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quinta-feira, 31 de maio de 2012

Devoção Mariana Franciscana


Por: Frei Donil Alves, OFMConv*

Para compreendermos a devoção de Francisco de Assis à Maria mãe de Deus é preciso primeiramente como base: o conhecimento da palavra de Deus (Evangelhos), os ícones Marianos, os vitrais e as imagens, enfim a intuição e o aprendizado que receberá nas suas peregrinações e as orientações vindo dos sacerdotes e da Igreja Mãe medieval.
Francisco nunca emite um pensamento de fé, um conceito teológico sem conexão com atitude vital global e sintética que possa abarcar a totalidade da existência.
Sua espiritualidade está estruturada em suas intuições básicas e concatenadas, a saber, em 03 vias:
a) penitência para encontrar Cristo e Deus no irmão esquecido e abandonado à mercê das forças de morte presentes no mundo e na sociedade; Em uma leitura Mariana poderíamos dizer: “derrubou do trono os poderosos e exaltou os humildes!”.


b) o consequente distanciamento destas forças, associando-se aos "menores"; o despojamento de sua condição de Filho de Bernardone: “Porque ele viu a pequenez de sua serva”.
c) a - pobreza voluntária para obrigar a sociedade a reconhecer, respeitar e honrar, através do retomo a Justiça, a dignidade ofendida dos pequenos; e, finalmente, a alegria ao pensar nas promessas escatológicas de Deus, em sua presença onde está o amor e na atualização da Páscoa em nossas celebrações.  Em um contexto Mariano: “A minha engrandece ao Senhor e se alegra o meu Espírito em, Deus meu Salvador”.

São estes aspectos que Francisco encontra, reverencia, canta e Invoca em Maria.
Segundo o dicionário Franciscano, Francisco não era um teólogo no sentido que comumente se dá a este termo. Por isso não se pode esperar dele formulações mariológicas de cunho escolástico. Em tudo ele foi filho de seu tempo e aceitou plenamente o ardoroso ensinamento da Igreja de sua época sobre Maria.
Na LM e 2 Cel 198  revela a sua rica piedade Mariana: “Tinha uma amor indizível pela Virgem mãe de Jesus, porque fez nosso irmão o Senhor da majestade. Consagrava-lhe louvores especiais, orações, afetos, tantos e tais que uma língua humana nem podem contar.”
Maria é, para Francisco, a "Senhora" pobre (2Cel 83) e Deus, escolhendo-a por Mãe, compartilha a pobreza com ela (2CtFi4-5) como caminho em vista da salvação dos homens, levando-os a viver a paternidade divina a partir de uma fraternidade humana renovada, que consiste na solidariedade real com os pobres, uma vez que, como dizia Francisco, é dignidade real e insigne nobreza "seguir o Senhor que, sendo rico, se fez pobre por nós" [2Cel 73) e partilham a pobreza salvífica de Jesus da qual devem participar todos os seus seguidores.
Ao exigir a pobreza dos frades, Francisco os coloca em relação com Cristo que foi "pobre e peregrino e vivia de esmola, ele mais a bem-aventurada Virgem e seus discípulos" (RNB 9,6). E a tua última vontade é "seguir a vida e a pobreza de nosso altíssimo Senhor Jesus Cristo e de sua Mãe santíssima e nela perseverar até o fim”. Francisco associa a pobreza de Jesus à pobreza de Maria, porque ela estava sempre presente nos momentos decisivos de seu Filho.
Era com lágrimas nos olhos que Francisco meditava na pobreza do Senhor Jesus Cristo e de sua Mãe (2Cel 2,00: LM 7, 1). Este pranto amargurado de Francisco diante do que Cristo e Maria passaram será mal entendido se não for colocado junto com a escolha de pobreza voluntária que fez e com
a honra que tributava a todos os pobres: a pobreza voluntária, unida à alegria que a acompanha, provém do fato de que para Francisco o Evangelho do Reino e da presença misteriosa de Deus em nosso meio se tomaram mais importantes do que os próprios interesses, e, para acolhê-los, é preciso
mesmo esquecer os interesses próprios, "converter-se", "fazer penitência".
O Deus que decidiu partilhar a pobreza com Maria tornando-se seu filho é o Deus novo que transforma em supremo o que é ínfimo (ser o último), é o Deus diferente, que não age a partir de nossa lógica, que escolhe a pobreza e o pobre como seu "sacramento", como seu sinal e seu símbolo.
Francisco possui uma mariologia equilibrada. A relação de Francisco com Maria se situa na compreensão da íntima relação da Santíssima virgem com a obra da Redenção. Também a ela devemos o fato da misericórdia de Deus ter vindo até nós (LM 9,3).
No OfP Francisco estabelece união entre a adoração da humilde criatura pela majestade Divina, tão característica da piedade medieval e amorosa ação de graças pela proximidade de Deus que vem a nós, nascendo da virgem Maria. A maternidade divina de Maria não é somente motivo de júbilo e de louvor ao Pai celestial, como também a primeira e mais importante razão para o louvor e honra a própria Maria (CtOr 21).
Francisco via o Filho da pobre Senhora em todos os pobres, ou seja, Jesus, pois "o levava nu em seu coração como ela o tinha carregado em seus braços" [2Cel 83). Neste aspecto também Francisco revela ter sido o pai dos teólogos franciscanos que não conhecem outra teologia, outra cristologia ou mariologia senão aquela que, refletindo sobre a vida de Cristo e de Maria, neles descobre aquilo que torna nossa existência melhor.
Francisco tem consciência que a salvação de Deus é para todos, mas sabe também que a maneira como ela se manifesta não é igual para todos: Deus, na encarnação - "kénosis", assumindo a condição pobre de sua Mãe e aceitando o sofrimento inerente à finitude humana, exalta os pobres e os humilhados, os fracos e os sofredores que, depois da glorificação de Cristo e de Maria, são o espelho no qual se Imprime e se perpetua a Imagem de Deus que se exprimiu entre nós, em Cristo e Maria, pobres e sofredores: "Quando vês um pobre, meu irmão, tens à frente um espelho do Senhor e de sua pobre Mãe. Também nos doentes deves ver as enfermidades que ele assumiu por nossa causa" (2Cel 85).
A devoção mariana permite ao Poverello viver esta dimensão teologal da pobreza e as mais profundas raízes da alegria dos "menores". Estes, em sua própria pobreza e na dos outros, experimentam como mais importante do que todos os interesses particulares, a presença de Deus no mundo e o seu Reino que vem.


É precisamente nesta alegria franciscana, pela presença divina, que a pobreza não é somente uma teoria, mas de grande eficácia: o Deus da alegria é o Deus que reverencia os pobres e denuncia forças tenebrosas que são causa de tanto sofrimento. Ao realizar esta denúncia Deus não prega o ódio aos que encarnam tais forças e se tornam seus instrumentos, aos que cedem a cobiças e ambições, mas partilhando com Maria a pobreza.
Francisco compreende a força presente na prática da pobreza evangélica, sem agressividade e ódio. Ao pobre que encontrou em Collestrada de Perúsia e que amaldiçoava "com ódio mortal" o patrão "que lhe havia tirado os bens", Francisco diz: "Irmão, pelo amor de Deus perdoa teu patrão: assim haverás de salvar tua alma..." (2Cel 89).
O amor cavalheiresco de Francisco por Maria certamente não é uma fantasia. Esta expressão, no entanto, é ambígua e pode levar a pensar numa devoção feita de "galanteios", quando na realidade se trata de expressão de uma piedade caracterizada pela participação na alegria de Maria que, em sua pobreza, se torna solidária dos pobres para participar na obra da encarnação de Deus, cuja paternidade só pode ser fundamentalmente invocada por aqueles que se unem a Cristo, e a tudo o que ele fez para que pudéssemos vencer a desumanidade do que sofre e possibilitar o nascimento de uma nova humanidade sob a única soberania de Deus.

Maria orienta Francisco rumo ao Espírito Santo.
Diante de Maria, Francisco invoca sua intercessão para viver com ela, a primeira crente da “Nova Aliança” deixando abraçar pelo Espírito Santo e transformar-se, com ela, em mãe de Cristo. Sob o influxo do Espírito Santo Maria é mãe de Cristo, e através de sua intercessão celeste e de seu exemplo, nos impele à docilidade do Espírito, assim como ela foi dócil ao mesmo espírito. Desta forma ela é nossa mãe. Esta maternidade de Maria por sua vez, é também protótipo de nossa para com os nossos irmãos, já que, os que são dóceis ao Espírito, geram com Maria o Cristo no próprio coração e, pelo seu exemplo, no coração dos outros.

* É formador dos frades professos temporários e estudantes em Teologia; Texto base: Dicionário Franciscano pp. 407-415; verbetes: Maria, Nossa Senhora, Mãe Imaculada.

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