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segunda-feira, 14 de maio de 2012

A Conventualidade no carisma Franciscano: uma leitura latino-americana (1ª parte)

Por: Frei Carlos Roberto de Oliveira Charles,OFMConv.*



A Conventualidade, presente no franciscanismo desde sua gênese como expressão da fraternidade evangélica, assinala a passagem da primeira juventude da aventura franciscana à maturidade da Ordem, caracterizando-se como um estilo próprio e bem delineado de experimentar a minoridade e viver a fraternidade como aspectos da superabundância do carisma franciscano. Assim, como “a linguagem é a casa do ser,”[1] a Conventualidade, enquanto estilo e expressão, é a casa[2], o lugar, o espaço sagrado onde a fraternidade se faz possível em meio as ambiguidades e vicissitudes humanas de seus membros. Numa outra imagem, sem nenhuma dicotomia, se para o franciscanismo a fraternidade menor é sua alma, a Conventualidade é seu corpo. Duas dimensões inseparáveis que nos permitem dois pontos de vista de uma mesma realidade: um corpo animado e um espírito encarnado. Então, mais que um adjetivo jurídico e distintivo de uma determinada família franciscana, a Conventualidade, que acolhe a minoridade e possibilita a fraternidade é intrínseca e necessária para a subsistência, no tempo e no espaço, daquilo que é maior e ao mesmo tempo comum nas Ordens, o carisma franciscano.
Em síntese, se a fraternidade é a abstração do fraterno, daquele que se faz irmão, a Conventualidade é a abstração de convento, daquilo como os irmãos experimentam sua relação fraterna.


[1] O homem não é apenas um ser vivo, que, entre outras faculdades, possui também a linguagem, mas é muito mais do que isso. A linguagem é a casa do Ser. Nela morando, o homem ek-siste na medida em que pertence à Verdade do Ser, protegendo-a e guardando-a. O homem mostra-se como o ente que fala. É ser "possuído pela língua na luz do mundo": cf. HEIDEGGER, Martin. Ser e tempo. Petrópolis: Vozes, 2006, p. 40. O que se pretende com essa analogia não é fazer, aqui, uma reflexão filosófica da linguagem, mas antes, e já de antemão, acenar para o significado de Conventualidade não como parte integrante, ou adjetivo do substantivo Fraternidade, mas como elemento constitutivo e substancial do carisma franciscano. Aliás, dizer que o nome conventual adjetiva o substantivo Frade/fraternidade, é antes de mais nada empobrecer, legar ao periférico o próprio conceito. Não cabe discutir essa realidade tão profunda pela mediação da gramática, porque ela a transcende.
[2] Note bem: a Conventualidade não está aqui reduzida ou minimizada na construção material da casa, convento, mas antes, casa e convento, transcendendo a linguagem, representam a mediação física, a partir do qual é possível o encontro, a convivência, a partilha, em síntese, a fraternidade.


2. Histórico

Conventualidade ou conventualismo?[1] Chamaremos aqui de Conventualidade a um estilo religioso de viver o carisma franciscano e de conventualismo, de processo de conventualização comum entre as ordens religiosas medievais. Todavia, os dois termos, muito parecidos, mas de significados distintos, derivam de um mesmo radical, convento.
O convento é a casa que abriga os religiosos para uma vida comunitária. É um conceito que precede historicamente o Movimento Franciscano e por ele é assimilado e remodelado para atender à intuição da nova fraternidade.
Etimologicamente a palavra “convento” sugere desde sua significação latina “conventus”, ponto de encontro, con-venire, vir-com. Nesse sentido, o tugúrio, os eremitérios, a casa, serão, na literatura franciscana, esse ponto de encontro, fundamental para a vitalidade da fraternidade.
De “convento”, passamos à terminologia derivada de “Conventualidade”, “conventualismo”: aqueles que vivem e se organizam em conventos.

Deste modo, não é exagero afirmar que o conceito de Conventualidade encontra seus rudimentos na primeira choupana de Rivotorto,[2] onde abrigando os primeiros companheiros, Francisco buscou organizar o simplório “locus” para o descanso e para oração, elementos importantes para a fraternidade. Não era propriamente um convento em sentido estrito, mas num sentido amplo, podemos considerar o tugúrio de Rivotorto a gênese da nossa Conventualidade franciscana que se manifesta como estilo de fraternidade, e que ainda se expressava itinerante: “reuniam-se com prazer e gostavam de estar juntos. Para eles era um pesadelo estarem separados, o afastamento era amargo e doloroso estarem desunidos.”[3]
Na mudança para a Porciúncula,[4] junto à capela de Santa Maria dos Anjos, o elemento da casa vai se forjando melhor até que, com o crescimento do número dos frades, seus novos desafios e a rápida evolução do Movimento, vamos, desde muito cedo, visualizar a marca do estilo conventual nos frades da comunidade.


[1] Embora os termos Conventualidade e Conventualismo sejam utilizados como sinônimos por muitos autores, preferimos, aqui, distingui-los para que o primeiro seja atribuído ao carisma, e o segundo, tanto a uma forma religiosa evolutiva, comum às Ordens quanto aquilo que geralmente sugere o sufixo “ismo”: excesso, laxismo, etc.
[2] Cf. 1Cel. 16, 42-44.
[3] Cf. 1Cel. 15, 39.
[4] Aí se observava a disciplina mais rígida, tanto no silêncio e no trabalho, como em todas as outras observâncias regulares: cf. 2Cel. 12, 19.


Ou seja, a Conventualidade é no fundo a vida da comunidade minoritas que vive a fraternitas a partir daquilo que a faz convergir: viver comunitariamente o Evangelho do Senhor, como irmãos.
Uma das grandes contribuições do Testamento de São Francisco, registradas, principalmente na quarta parte, sem dúvida nenhuma, trata-se da fraternidade formada em torno de sua experiência de conversão:
E depois que o Senhor me deu irmãos ninguém me mostrou o que devia fazer, mas o Altíssimo mesmo me revelou que eu devia viver segundo a forma do santo Evangelho. E eu o fiz escrever com poucas palavras e de modo simples e o Senhor Papa (Inocêncio III) mo confirmou. E os que vinham para abraçar este gênero de vida distribuíram aos pobres o que acaso possuíam. E eles se contentavam com uma só túnica remendada por dentro e por fora, com um cíngulo e as calças. E mais não queríamos ter. Nós clérigos recitávamos o ofício divino como os demais clérigos; os leigos diziam os pai-nossos.  E gostávamos muito de estar nas igrejas. Éramos iletrados e sujeitávamos a todos.[1]

Francisco tem consciência de não ter escolhido seus irmãos. Simplesmente acolhe a vontade de Deus Pai, diante do qual somos todos irmãos. Para ele, a fraternidade evangélica tem sua base sólida e fundamental no ‘querer de Deus’, que generosamente concede. “Ter um irmão é um dom, graça de Deus. Através deste dom Deus exprime seu amor e seu cuidado para com o homem. O dom do primeiro irmão dado a Francisco o encheu de extraordinária alegria, que parecia que o Senhor se preocupava com ele, já que lhe mandara um companheiro tão necessário e um amigo tão fiel (1Cel 24).”[2]
A constatação de que os irmãos lhe foram dados pelo Altíssimo encheu também o coração de Francisco com a certeza de que Deus tinha um projeto diferente, que não se enquadrava em nenhum tipo de instituição ou Regra já existentes. O Altíssimo revelou para ele, na formação de sua primitiva fraternidade, o caminho a ser percorrido: “viver segundo a forma do Santo Evangelho.” Do contrário, seu ideal de vida, simples e pobre, não teria atraído tantos irmãos. Se eles existem, é porque foram dados pelo próprio Deus, que os escolheu e chamou.
A presença dos irmãos ao seu redor exige de Francisco zelo, cuidado e responsabilidade. Enquanto esteve só, perseguindo os ideais evangélicos, cuidando dos leprosos, reconstruindo a igrejinha de São Damião, hospedando-se entre os monges beneditinos, recolhendo-se nas grutas para a oração e esmolando o necessário para sua subsistência, sua única preocupação era com a fidelidade ao estilo de vida pobre e simples que acabara de abraçar. Quando os irmãos começam a chegar, a primeira atitude de Francisco torna-se uma atitude materna: “e eu o fiz escrever em poucas palavras  e de modo simples e o senhor papa mo confirmou...” Buscou rapidamente um mínimo de infra-estrutura para acolher bem e proteger aqueles que o Senhor enviara. Fez uma breve regra de vida, completamente edificada nos alicerces do Evangelho e buscou sua aprovação aos pés do Santo Padre, o Papa Inocêncio III. Com a Regra, Francisco expressa sua fraternidade nos sinais da pobreza, da obediência e da castidade, genuína expressão da vida, da lealdade, do respeito ecológico e da caridade. Com a bênção papal, Francisco cerca sua frágil fraternidade (aqui leia-se comunidade) com a proteção da Igreja.
“E os que vinham para abraçar este gênero de vida distribuíram aos pobres o que acaso possuíam. E eles se contentavam com uma só túnica remendada por dentro e por fora, com um cíngulo e as calças. E mais não queríamos ter.” Aqui, Francisco demonstra sua receptividade e hospitalidade aos que chegam, deixando bem explícito que o critério do discernimento em saber se o irmão que chegava era, realmente, chamado e escolhido por Deus. Este critério era o despojamento fraterno, a pobreza: “distribuíram aos pobres o que acaso possuíam.”
Os irmãos dados a Francisco estavam revivendo a primeira Comunidade dos Apóstolos: encontravam-se para a oração e a fração do pão. Estavam sempre juntos, estreitando os laços da fraternidade. O estar juntos dos irmãos tinha como objetivo, antes de tudo, de permitir-lhes que, ajudando-se mutuamente, realizassem sua personalidade espiritual, na celebração da cultualidade de sua vida e, depois, oferecendo ao mundo um serviço de salvação através do anúncio da paz: “Nós clérigos recitávamos o ofício divino como os demais clérigos; os leigos diziam os pai-nossos.”
 “Respeitando profundamente os vínculos de sangue, a fraternidade franciscana dá o testemunho de uma família que é gerada por Deus. A família gerada pelo homem é sagrada, porque na família se renova a vida e a vida vem de Deus. Os vínculos da fraternidade espiritual não são menos sólidos que os vínculos de sangue. Francisco crê firmemente na solidez da fraternidade espiritual dos seus frades e não hesita em encorajá-los à confiança recíproca em suas necessidades, apelando para a imagem de confiança de um filho para com a mãe.”[1]  
Por fim, a fraternidade que se desenvolveu em torno da figura carismática de Francisco de Assis crescia ainda com dois aspectos muito distintos: era eclesial e minorítica: “E gostávamos muito de estar nas igrejas. Éramos iletrados e sujeitávamos a todos”. Eclesial porque experimentava a comunhão da Igreja, e por ela se orientava na itinerância do mundo, vivendo e aprofundando os valores evangélicos. Era a Igreja o lugar espacial da expressão da Comunidade Franciscana. Minorítica, porque experimentava a “minoridade”, a sujeição, “ o ser menor” como paradigma contrário aos apelos do tempo, onde o homem buscava ser “maggiore” em tudo o que era, em tudo o que fazia e em tudo o que possuía. Pertencer à Igreja na fidelidade ao Evangelho era para a Comunidade Fraterna de Francisco, ao mesmo tempo, vocação e missão para o seguimento de Cristo.


[1] Ibidem, pp.274.


[1] Cf. Test. 4, 14-19
[2] BONI, Andréa. Dicionário Franciscano, Petrópolis, Vozes, 2ª Edição, 1999, pp. 273 ( verbete fraternidade).

A vida fraterna aparece como intuição de Conventualidade também na Regra para os eremitérios:[1] que dois sejam as mães e os outros dois, filhos, e que façam um revezamento. O elemento que brota daí, na figura materno-filial é, sem sombra de dúvida, o cuidado fraternal pelo outro numa relação de amor-filia que aponta para o agápico.[2] Eis a Conventualidade se descortinando e se evoluindo, fazendo com que a passagem da intuição à instituição salvaguarde a vida em fraternidade.
Para Vital Bommarco, Ministro geral OFMConv.,[3] “da riqueza e da superabundância do carisma do Fundador nasceram as diversas e múltiplas aplicações concretas do espírito franciscano e uma das primeiras foi exatamente a ‘Conventualidade’, vivida com muito empenho para responder às exigências e necessidades do tempo.”[4]
“Em sua narrativa sobre os primeiros frades na Inglaterra, Thomas d’Eccleston multiplica o testemunho sobre a alegria franciscana: quando os frades se instalaram na cidade inglesa de Cantuária, numa casa em que à noite, de regresso, acendiam o fogo, sentavam-se em torno dele, cozinhavam uma beberagem (potus) numa panela e a bebiam em círculo. Às vezes a bebida era tão grossa que nela precisavam jogar água, e depois a bebiam alegremente. Da mesma forma em Sarum, os frades bebiam diante do fogo na cozinha uma imunda borra (faeces) com tanto prazer e alegria que se divertiam em roubar uns dos outros a bebida amigavelmente (De Adventu, 7).”[5]
Historicamente o conceito “conventual” sofreu alterações semânticas importantes. Como acenamos, já no início da Ordem foi mais genérico, sendo derivativo de “convento” e de tudo que dizia respeito à esta realidade. Depois, foi evoluindo no sentido mais específico e ligado a acontecimentos históricos tais como “o viver e operar dos Menores naqueles conventos e igrejas que o papa tinha declarado conventuais, distinguindo-se assim, como religiosos conventuais, dos outros confrades que viviam nos eremitérios;”[6] vida conventual menos rígida que os eremitérios e mais ativa e comprometida com as exigências da Igreja e da sociedade, e mais conforme à urgência de estudos e de apostolado que os conventos e as igrejas conventuais, no centro das cidades exigiam;” difusão do estilo de vida para fora das cidades e das nações, “com missões populares e entre os infiéis;” “afirmar-se da necessidade apologética deste estilo de vida seguido pela comunidade conventual”; necessidade de distinção entre Comunidade de outros grupos da Ordem.”
Na linha histórica do tempo, a “Conventualidade” foi sendo compreendida como o distintivo de uma família franciscana voltada para esta preciosa dimensão carismática do seráfico pai, a fraternidade para a missão. Assim, do grupo dos letrados, anterior ao capítulo geral de 1217, ao fenômeno próprio de “conventualismo” (a partir do século XIV) comum às Ordens religiosas, passando pelos confrontos idealizadores entre “conventuais” e “observantes”, com relativa paz entre as duas tendências até o ano de 1500, até chegar a definitiva ruptura e autonomia em 1517.
Fora da “Conventualidade”, a visão deste estilo franciscano de vida foi carregada de suspeita e negativismo. Espirituais, Zelantes, Observantes, Itinerantes, cada qual em sua época, acusaram os frades da Conventualidade de laxismo, excessos; desviados do carisma fundacional e avessos à pobreza.
Como luzes e sombras, de sua gênese em 1209 aos dias atuais (2011), a Conventualidade se configurou na história como expressão fraterno-evangélica do carisma franciscano, aberto à Igreja, e através dela, ao mundo.
Como pensar, então, no conceito de Conventualidade nos dias de hoje? Sistematizar e compreender seu significado faz parte do processo reflexivo teórico de sua internalização. Vejamos.


[1] Aqueles que quiserem viver como religiosos em eremitérios não sejam mais de três ou, no máximo, quatro irmãos. Dois sejam as mães e tenham dois ou ao menos um por filho. Aqueles levem a vida de Marta e estes a de Maria Madalena. Os dois que forem as mães levem a vida de Marta e os dois filhos a de Maria, e disponham de um lugar cercado para morar, onde cada um tenha a sua cela para orar e dormir: Cf. Regra para os eremitérios, em: São Francisco de Assis – Escritos e biografias de São Francisco de Assis – crônicas e outros testemunhos do primeiro século franciscano, 5ª ed. Petrópolis: Vozes/Cefepal, 1988, p. 164.
[2] Francisco convida seus irmãos a realizar o modelo de família: sua Ordem deve ser e primeiro lugar, propriamente, mais uma fraternidade do que uma Ordem de religiosos (...) Desses irmãos ele será o pai, segundo o modelo divino, pois Deus é para ele em primeiro lugar, um pai. Mas é uma estrutura familiar totalmente estranha que ele recomenda a seus irmãos. Seu amor fraternal deve ser, na verdade. De natureza maternal. A Frei Leão ele fala como uma mãe a um filho: cf. LE GOFF, Jacques. São Francisco de Assis. Tradução de Marcos de Castro. Rio de Janeiro/São Paulo: Editora Record, 2010, 9ª edição, p. 143.
[3] Vitalis Maria Bommarco de Cherso, 115º Ministro Geral – 1972/1978.
[4] BOMMARCO, Vital. A Ordem dos Frades Menores Conventuais. Tradução de Geraldo Monteiro, em: subsídios para reflexão 1/83, 1981.
[5] cf. LE GOFF, Jacques. São Francisco de Assis. Tradução de Marcos de Castro. Rio de Janeiro/São Paulo: Editora Record, 2010, 9ª edição, p. 229.
[6] POMPEI, A. et alli. Frades Menores Conventuais – História e vida -1209-1995. Cidade Ocidental: edições Kolbe, 1997, p. 88
3. Teorização da Conventualidade

A idealização de Conventualidade é prevista e manifesta nas Constituições Gerais, nos documentos produzidos pelos Capítulos Gerais Extraordinários, pelo “Discipulado Franciscano”, pela exortação epistolar dos Ministros Gerais e outros documentos que circulam no interior da Ordem.
A partir destes documentos, a Conventualidade se define como modo peculiar de organizar e viver a vida comunitária e pela maneira de responder às exigências pastorais da Igreja no tempo e no mundo.
O carisma conventual, nas palavras de Bommarco, não é dado a cada frade em si, mas a toda comunidade dos frades, que por sua vez, não é só depositária, mas deve continuamente redescobri-lo e realizá-lo: “nós nascemos conventuais porque somos filhos daqueles Franciscanos que dos lugares solitários passaram para o contexto das cidades, que deixaram os eremitérios para fundar os conventos, que facilitavam um harmônico desenvolvimento da comunidade.”[1]
Na opinião de muitos dos nossos pensadores, entre eles Alfonso Pompei, J. Odoradi, L. di Fonso, Valentin Redondo, a Conventualidade se define concretamente a partir dos elementos constitutivos da fraternidade como também pelo seu modo próprio de experimentá-la: ministério, capítulo, vida compartilhada (mesa e altar), formação/reflexão (estudo) e apostolado.
Portanto, antes de refletirmos sobre estes elementos contitutivos, e recorrendo novamente ao Testamento do Poverello, salientemos o conceito de fraternidade, que supõe a Conventualidade, tendo como ponto de partida a experiência do Patriarca de Assis.

 Francisco: acolhimento do outro como irmão

Quando Francisco disse e fez escrever em seu Testamento “e depois que o Senhor me deu irmãos...” nasceu a fraternidade franciscana, “que se traduz essencialmente pelo testemunho da paternidade universal de Deus e da fraternidade universal do homem.”[2] Assim, a fraternidade franciscana, é antes de tudo, fraternidade cristã, onde o homem é devolvido ao homem como irmão, e nessa relação, experimentar e desenvolver o amor que vem de Deus. Na fraternidade cristã somos chamados a aceitar a Deus como Pai e aceitar o outro como irmão, vivendo a comunhão. A fraternidade franciscana é também uma consciência da generosidade de Deus que funda e recria a comunhão fraterna: “os irmãos não se escolhem, mas se aceitam. Não há fraternidade se não queremos entrar na vida de nosso irmão e se não consentimos que ele entre na nossa. Sem esta comunhão de vida, a fraternidade seria apenas referência a uma pertença genealógica, sem interesse para ninguém. A fraternidade franciscana testemunha o amor que vem de Deus e para Deus volta.”[3]
A fraternidade franciscana é também uma relação materno-afetiva, onde o cuidado, o zelo, a proteção e a preservação do outro como parte de si mesmo faz crescer a amizade, o respeito mútuo e o testemunho evangélico. Na fraternidade franciscana os valores evangélicos da pobreza, da obediência e da castidade configuram-se como uma resposta humana às seduções mundanas e desumanizadoras do ter, do poder e do prazer. Desapegados, unidos e transparentes, os irmãos experimentam a bondade de Deus na história pessoal e comunitária de cada um que foi dado por Deus a toda comunidade.
A fraternidade franciscana, formada por um chamado de Deus, vive o vínculo espiritual deste chamado através da cultualidade, ou seja, do encontro e da oração. Encontro consigo mesmo, com o irmão, com a natureza e com Deus.
A fraternidade franciscana vive o sopro do Espírito dentro da Igreja e se faz menor, servidora, e gentilmente amorosa, e edifica-se a partir da constituição de elementos fundamentais, como já dissemos acima: ministério fraterno, capítulo, compartilhamento, formação permanente, apostolado.


[1] BOMMARCO, Vital. A Ordem dos Frades Menores Conventuais. Tradução de Geraldo Monteiro, em: subsídios para reflexão 1/83, 1981.
[2] Idem, pp. 271.
[3] Idem, pp. 274.

* Frei Carlos Charles é doutorando em Teologia na PUC-Rio, guardião no Convento Santo Antônio dos pobres em Paraíba do Sul da Custódia Imaculada Conceição do Rio de Janeiro – Brasil.


Confira a continuação:
http://conventuaisrj.blogspot.com.br/2012/05/elementos-constitutivos-da.html

http://conventuaisrj.blogspot.com.br/2012/05/conventualidade-como-expressao-de.html





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