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sexta-feira, 20 de julho de 2012

A gênese do discípulo em Jo 15, 1-8


Por: Frei Fábio Soares; Frei Leonardo Rodrigues e Frei Marcelo dos Santos*
“A videira verdadeira” (v.1)

         A história da vinha, desde os tempos antigos, caracterizava-se com a oliveira, e a figueira, vegetação da Palestina. Segundo Dufour, no Livro dos Números, o reconhecimento da terra prometida foi feita pelos homens enviados por Moisés, os quais trouxeram um ramo de vinha com cacho (cf. Nm 13,23). A vinha é considerada símbolo de fertilidade, tanto que é muito citada no Novo Testamento também, tanto no sentido próprio, quanto no sentido figurado. No Antigo Testamento a vinha plantada por Noé, simbolizando a tensão entre o dilúvio e a reconciliação com o Senhor (cf. Gn 9,20); a vinha que designa a esposa (cf. Ct 1,14; 2,15) e, no Novo Testamento, obviamente, é a imagem do povo de Israel em relação ao Deus da Aliança (cf. Mt 21,33-43)[1].
            O que o evangelista João quis dizer? Nesta perícope o termo grego «h` a;mpeloj», com o predicativo «h` avlhqinh.», Jesus apresenta a parábola do Reino dos Céus e sendo Ele “a verdadeira videira de fato e cujo o fruto, o Israel verdadeiro, não decepcionará a expectativa divina”[2]. E Jesus Cristo, como Filho de Deus, somente Ele pode ser a videira[3]. Destarte, segundo Blank, a imagem que judaica da videira como símbolo de Israel aplica-se a Jesus, respondendo perfeitamente à teologia joanina[4]. A promessa tornara-se fato presente e atualizando a todo instante o lugar “pessoal” do novo Israel.
            Deste modo, diante da conduta de Israel, que outrora era decepcionante ora por causa de seus pecados, ora por causa de seus maus pastores, tem outra perspectiva com a afirmação de Jesus. E as outras imagens como, por exemplo, ramos, frutos, permanecer, podar, secar, queimar apresenta, exatamente, que a escolha de Jo está na inspiração bíblica sobre a vinha, atrelando a história da escolha e da Aliança[5]. E a força expressiva do Eu sou «VEg eivmi» exprime o que Jesus é em relação aos demais homens na sua missão de salvação.
            Champlin apresenta, dentre várias deduções, a imagem da verdadeira videira como organismo vivo de entrega para outros organismos vivos e faz uma analogia a Cristo como entrega a outros; como representação da vida eterna, símbolo da frutificação espiritual; como cunho nas moedas do tempo dos Macabeus[6].
            Portanto, na expressão “a videira verdadeira” o evangelista salienta uma nova cristologia e também uma escatologia em que a comunidade cristã é comunidade que expressa a salvação, como a Igreja fundada por Cristo. Aqui, segundo Blank, não tem ainda enfoque na eucaristia, nem valor jurídico eclesiástico[7], diferindo de Champlin, que acentua em um de seus argumentos, Cristo como Pão da Vida, tendo como base outras passagens do Quarto Evangelho (3,16; 5,26; 6, 57).
            O termo «a;mpeloj» apresentado no nominativo singular reforça que é uma única planta, apesar do uso no acusativo «ἀμπελόν», que indica um conjunto de vinhas, vinhedo. Com isso, o evangelista conserva a singularidade de Jesus, com a pluralidade dos ramos. E assim indica a “personalidade corporativa”, isto é, para toda a humanidade. Dufour reforça que no profeta Ezequiel tem essa perspectiva da vinha como todo Israel (cf. Ez 15,6), cujo “rei representa, é o povo Israel, e a promessa ou o catálogo de YHWH dizem respeito tanto a um como a outro”[8]. Outro argumento de que o profeta embasou o evangelista são as expressões de ação como produzir (cf. Ez 17,8); ramos secos (cf. Ez 17,9); fogo (cf. Ez 15, 4-6)[9]. Logo, a Verdadeira Vinha tem, como conteúdo essencial, o desígnio de Deus como o Filho em pessoa e é nele que os fieis têm sua transformação na medida em que se identificam cada vez mais com Ele.




 
 “Permanecei em mim” (v.4)

Do versículo quarto ao oitavo o verbo “permanecer em mim” «μένειν έν ἐμοὶ» se repete por sete vezes; ele será ainda retomado na sequência do texto. Seu sentido equivale aqui a “aceitar fielmente” e na perspectiva de Jo 15 exige da parte do discípulo uma fidelidade que domina o decorrer do tempo, e o olhar se volta para além, para o fruto a produzir do qual a união com o Filho é condição. “Permanecer em” torna-se assim um apelo, formulado seja no imperativo, seja por meio de construções condicionais (vv.6-7). Ou seja, ela se impõe a partir do interior do pensamento, pela unidade da vinha e dos ramos: o papel do Filho é tão fundamental com relação aos discípulos que pressiona a escrita do evangelista.
Constatamos no versículo quarto, a formulação “permanecei em mim e «καὶ» eu em vós!” surpreende, já que o imperativo só pode valer para a primeira parte da frase por ser mais simples reconhecer na formulação de uma ‹eclipse, em que se afirma a perspectiva do UM.
As fórmulas de imanência recíproca confirmam que o horizonte do texto é a Aliança. Todavia, a união recíproca Filho/discípulos tem seu protótipo na relação mútua do Pai e do Filho. Ou seja, uma conexão vital com Deus, mediante o Espírito Santo, tal como um ramo precisa estar em conexão vital com a videira de que faz parte; esta conexão vital é real, com a presença do Espírito santo, havendo a comunicação da energia divina com o ser humano e esta conexão deve ser contínua. Esta comunicação é perfeitamente possível para os homens, havendo um meio para isso, o Espírito Santo é visto então como uma pessoa real, que realmente habita no crente individual, ensinando-o acerca de Cristo e transformando sua personalidade expurgando o que não convém. Por meio desta presença habitadora, portanto, é que se tem lugar a comunhão mística da alma com Deus; e sem a mesma não pode haver autêntica produção espiritual de frutos, segundo os termos divinos, embora tais frutos possam ser imitados pelos esforços humanos. Na experiência humana, talvez nem tudo isso se trone claro para a nossa observação humana; aos olhos de Deus, entretanto, em seu conhecimento anterior, fica sempre patenteado esse fato, sem importar o que a pessoa faça ou aparente ser, porquanto permanecer o contato com Deus ou não, através do espírito santo, contato esse que é denominado nas escrituras “permanecer em Cristo”.
A união vital com Jesus Cristo, portanto, é a condição tanto da própria vida espiritual como da produção de frutos espirituais, que se origina nessa vida. A unidade é o vínculo entre o Pai e o Filho. Este mesmo vínculo une o Filho ao discípulo (15,5). Esta unidade é a forma de continuar a missão preparada pelo Pai desde os tempos antigos e confiada ao Filho, na plenitude dos tempos. Agora é a vez dos discípulos testemunharem a unidade e ao mesmo tempo a adesão ao plano do Pai. Todo ramo unido a ele é constantemente purificado (podado) a fim de que produza frutos em plenitude. O discípulo precisa ser como o ramo unido ao tronco.
O tema da videira na Escritura Sagrada não é novidade em João, porém somente no Evangelho tem este conceito de ligação, pertença, aliança, discipulado como poderemos conferir em (1Rs 1,21) a vinha de Nabot raptada por Jezabel e Acab é o campo; (Dt 6,11; 8,7; Jr 2,2) a vinha é a indicação da videira; (Sl 80, 9ss) a vinha é o povo libertado porAdonay”; (Ct 1,6) a vinha é o corpo humano.

3“Sem mim” (v.5) e “por si mesmo” (v.4): análise correlacionada

            Nos versículos quinto e quarto há a relação da necessidade de «permanecer nele» e «neste permanecer em Jesus» é mostrada a condição de produzir frutos [10]. Logo, “se o ramo não estiver ligado à videira, é lhe impossível produzir frutos; por sua própria força e capacidade ele nada pode”[11]. Este, no entanto, está sendo analisado no versículo 4b, segundo Blank.
            A necessidade de uma conexão vital, segundo Champlin, é estabelecida mediante a ação do Espírito Santo, fazendo analogia do ramo com a videira. E esta somente é permitida com a presença habitadora do Espírito, visto como uma pessoa real e com o ser humano há uma ideia de lar. O homem que vive sem fé em Deus (por si mesmo) pode ser reputado como existente, e não como vivo, porquanto perdeu de vista o alvo verdadeiro do seu ser[12].
            Já no versículo quinto, Blank apresenta que somente a ligação com Jesus “tem a promessa de «fruto abundante» sendo que, em contrário, a separação dele significa esterilidade absoluta”[13]. Assim «produzir» e «ser estéril»            apresentam a salvação ou condenação. Manter-se na atitude do ensimesmamento está a demonstração de quem está fora da dinâmica do discípulo. Dufour escreveu que nesta lógica não afirma a incapacidade total do homem, mas de acordo com a perspectiva do fruto que rege o contexto. “Trata-se para o discípulo de acolher em si atividade de Jesus e de permitir assim que o amo, expansivo por natureza, suscite a vida”[14]. Isto significa que é condição sine qua non do fruto e a ideia de comunidade como identificação.



 
“Tornar-se discípulo” (v. 8)
           
Algumas traduções traduzem este versículo por “... sereis...” meus discípulos, ao passo que outras traduzem “... tornar-vos-eis...”, sendo este segundo caso referir-se ao original grego. A tradução inglesa RSV diz “... provareis ser...”, ao passo que a tradução inglesa WM prefere “... provando que sois discípulos reais...” (e este último caso, evidentemente, mostra a ideia mencionada).  Pois a prova de que realmente alguém é discípulo do Senhor Jesus vem através da prática e da perseverança leal.
            É frequente a tradução “... de vos tornardes meus discípulos.” (v. 8b), em função do verbo ‹‹γίνῶμαι›› que costuma expressar uma transformação. Contudo os destinatários já são discípulos de Jesus; eles não precisam tronar-se discípulos, mas manter-se e manifestar-se como tais. Da mesma maneira, é conveniente que se traduza o verbo por “ser” conjugado num subjuntivo aberto ao futuro, quando o resultado objetivado será plenamente atingido.
A condição do discípulo é dinâmica; ela se realiza num agir em que se exprime a sua unidade com o Filho, onde o Pai é revelado aos homens através do ministério e particularmente da “hora” de Jesus (13, 31-32), e igualmente através da obra dos discípulos que é a continuação da sua (14 12-13). Tal obra é descrita na sua manifestação externa, o apostolado, “se derdes muito fruto” e na força interna, a união com Jesus, “e assim sereis meus discípulos”.
Os profetas desenvolveram o tema da vinha, quer do cuidado de Deus para com ela, o que “cultiva a Sua vinha”, onde envolve o seu povo de cuidado e carinho; quer da fecundidade ou infecundidade desta vinha, em relação ao amor operoso de Deus. No Novo Testamento, evangelista João, trata da relação Mestre e Discípulo com profundidade extraordinária.
O evangelista acrescenta a perspectiva tradicional, do Antigo Testamento, uma dimensão totalmente nova: a união estreita e vital entre os discípulos, Jesus e o Pai, manifestada e explicada através da analogia da inserção dos ramos a própria videira.
A palavra-chave que sustenta todo o itinerário do discípulo é o verbo permanecer. Os ramos devem permanecer na videira, como os discípulos devem permanecer em Jesus, e este permanece no Pai. Estar com Jesus é a condição de possibilidade de uma total perfeição, confiança total, união vital, isto é, a total dependência dos discípulos que recebem de Jesus a vida e a fecundidade espiritual. Carlos Josaphat p.231-232. Por isso mesmo, o discípulo é aquele que permanece. 
            Este se fecha o círculo o pensamento que vinha até então, apontando agora para glorificação do Pai. Como o Pai é glorificado pelo Filho e por sua atuação, também ele será glorificado pelos frutos dos discípulos, para maior gloria de Deus, e desta forma, para a verdadeira vida do homem. 




Referências bibliográficas

BÍBLIA. Português. Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 1973.
BLANK, J. El evangelio segun San Juan. Barcelona: Herder, 1984. v.2
______. O evangelho segundo João. Petrópolis: Vozes, 1988. v.4/2.
CHAMPLIN, R. N. O novo testamento interpretado: versículo por versículo. São Paulo: Milenium, 1987. v.2.
DUFOUR, X. L. Leitura do evangelho segundo João. São Paulo: Loyola, 1996. v.3.
JOSAPHAT, C. O evangelho da unidade e do amor. São Paulo: Ed. Duas Cidades, 1964.
NICCACCI, A.; BATTAGLIA, O. Comentário ao evangelho de João. 3ª edição, Petrópolis, Editora Vozes, 2000.

NOTAS:

[1] DUFOUR. Leitura do evangelho segundo João.  p. 112.
[2] BÍBLIA DE JERUSALÉM. p. 2026
[3] BLANK. El evangelio segun San Juan.  p. 142.
[4] Id.
[5] DUFOUR. op. cit.  p. 114.
[6] CHAMPLIN. O novo testamento interpretado: versículo por versículo. p. 538
[7] BLANK. In: MÖRSDORF. Kirchengewalt. p. 142.
[8] DUFOUR. op. cit. p. 115-116.
[9] Id.
[10] Cf. BLANK, O evangelho segundo João. p. 159.
[11] Id.
[12] CHAMPLIN, op. cit. p. 540.
[13] BLANK, op. cit. p. 160.
[14] DUFOUR, op. cit. p. 121. 

* Pesquisa acadêmica sobre a perícope do Evangelho de João para a disciplina teológica Seminário de Sagrada Escritura da PUC-Rio

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