Ordem dos Frades Menores Conventuais - Custódia Provincial Imaculada Conceição - Franciscanos Conventuais do Rio de Janeiro - PAZ & BEM!!!

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Não há salvação fora da Igreja?


       
Mesmo aqueles que nada conhecem da Igreja católica além de seu nome, talvez já tenham ouvido falar que ela é o único veiculo da salvação eterna. Aos que tem alguma noção de Teologia reconhecem nesta questão uma antiga afirmação: extra ecclesiam nulla salus. Houve a preocupação com a salvação dos não-cristão e não católicos, e ao questionamento de si mesma e na legitimidade de sua fé. Na modernidade se sabe que a salvação vai muito além da instituição jurídica e religiosa e nem chega ser um problema! Diferente dentro da instituição que se apresentou como o único meio de salvação durante séculos como um elemento de autoafirmação, se este deixar de existir comprometerá a sua identidade e natureza.
            O pensamento católico-romano se identifica com a Igreja visível, institucionalizada e se agrega em torno do papa, pois, independentemente disto, desde o início, entra na essência da fé cristã, como único caminho de salvação, o solafide que, afinal de contas, pode ser encontrado nas cartas paulinas e desde o início a fé cristã se apresentou universal e se colocou contrária a todas as demais religiões. É o que se originou a partir do século II pela concretização eclesial da fé. Lembremos que a frase usada na antiguidade cristã não se refere em primeiro lugar àqueles que estão fora da Igreja, mas a ela mesma, por não bastar-se nas belas teorias sobre a salvação dos outros.
A antiguidade e a modernidade devem ser levadas em conta a realidade histórica de cada época para se tentar tornar o tema de maneira mais objetiva, real e clara.
1.      A evolução histórica da doutrina
Hugo Rahner observou que as raízes desta formulação já se encontravam no pensamento tardio do judaísmo. É constituído no episódio de Noé pelo modo de como se salvou do dilúvio, ocasião em que o resto do mundo foi condenado. A teologia judaica vê na salvação de Noé e de sua família um símbolo da salvação do resto de Israel e através do livro da Sabedoria capítulo 10 verso 4 insiste em algo que fomentará mais tarde a teologia cristã, ou seja, na esperança do mundo estar ligada a simples pedaços de madeira como declara: “ porque bendito o madeiro pelo qual se opera a justiça” (14,7). Os Padres da Igreja ligam esta imagem do livro com o lenho da cruz, o único capaz de salvar a humanidade inteira de uma catástrofe geral.
O Novo Testamento, em parte nenhuma dá a entender que a Igreja seja o meio único e exclusivo em vista da salvação, não explicitamente, mas as bases para poder defender esta doutrina. Como no Evangelho de Marcos 16,16 e nos Atos dos Apóstolos explícita a salvação exclusiva pelo nome de Jesus (4,11-12).
            O pensamento evoluiu simultaneamente do Oriente e no Ocidente, sobretudo no século III quando Orígenes e Cipriano esforçaram-se por estudar este axioma a fundo. Encontramos na terceira homilia de Orígenes sobre Josué (Jos 6,23-24), conservada na tradução latina de Rufino. Podemos dizer que o autor lê e interpreta o Antigo Testamento à luz da fé em Cristo. Orígenes interessa-se, de modo especial em fazer uma exortação aos judeus ao dizer: Vós tendes o Antigo Testamento, mas também vós tendes de contar com o sangue de Cristo, vós precisais da Igreja que veio dos pagãos, que antes era prostituta, mas agora se tornou esposa, graças ao sangue de Cristo o esposo. Orígenes faz simplesmente uma admoestação àqueles que só se apegam ao Antigo Testamento numa tentativa de diálogo entre cristãos e judeus. Cipriano estudou o mesmo tema, mas em outro contexto, teve que lutar contra algumas ameaças de divisão que estavam surgindo na comunidade e de defender a Igreja. Segundo Cipriano, toda divisão é pecado e falta de um caminho que conduz à salvação, que conduz à perdição. Ele propõe analisar e defender é a unidade da Igreja que externamente vem sendo abalada pela perseguição e internamente pelas divisões e pela desunião.
Para deixar mais clara toda questão, lembremos ao menos de mais três pontos de vistas:
a)      Santo Agostinho foi quem mais defendeu a tese que a Igreja já existe desde os primórdios da humanidade;
b)      Exclusividade da Igreja como meio de salvação tendo se em mente, logo após o período da patrística, que todo o mundo conhecido era cristão, ou seja, deve se levar em conta a compreensão geográfica para compreender o sentido teológico de então e a imagem do mundo da Idade Antiga.
c)      A frase não surgiu isoladamente, nela cada afirmação só pode ser considerada devidamente no contexto de toda a história. E a fidelidade da Igreja na modernidade a tudo o que ela herdou.
A Igreja conservou o caminho aberto para repensar o velho problema ante situações novas. Assim, por exemplo, a assertiva de que “fora da Igreja não há nenhuma salvação”, podia e mesmo hoje só pode ser admitida juntamente com esta outra afirmação que diz: “fora da Igreja não existe a graça”, Perceber-se-á então que só esta dialética corresponde à situação da doutrina eclesiástica. Com Pio IX parece que a asserção chega a uma exacerbação radical. No Syllabus, por exemplo, empregando o termo “indiferentismo”, condena-se a seguinte maneira de pensar:“ Mesmo aqueles que não têm nada em comum com a Igreja de Cristo, podem nutrir esperança de poderem alcançar a salvação” Condenar este pensamento, parece-nos um absurdo. Mas antes de tais juízos é preciso indagar sobre o que realmente se quis dizer ou sobre o que de fato aconteceu. O pontífice acentua ainda que a verdade de que a salvação depende dessa Igreja é uma verdade ex fide tenendam e, por isso, a afirmação tem valor dogmático, isto é, faz parte da forma essencial e objetiva da fé.
O Concílio Vaticano II também se referiu aos problemas aos quais já Pio IX procurara dar uma resposta, mostrando muito mais compreensão ante o universalismo encarado como esperança e como promessa feita a todos, colocando em relevo os elementos positivos das religiões existentes, considerando-as como caminho para a salvação... Conclui apenas que tudo quanto é “caminho” fora de Cristo, é caminho em virtude dele e, portanto, pertence a ele.
2.      O estado atual do nosso problema
Temos uma visão histórica muito mais ampla nos nossos dias do que no início da Idade Moderna, porém nestes tempos apenas uma pequena maioria dos que se dizem católicos tomem o Evangelho de Cristo como norma de vida. A Igreja receia, ou muito mais ainda, ela precisa preocupar-se com a santificação e a salvação dos seus fiéis. Deus oferece a todos, porém é missão da Igreja trabalhar afim de que todos se sirvam realmente desses meios que lhes são oferecidos.
Hoje a questão não é tanto de saber se e como os “outros” podem se salvar. Deixemos isso para Deus, a questão agora é: por que eu ainda devo crer! Precisamos assumir as nossas próprias responsabilidades como cristãos. Notemos, no entanto que o homem não pode conseguir a sua salvação pela simples manifestação de sua boa vontade. Devemos estar atentos a isso e saber que a boa vontade, não passa de simples autoconsolação bem vazia.
A salvação não pode depender do próprio indivíduo, não é uma conquista puramente humana; ela é antes de qualquer coisa e acima de tudo um dom divino.
a)      O lado subjetivo do problema da salvação
Quem vive e quem pratica o amor pode dizer que está com tudo. O amor basta. (Mt 22, 35-40; 25,31- 46) e (Rm 13,9ss). O sacramento da fraternidade surge aqui como o único caminho e perfeitamente suficiente da salvação e o irmão/próximo, aparecem como o incógnito de Deus. Cristo com a superabundância do seu amor pagou e cancelou o déficits de nossa vida. Uma só coisa se faz necessária: que abramos os braços e aceitemos o dom de sua benevolência. Este movimento de abrir-se diante do dom de amor do Senhor, Paulo chama-o de fé. O Novo Testamento diz ao mesmo tempo: Só o amor basta; só a fé basta.
            A grande verdade é que o Novo Testamento exige que o homem vença e ultrapasse a si mesmo. O evangelho pede que o homem renuncie a si mesmo, lute contra o seu egoísmo e se achegue sempre mais ao seu próximo. O Evangelho quer que o homem, mediante o tu do seu próximo encontre também o tu de Deus, o qual nos fala e se revela de muitas maneiras. O que realmente é capaz de salvá-lo é algo que está acima de todos os sistemas de pensamento, ou seja, o amor e a fé. As religiões concorrem para a obtenção da salvação, enquanto levam a aceitar a fé e o amor e, evidentemente, elas impedem a salvação, enquanto afastam o homem do amor e da fé. Deus convida a cada um e a todos a viverem na fé e a testemunharem o amor.
b)      A parte objetiva do problema da salvação
A humanidade inteira vive do ato de amor do Cristo. A missão da Igreja consiste em participar do serviço de mediação do Cristo, serviço no qual o Cristo quis empenhar-se inteiramente como “Cabeça e membros”. A fé cristã tem por certo que o Cristo age diretamente na salvação de cada pessoa. E sendo justos podemos afirmar: onde está Cristo está também a Igreja. Só Cristo é que salva, mas este Cristo não permanece só e isto porque a sua ação salvadora tem uma característica: ele não faz do homem um simples recebedor passivo de seus dons, mas Cristo o engaja em sua própria missão. O homem se salva enquanto ajuda o seu próximo. Cada homem se salva para salvar a outros. Isto porque o cristão autêntico não se considera um redimido privilegiado que tem a salvação garantida. Ele não ousa pensar que todos os demais serão condenados. O verdadeiro cristão rejubila porque será por meio dele, como instrumento de Cristo, que também outros muitos serão salvos. Deus constrói a história por intermédio dos homens, guiados pela luz de Cristo.
            A Igreja não é um circulo fechado, e sim muito pelo contrário, uma força viva que marcha em direção dos demais. A Igreja é uma comunidade aberta para o mundo e não uma sociedade esotérica, para realizar-se precisa difundir-se e comunicar-se aproveitando a alegria do Evangelho a missão da Igreja é a expressão da hospitalidade divina.    

Fonte Bibliografica:
J. RATZINGER. O novo Povo de Deus, São Paulo: Paulinas, 1974. p, 311 – 333.

Nenhum comentário:

Os Mais Vistos