jovens”.

O arcebispo destacou ainda o papel e a importância do leigo no mundo, recordado neste domingo pela Igreja no Brasil.

“O Senhor, que realizou maravilhas na vida de Maria, também realizará maravilhas nas vidas dos jovens durante a JMJ”, disse Dom Orani, ao pedir a intercessão da Mãe, na Igreja dedicada à ela, antiga catedral do Rio de Janeiro.

Vejas as fotos

O Núncio Apostólico, Dom Giovanni d’Aniello, saudou os presentes e falou da alegria de participar no Brasil da preparação para a Jornada e assegurou a dedicação e o empenho de toda a Arquidiocese do Rio em acolher da melhor forma possível os jovens no próximo ano.

Ao final da celebração Dom Orani recebeu uma carta dos pais de Chiara Luce Badano. Maria Teresa e Ruggero Badano falaram na carta da alegria de sua filha ter sido escolhida entre os intercessores da JMJ Rio2013. "Somos gratos pela decisão", escreveram.

"Acreditamos que, de alguma forma, Chiara vai operar para proteger e sustentar a multidão de jovens que virão ao Rio em julho do próximo ano. Essa escolha nos alegra, não por orgulho familiar, mas esperamos que poderá contribuir para tantos jovens darem um sentido mais completo a suas vidas. A Chiara saberá inspirar jovens de sua idade. Ela sempre repetia: 'Temos apenas uma vida e vale a pena gastá-la bem'. Estamos em comunhão nestas etapas preparatórias para a JMJ Rio2013", afirmaram.

FOTO: Flickr da JMJ 2013
Fonte: http://www.rio2013.com/pt/noticias/detalhes/766/abertura-do-ii-encontro-preparatorio-a-caminho-da-jmj-rio2013

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

O CORDÃO DE SÃO FRANCISCO


(Artigo publicado na Santa Cruz. Nov/1982 e no Boletim da Comissão Mineira de Folclore. Ago/1986)

Seu uso no Século XIII

Já no primeiro século franciscano o cordão de São Francisco chamava muita atenção. Vejamos o que diz a seu respeito Tomás de Celano)em três textos distintos:

"Quando saíram, o bem-aventurado Domingos pediu a São Francisco que se dignasse dar-lhe a corda que trazia na cintura. São Francisco custou para fazer isso, negando-se com tanta humildade quanto era a amizade com que o outro fazia o pedido. Mas o pedido devoto acabou vencendo, e ele cingiu a corda com muito respeito embaixo de sua túnica" (II Cel. 150).

"Então o demônio lhe aprontou uma gravíssima tentação de luxúria. Mas o Santo-Pai, logo que percebeu, tirou a roupa e se açoitou duramente com uma corda, dizendo: Vamos, irmão asno, é assim que te deves comportar, é assim que tens de ser castigado" (II Cel. 116).

"Gualfredúcio (...) tinha consigo uma corda que São Francisco já tinha usado na cintura. Aconteceu que naquela cidade muitos homens e não poucas mulheres sofressem de várias doenças e febre. O homem de que falamos visitava a casa de cada um dos doentes, mergulhava a corda na água ou misturava alguns de seus fiapos dentro dela. Dava-a de beber aos pacientes e assim, no nome do Senhor, todos conseguiam a saúde" (I Cel. 64) (cf. I Cel. 120).

Descobrimos aqui: São Domingos que usa o cordão num ato, digamos, de devoção; São Francisco, ele mesmo, açoita-se com a corda contra a tentação do demônio; e Gualfredúcio cura com ele as doenças.


Durante a História

A devoção do cordão de São Francisco continuou através dos séculos. Surgiram até confrarias de Cordígeros. Encontramos uma notícia sobre cordígeros na Bahia: No Arquivo Histórico Ultramarino em Lisboa existe o 'Compromisso da Venerável Ordem dos Cordigérios da Penitência do Patriarca São Francisco de Assis (...) na sua igreja própria de Santa Maria dos Anjos da Portiúncula deste Arcebispado da Bahia. Roma, 1720, 2 de maio.'(Cód.1494) Não nos é possível uma leitura do compromisso da Bahia, por isso consultamos o 'Manual da Arquiconfraria do Cordão de São Francisco de Assis'(Rio, 1957), que diz: O belo gesto de São Domingos espalhou-se por toda parte (...). Muitos, impedidos de entrar na primeira ou na segunda ordem franciscana e não tendo suficiente preparo para se tornarem terceiros, fizeram por si mesmos cordões semelhantes àquele usado pelo Santo, cingindo-se ao modo dele. (...) Em sinal de aprovação eclesiástica deste piedoso costume o Papa Sixto V, franciscano conventual, reuniu todos os cordígeros existentes e todas as confrarias, que para o futuro fossem eretas, na Arquiconfraria do Cordão de São Francisco por ele assim fundada em 1581. (Const: Ex supremae dispositionis). Determinou também que a sede universal da arquiconfraria fosse ereta na Basílica Papal de São Francisco de Assis na Itália, onde jaz o corpo do Seráfico Pai São Francisco (Const. Divinae Caritatis, 1587). Também outros papas demonstraram seu apoio à arquiconfraria entre os quais o Papa Pio XI (Rite Expiatis, 1926).

Sobre o uso do cordão encontramos coisas curiosas na "Collecção de Bençãos Ecclesiasticas Approvadas pela Santa Igreja Catholica Romana"(Porto,l797). Neste livro constam uma benção do cordão recebido por devoção(pág.207) e uma benção do hábito de São Francisco para os defuntos(pág.209).

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Humanização e sentido da vida.


O valor da pessoa humana adquiriu a grande força de provocar, condicionar e estimular o curso da história. A sociedade globalizada e, ao mesmo tempo, fragmentada convive com uma diversidade de culturas, saberes, ciências em um nível de proximidade e interatividade nunca antes experimentados. Neste cenário, o consenso conceitual acerca do sentido da vida humana se desfaz nas experiências subjetivas de cada indivíduo que, cada vez mais, exige respeito e aceitação da sua identidade.
Essa diversidade desafia a fé cristã, exigindo um compromisso cada vez maior no tocante ao empenho e seriedade da sua pesquisa. Só esse comprometimento é que possibilitará perceber as contribuições presentes nas diversas experiências humanas vividas na contemporaneidade.
Este parece ser um desafio que guia, desde o início, boa parte do labor teológico de Joseph Ratzinger. Numa de suas obras, ele encontra-se assim formulado: «qual é, afinal, o conteúdo e o sentido da fé cristã»1 ? Ou, em outras palavras, como a fé pode auxiliar o ser humano a descobrir o sentido de sua vida2.
Em toda sua vida acadêmica, Ratzinger levou a sério os desafios que a modernidade impõe á fé cristã e o seu desejo é «ajudar a compreender de modo novo a fé como possibilidade de um verdadeiro humanismo no mundo hodierno»3.
Toda sua obra está marcada por esta preocupação em conduzir a razão da fé ao coração do debate filosófico-cultural contemporâneo, tentando mostrar a razoabilidade que esta contém, em relação a outras hipóteses de leitura da realidade e do ser humano.
O ser humano contemporâneo vive no mundo secularizado, pós-metafísico, edificado substancialmente sobre a interpretação científico-matemática da realidade; aquilo que parece dotado de valor é unicamente o “fato”, alcançado pelos métodos das ciências naturais e que pode ser, consequentemente, constatável, dominável, transformado pela intervenção humana.
A razão humana passa, assim, a estar submetida à razão técnica. Contudo, esta razão moderna “traz consigo [...] uma questão que transcende a ela juntamente com as suas possibilidades metódicas”4. No pensamento ratzingeriano, a razão é muito mais vasta do que ela mesmo acredita ser. Sendo uma tarefa do labor acadêmico a redescoberta da vastidão desta razão5 .
Esse é o eixo temático que a Comissão Organizadora da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro propõe para o Segundo Simpósio que, juntamente com a Fondazione Vaticana Joseph Ratzinger – Benedetto XVI, será promovido, nos dias 8 e 9 de novembro de 2012, no Campus da PUC-Rio.
Tomando como base a indagação sobre o que faz o ser humano, humano, isto é, como se dá o processo de humanização da pessoa na atualidade, o título deste II Simpósio será: Humanização e sentido da vida. Divididos em eixos temáticos e de comunicações: filosófico-teológico; midiático; expressões culturais; sócio-econômico; técnico-científico.
(...)
A visita do Papa Bento XVI ao Rio de Janeiro, em virtude da Jornada Mundial da Juventude, em julho de 2013, convoca-nos a preparar, em solo brasileiro, sua chegada, bem como, os futuros ouvintes de sua reflexão e ensinamentos, que, ainda que pontualmente dirigidos aos jovens, interessam e dizem respeito a todos.
Será oportunidade para abrirmos as comemorações dos 40 anos de existência e serviço do Departamento de Teologia da PUC-Rio.
Este Simpósio herda a experiência do primeiro realizado na cidade de Bydgoszcz, na Polônia, nos dias 27 e 28 de outubro de 2011. Um evento dessa natureza constituirá uma possibilidade ímpar para docentes e discentes compartilharem os resultados de suas pesquisas.
A pessoa humana, com suas buscas, com seus desafios e suas elaborações culturais, lida numa ótica teológica, filosófica, econômico-social, ético-político, midiático, artístico-cultural e de outras áreas afins, será apresentada em conferências e comunicações, por professores e pesquisadores de altíssima qualificação internacional. Será uma excelente oportunidade para divulgação de novos conhecimentos, de promoção e elevação da qualidade científica da reflexão, proporcionando a geração de novos conhecimentos acerca da pessoa humana e da busca do sentido de sua vida.
São finalidades desse Simpósio: a divulgação e geração de novos conhecimentos; a promoção e aumento da qualidade da produção científica; o incentivo e apoio à participação de pós-graduandos e docentes de Programas de Pós-graduação em eventos acadêmicos; o fomento da tolerância e abertura dialógica entre fé cristã e mundo acadêmico.
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1 J. ratzinger, Introdução ao Cristianismo, São Paulo 1970, 1.
2 J. ratzinger, Svolta per l’Europa?, Chiesa e modernitá nell’Europa dei rivolgimenti, Cinisselo Balsamo 1991, 50.3 J. ratzinger, Introdução ao Cristianismo, 2.
4 Bento XVI / J. Ratzinger, Fé, Razão e Universidade: Recordações e Reflexões (Discurso de Regensburg), n. 59.
5 Ibidem, n. 62.

Os Mais Vistos