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quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Clara de nome, mais clara pela vida, claríssima pelos costumes.


Por: Pedro Afonso*

Neste ano estamos comemorando os 800 anos do carisma Clariano. A inspiração originária que inspirou Santa Clara a doar-se perfeitamente ao Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, a perseguir com todas as suas forças a Altíssima Pobreza. E não existe maneira melhor de celebrar esse gênero de vida do que o tornando vivo através da memória que queremos fazer nesta postagem.
“Bendito sejas, meu Deus, por me teres criado”.
Essas são as palavras de um testemunho de vida doada, realizada, conquistada perfeitamente. Foram essas as últimas palavras de Clara em seu leito de morte, aos sessenta anos de idade. Palavras que são fruto de uma laboriosa vida, expressão que desfecha uma existência autenticamente vivida. Uma existência realizada na beatitude. Assim Clara dá um desfecho à sua obra, como o Cristo, que no alto da cruz com o seu projeto perfeitamente conduzido exclama: “Tudo está consumado”.
A santidade de Santa Clara ia além do mosteiro que residia, espalhara-se por toda a região, para outros países, eram fundados mosteiro além dos Alpes. A graça já havia transbordado em muitos corações que queria viver o Evangelho segundo o que intuira Santa Clara. A sua vida comovia muitos até o próprio Papa vinha vista-la, e muitos prelados acorriam a Assis para pedir conselhos a Clara. Clara tinha querido próximo a ela, no seu leito, os padres, os irmãos, companheiros de Francisco. Ela confortava-os, abençoava-os. Na noite de 1253 o Lírio de Assis desabrocha para a vida eterna.
Clara nasceu em 1193 em Assis, na Úmbria. Os seus pais, Favarone e Ortalana, são nobres e ricos. Seu pai cavelheiro transmitia a filha todo o ideal de nobreza, e a mãe excelente cristã plantava no terreno do coração da filha as primeiras sementes das virtudes cristãs que no futuro será a plantinha de São Francisco.
Clara dava os seus primeiros passos num castelo rodeado por guardas e sobre a ternura de sua mãe. E seu pai entre duas guerras vinha em casa por um tempo. Ortolana, sua mãe, cujo nome significa “jardineira”, cuidava com carinho da sua primogênita, Clara, e tinha especial afeto, pois um dia quando grávida de Clara foi a uma capela angustiada para rezar em favor de sua primeira filha, ouvira as seguintes palavras:
“Mulher, não temas: darás à luz sem perigo uma luz cujo esplendor fará resplandecer ainda mais a claridade do próprio dia!” (Vida 1, 2)
Confortada pelo próprio Cristo saíra da igreja decidida a dar o nome de luz ao seu futuro bebê. Chamou sua filha, portanto, de Clara.
Clara recebe toda a educação de uma jovem nobre daquela época. Aprende a bordar e tecer. Recebe os estudos de uma escola regular daquela época. Leva uma vida normal. Porém ela trazia dentro de si um tesouro que ela guardava muito preciosamente em segredo e que fazia com que ela recusa-se todas as propostas de casamento oferecidos a ela. Ela ainda não tinha claro que queria, mas sabia o que não queria. Eram muitos os que pediam a sua mão em casamento e ela sempre recusava, e conservava a pureza e a virgindade. Inclusive chegava a falar sobre o desprezo das coisas do mundo para aqueles que vinham pedir a sua mão em casamento.
Um amor que ela trazia dentro de si, mas que ela ainda não conseguia exprimi-lo. Que só se realizará no encontro que marcará a sua vida, o seu encontro com Francisco de Assis.
Tomás de Celano chega a falar que Clara “ouviu falar de São Francisco...” (Leg S. Cl 5). Agora, através de quem teria chegado a fama de Francisco, um jovem burguês conhecido por sua prodigidade, por ser dispensador de riquezas, extravagante, chefe de um grupo alegra de jovens, que viviam como reis e cantavam pelas ruas de Assis e agora o seu principal líder havia transformado-se radicalmente e vivia como eremita mendicante, e agora tido como louco.
Começa, então, a se encontrarem escondidos. Provoca uma paixão espiritual recíproca. Clara vê nele o sinal de sua vocação, é isso que ela via que o Senhor queria dela. Francisco também vê em Clara um sinal do Senhor que irá ajudá-lo a compreender a sua própria vocação. A partir desse conhecimento mútuo os dois revelam a inspiração originária, o carisma. Francisco anima Clara a desprezar o mundo. Mostra-lhe como o invisível é preferível ao visível, o eterno ao temporal. Inflama um coração já incendiado de amor por Deus. Não assume um tom ditatorial. Limita-se a revelar a Clara os desejos que a sua alma já encerrava. Francisco é um revelador. Revela a Clara a si mesma.
Clara aos dezoito anos parte ao encontro de Francisco, a fim de celebrar as suas bodas com o Filho de Deus. Corre para a igreja de Santa Maria da Porciúncula, situada a três quilômetros, na planície, ao sul de Assis. Lá Francisco corta-lhe seus longos cabelos e reveste-a com uma túnica de burel. Torna-se assim uma esposa do Senhor.
Sua família louca de desgosto e de raiva, toda a família de Clara vem procurá-la. Os seus pais tentam tudo: tanto a súplica como o ameaça, mas em vão. Clara pede-lhes que não continuem a importuná-la, que a deixem em paz. Explica-lhes a razões da sua escolha. Eles não a compreendem. Não a ouvem, sequer. Estão completamente fechados no desgosto e na sua raiva. Então, não tendo mais argumentos, Clara “segurou as toalhas do altar e mostrou a cabeça tonsurada, garantindo que jamais poderiam afastá-la do serviço de Cristo.” (Leg. S. Cl 9, 3). Os seus familiares então compreenderam então que a consagração já teve lugar e que o “sim” irremediável a Deus foi pronunciado. Clara bem sabia que o que contrariava aos seus pais não era bem a entrada no convento propriamente, mas era o seu desejo inacreditável de pobreza extrema, agindo assim, tornava-se a vergonha e o escândalo da sua família e do seu meio. Aceitariam que Clara entrasse para as beneditinas, por exemplo... Mas como poderiam suportar a sua cabeça rapada, o seu ar miserável e a sua vontade louca de seguir Francisco?
Clara primeiramente se instalou imediatamente no mosteiro beneditino São Paulo de Bastia, após alguns dias transferiu-se no mosteiro Santo Ângelo de Panzo, ambos beneditinos. Ainda em Santo Ângelo recebe a sua primeira companheira, Inês, sua irmã. Os dois mosteiros não eram adequados para Santa Clara, ela não foi feita para entrar em nenhum mosteiro existente. Francisco, então, aconselhou-a a partir para São Damião. Lá fundam uma nova Ordem, as Damas Pobres.
Clara em pouco tempo arrastou uma multidão de companheiras, a sua reputação atravessou as fronteiras de Assis e de toda parte acorrem mulheres nobres ou pobres. Como diz Celano, a influência de Clara sobre as garotas é imensa. Por mais reclusa que ela viva o vento de seu entusiasmo arrasta muitas pessoas a seguir o seu exemplo. Todos, mães e filhas, tias e sobrinhas convidavam uns aos outros a servir a Cristo movidos pelo testemunho de Clara. É como falara certa vez Santo Antônio, “as palavras comovem, mas o testemunho arrasta”. Como profetizara sua mãe Ortolana, “mesmo encarcerada, Clara começou a clarear todo o mundo e refulgiu preclara pelos motivos de louvor”.
Após tornar evidente o seu carisma, Clara passa a travar uma batalha para manter o seu gênero de vida integral, vigoroso, fiel em meio a doença que se arrasta por longos anos. Viu-se obrigada a aceitar, por ordem de Francisco, um título que inicialmente recusara: o de abadessa. Tronou-se assim mãe de suas filhas. Luta pelo Privilégio da Pobreza, que lhe é concedido. E consome todas as suas forças pela aprovação da sua Forma de Vida. Clara torna-se assim uma fiel esposa de Cristo que soube em meio a tribulações lutar por seu Esposo.

“Os dias passam. Os anos correm
Clara vai-se diluindo aos poucos no amor.
Vai-se consumindo, mas também divinizando.
Embora muito doente, transfigura-se.” (PRÊTRE, Isasbelle)

Já no fim da sua vida Clara  esperava ansiosa pela aprovação da sua Forma de Vida, partiria tranquila para o seu Deus adorado se o privilégio da Pobreza lhe fosse concedido por escrito pelo Papa! Já estava estendida sobre seu leito, tendo por almofada um pouco de palha, quando recebe de Inocêncio IV o privilégio tão ansiado!
Beija com fervor esse papel oficial que concretiza o voto da sua vida. Agora Clara pode partir tranquila: tudo está consumado!
Bendito sejas, meu Deus, por me teres criado”
Começamos o artigo, falando da alegria quando Clara partiu desse mundo deixando para a História a herança do seu Carisma, que ela se dedicou em fazer tornar reluzente em sua vida e doutrina. Clara foi uma mulher que perseguiu com gravidade o sentido de sua vida. Ela com todas as forças, com todo seu coração, e toda a sua inteligência se entregou pelo fundamento do seu ser. A partir do momento em que clareou que o projeto de Deus para a sua vida era seguir o Evangelho perfeitamente segundo a doutrina de Francisco, por esse Carisma ela se doou até o fim da sua vida. E até hoje vigora nos corações de muitas jovens fazendo então 800 anos.

FASSINI, Dorvalino. Legenda dos Três Companheiro. São Paulo: Loyola, 1993.

_________________. Forma de vida da Ordem das Clarissas. Paraná: Mosteiro da Ordem de Santa Clara no Brasil, Federação Sagrada Família, 2009.

FONTES FRANCISCANAD E CLARIANAS. 2° ed. Rio de Janeiro:  coedição Vozes, FFB, 2008.

PRÊTRE, Isabelle. Trad: Pernas, Maria do Rosário. Clara de Assis ou a alegria de existir. São Paulo: Paulus, 1999.

(Desligue o som da "rádio" no fim da página para ouvir o vídeo)


*Postulante Franciscano Conventual e graduando em Filosofia na Universidade Católica de Petrópolis.

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