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segunda-feira, 14 de maio de 2012

Conventualidade como expressão de esperança na América Latina

Continuação do texto: A Conventualidade no carisma Franciscano...
Parte 1: http://conventuaisrj.blogspot.com.br/2012/05/conventualidade-no-carisma-franciscano.html
Parte 2: http://conventuaisrj.blogspot.com.br/2012/05/elementos-constitutivos-da.html

Por: Frei Carlos Roberto Charles, OFMConv.


Poderíamos, então, a partir da prática, falar de uma Conventualidade própria da América Latina? A priori não se pode esgotar o sentido de Conventualidade nem a partir de um Continente, nem de um País, nem tão pouco de províncias diferentes, mas antes a partir do elemento central, que é o carisma e de cada fraternidade local. Assim não há, a priori, num sentido distintivo e conflitante, uma Conventualidade latino-americana como não há uma Conventualidade brasileira, porque estaríamos focando a fraternidade apenas no aspecto sócio-cultural e padronizando as diversas e diferentes expressões num único e padronizado bloco geográfico-cultural.
Todavia, a partir de uma releitura do fundador e de seu carisma na ótica latino-americana, de uma eclesiologia da missão, e de um olhar profundo e crítico para as estruturas hodiernas da instituição, o rosto da Conventualidade, como expressão ad intra e ad extra, se desenha com mais facilidade, porque social, cultural, antropológica, teológica e eclesialmente a prática evangélica da Conventualidade se adéqua ao seu contexto. Desta maneira, podemos falar de uma Conventualidade de expressão latino-americana, quando emergem latentes os elementos da solidariedade com os empobrecidos e quando são detectados no interior dos conventos, situados na América Latina, elementos estruturais e ideológicos importados da cultura continental que comprometem a própria Conventualidade.

Francisco de Assis na ótica latino-americana

Segundo Mário Cayota, “a visão que podemos ter de Francisco, a partir da América Latina, sem perder a necessária objetividade, é inegavelmente de feições muito próprias. Olhamos o irmão Francisco a partir da pobreza e da marginalização. A partir de duma conjuntura muito dolorosa; com nossos membros desconjuntados pela violência e crueldade: a partir do sofrimento.”[1] 
Francisco, na ótica do oprimido, é sempre libertado, libertador e livre. Libertado, porque livrou-se das amarras estruturais e das vinculações dos sistemas para uma nova forma de sociabilidade: a fraternidade minorítica; libertador porque buscou libertar os homens daqueles sentimentos e práticas que os levam ao ódio e a violência; e livre porque foi, de fato, fundamentalmente um homem livre, cujo frescor da liberdade irradiou de seus gestos e palavras, como conquista de um longo e oneroso processo de libertação.[2]
Francisco intuiu que “a fraternidade entre os homens e o encontro com Deus são obstaculizados, dificultados e até mesmo destruídos pela vontade de posse e poder. Interpomos entre nós e os outros as coisas possuídas egoisticamente, os interesses. Tememos expor-nos, coração a coração, olho a olho; preferimos as propriedades que nos asseguram, mas nos afastam dos outros e assim das raízes que alimentam a nossa humanidade: a ternura, a convivialidade, a solidariedade, a compaixão e o amor,”[3] tão caras à Conventualidade. O projeto carismático de Francisco é um plano onde todos se encontram e se confraternizam, por isso a pobreza consistirá num esforço de remover as propriedades de qualquer tipo para que daí resulte o encontro entre homens e se possibilite a fraternidade. Ser radicalmente pobre para poder ser plenamente irmão, e idendificar-se com Jesus.[4]

Francisco é o homem pobre-solidário que voluntariamente se posicionou a favor do empobrecido, do desclassificado, marginalizado, constituindo-se menor e fraterno num “ser-para-o-outro”. Seu grito profético de consequências revolucionárias tanto para a Igreja quanto para a sociedade não saiu tanto de sua voz, mas de seu testemunho, de seu posicionamento e de sua experiência do Espírito, que agiu nele, libertando-o, tomando consciência da palavra, formando comunidade para preservar, promover e gerar a vida.
Francisco, em Cristo, é o arquétipo do ser humano integrado, de uma subjetividade aberta direcionada à experimentação do Cristo, pobre, crucificado e libertador manifestado na dor, no sofrimento e na exclusão dos mais vulneráveis deste mundo. É a partir desta compreensão que a vida e o carisma do Poverello iluminam a vida fraterno-conventual no Continente da Esperança.

Eclesiologia da missão

Em toda a América Latina a Conventualidade se experimenta em muitas e diversas teologias, e consequentemente, em variadas eclesiologias que se misturam, que se confrontam, convivendo dialeticamente para a expressão do carisma. Assim, encontramos elementos de cristandade, neo-cristandade, de pentecostalismo e até neo-pentecostalismo, como também de libertação.
Deste modo, não é a pluralidade des-convergente, que define a expressão latino-americana da Conventualidade, mas antes a unidade na pluralidade, voltada sempre para uma situação bem peculiar do Continente: como falar de Deus e como experimentá-Lo numa realidade que clama, ainda, por libertação?
Uma tentativa de resposta pode ser o modo de ser Igreja em constante missão, e dentro desta perspectiva o modo de ser frade menor conventual aberto à missão ad intra e ad extra. Fermento na massa, sal e luz que produzam crescimento, sabor e luminosidade para o Reino de Deus.
Vejamos, então, pelas lentes do teólogo Leonardo Boff, que eclesiologia da missão é esta:
A Igreja na América latina fez uma opção pela libertação integral. Fala consequentemente de evangelização libertadora, liturgia libertadora e de teologia da libertação e da pastoral libertadora. Como o franciscano aborda essa urgência de nossa realidade? É uma temática que não olvida o conflito, pois falamos em libertação, em oposição à opressão. Como se depreende, o tema envolve certo grau de conflitividade com enfrentamentos inevitáveis, para quem luta pela justiça. Assim, inserir-se no processo de libertação implica assumir as causas do povo oprimido e falar e agir a partir da ótica deles. Os temas axiais dos oprimidos se centralizam nos temas da vida, dos meios da vida, da justiça do trabalho, do direito á saúde, á escola, à participação nos bens na cultura. Estas exigências supõem uma opção por uma sociedade diferente daquela que realizamos agora, marcada por um profundo conflito de classes.[5]

Assim, Boff salienta “que o franciscano não se insere no meio do povo como um mestre que sabe tudo, mas como um irmão que caminha junto. Não é fácil combinar função ministerial-sacerdotal com estilo fraterno. A grande maioria fomos formados para sermos mestres do povo, seus pastores, seus orientadores de vida moral.”[6]
Assim, a Conventualidade, olhando para dentro de seu coração e de suas estruturas, abre-se para fora como testemunho livre-libertado para efetivar libertação. “Ao andar pelo mundo, os irmãos devem andar, evangelicamente pobres, anunciar a paz, comer o que a gente tiver, e renunciar a qualquer tipo de violência e dar a quem pedir. O sair pelo mundo implica num entrar mais profundamente num mundo novo.”[7]

Um olhar ad intra

Na América Latina, os frades são pessoas livres, libertadas das amarras estruturais, políticas e econômicas que tanto oprimem e excluem o Povo de Deus?
Há quem diga que na Ordem não existe esta realidade conflitiva do binômio opressor/oprimido e nem o conceito de exclusão/excluído, argumentando que todos os frades têm os mesmos direitos e deveres como também a possibilidade de questionar, reclamar e de se defender de possíveis posturas de exclusão e opressão religiosas, em várias instâncias tais como os capítulos, o definitório custodial/geral/Geral.
Teoricamente, há verdade nesta afirmação! Todavia, o argumento é um tanto frágil na prática e a partir de um olhar mais atento sobre a realidade de muitos conventos pontuados em todas as partes do mundo, onde a Ordem se faz presente, revela que a Conventualidade, enquanto parte da Igreja e inserida no mundo, imersa numa culturalidade moderna, não está imune e nem alheia aos mesmos problemas e desafios detectados na sociedade e em suas instituições. Assim, a partir de uma ótica latino-americana, percebe-se no interior de muitas comunidades conventuais, senão o todo da lógica perversa e desumanizante da opressão/exclusão, pelo menos partes e sombras dela.
Não se pode negar, por exemplo, que há uma clara distinção entre clérigos e leigos (frades ordenados e frades não ordenados); párocos e vigários; governo e oposição; ilustrados e néscios que, por si só, já acenam para a lógica dicotômica que produz enfrentamento, divisão e exclusão. Esta, por sua vez, como exclusão na fraternidade não estaria visível na questão do “frade problemático” que nenhum convento quer abrigar ou o frade bem idoso e enfermo (mental ou corporalmente) que se torna um estorvo para a comunidade? O frade improdutivo ou incapaz, como também o “Irmão leigo” que não produz economicamente em seu trabalho pastoral, não carrega em si o estigma do excluído? As desigualdades econômicas entre conventos e jurisdições, a dependência financeira de jurisdições matrizes, não sinalizam o mesmo tipo de problema vivido especialmente na América Latina pela dinâmica de trabalho-produção-ganho-consumo? A problemática de subjetividades fechadas, o desinteresse pelo comum, a falta de motivação para a oração, não tem dependido, no fundo, desta mesma dinâmica? Intervenções, quando arbitrárias (unilaterais) motivadas por falsas interpretações e “achismo” por parte de autoridades mediatas, além de ferirem o princípio de subsidiaridade e o princípio evangélico da correção fraterna, baseado na exaustão do diálogo, não estariam refletindo a ideologia da opressão?
A corrida e a articulação para o poder que precedem os capítulos ordinários eletivos como o esforço para manter ad eternum os mesmos frades nas funções administrativas, políticas e econômicas não demonstram a contaminação do ministério-serviçal pela secular batalha pelo poder?
Responder, com demorada reflexão, afirmativamente a estas questões é admitir que vivemos num mesmo contexto continental e enfrentamos os mesmos desafios das sociedades latino-americanas. No entanto, não se esgotaria o debate, pois, necessariamente tal resposta afirmativa partiria sempre da ótica de quem sofre tal suposta opressão.
Assim, outros argumentos são necessários para se afirmar uma Conventualidade de expressão latino-americana, como por exemplo, a partir de pontos comuns, também de uma metodologia teológico-pastoral experimentada pela Igreja latino-americana, e por fim, da forma familiar como são construídos a maioria dos conventos na América.
Pontos comuns dessa expressão são a alegria, simpatia, hospitalidade e esperança.[8] Na América Latina os frades mostram-se sempre solícitos em acolher com bastante disposição aqueles que chegam, e fazem festa, na alegria franciscana do encontro, de quem realmente recebe, acolhendo um irmão. É também um sinal de esperança, muito próprio do Continente também chamado da Esperança, que mesmo, “remando contra a maré”, confia, espera, trabalhando pela transformação.
Se é verdadeira a afirmação de que sérios problemas modernos desafiam a Conventualidade, é também verdade que na América Latina busca-se o enfrentamento dessas questões num esforço continuado para que o Evangelho recupere sua primazia e centralidade no coração da fraternidade. Este esforço segue, na maioria das vezes, seja na dinâmica da comunidade, seja nos capítulos locais, nos capítulos ordinários e extraordinários das jurisdições, seja nos demais momentos do grupo como um todo, o método latino-americano  ver-julgar-agir.
Este método, quando utilizado na estrutura conventual torna-se instrumento efetivo e eficaz para a expressão da fraternidade na medida em que se coloca com sinceridade a problemática experimentada, visualizando suas causas e consequências e a ilumina com o próprio Evangelho, o carisma do fundador e o carisma da Ordem para se chegar a uma prática transformada e facilitadora ao crescimento fraterno.
Na mesma linha, considerando as dificuldades internas e suas frequentes tentativas de superá-las a partir da própria comunidade, visualiza-se como elemento favorável a configuração dos próprios conventos. Estes se distiguem, em sua maioria, daqueles mais clássicos e antigos, tornando-se, tanto na arquitetura quanto na experiência de vida fraterna, mais familiar, mais simples, mais aberto às novas subjetividades e aberto à relação e convivência mais calorosa com as pessoas que frequentam as paróquias, escolas e instituições dirigidas pelos frades.
Os conventos latino-americanos são menos monacais e menos rígidos em suas estruturas, facilitando essa relação familiar, doméstica que não se distancia da realidade doméstica de tantas famílias.
Por fim, a síntese da tensão entre ideal e real dos elementos constitutivos do carisma conventual na América Latina se configura como expressão latino-americana da própria Conventualidade.
Tudo o que dissemos acima vale tanto para a Ordem como um todo e também para a América Latina, lembrando que aquilo que é próprio da Conventualidade de expressão latino-americana é o seu posicionamento frente aos desafios, começando pela tomada de consciência da problemática, passando pela confrontação, até se chegar a uma síntese possível que possibilite uma conventualidade.
Assim, a expressão latino-americana da Conventualidade, não só é real, como também é um contributo para a Ordem como um todo, sobretudo, naqueles lugares onde os contextos culturais se aproximam. Contributo, porque pela sua expressão, não fere os princípios institucionais e nem tão pouco alteram em sua essência o mesmo e convergente carisma.

7. Conclusão

A Conventualidade, que evoluiu historicamente a partir do conceito de convento, é constitutiva do carisma franciscano. O “prius” deste carisma é a fraternidade, mas seu “primado” é a Conventualidade. Desde que nasceu a fraternidade em torno de Francisco, nasceu também seu modo, sua expressão, que amadureceu na vivência comum e estrutural, sintonizada com os novos desafios e necessidades da Igreja.
Por convento entenda-se, aqui, não só a casa, mas toda a vida da comunidade, e sobretudo sua produção de fraternidade.
Desta forma e nesta linha, a Conventualidade é a encarnação da fraternidade, o corpo espiritualizado no qual ela se faz possível, existe e evolui naturalmente como expressão carismática do franciscanismo. Sem a Conventualidade, o franciscanismo tenderia há uma mera abstração romântica ou uma espiritualização desencarnada da sua essência, que é viver os valores evangélicos a partir da fraternidade.
 A atualização do carisma se efetiva na dinâmica dialética da tensão entre entre a Conventualidade idealizada, sistematizada e desejada e a Conventualidade possível, real, prática.
Na América Latina há um modo muito peculiar de expressar e re-inventar a Conventualidade, e passa, muitas vezes, pela tomada da consciência dos problemas comuns de todo o Continente, e sobretudo, pelo desejo e empenho, de radicá-los a partir do coração da fraternidade conventual.

Paraíba do Sul, RJ, 04 de outubro de 2011 - Festa do Seráfico Pai
 São Francisco de Assis


Bibliografia

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BOMMARCO, Vital. A Ordem dos Frades Menores Conventuais. Tradução de Geraldo Monteiro, em: subsídios para reflexão 1/83, 1981.
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BONI, Andréa. Dicionário Franciscano, Petrópolis, Vozes, 2ª Edição, 1999, pp. 273
CAYOTA, Mário et alli. Francisco na ótica latino-americana. Petrópolis: Reproarte Gráfica Ltda, 1991.
COMBLIN, José. As grandes incertezas na Igreja atual, em: REB 265, 2007.
Constituições da ordem dos Frades menores Conventuais Roma: Mediagraf Padovana, 1984.
Fontes Franciscanas. São Francisco de Assis – Escritos e biografias de São Francisco de Assis – crônicas e outros testemunhos do primeiro século franciscano, 5ª ed. Petrópolis: Vozes/Cefepal, 1988.
HEIDEGGER, Martin. Ser e tempo. Petrópolis: Vozes, 2006.
 LE GOFF, Jacques. São Francisco de Assis. Tradução de Marcos de Castro. Rio de Janeiro/São Paulo: Editora Record, 2010, 9ª edição.
MIDALI, Mário. Carisma da vida religiosa – U.S.G, Roma, 1981.
OFMCOnv. Capítulo Geral Extraordinário de 1998 – A formação na Ordem – linhas para um compromisso renovado. Roma: Cúria Geral OFMConv., 1998.
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POMPEI, A. et alli. Frades Menores Conventuais – História e vida -1209-1995. Cidade Ocidental: edições Kolbe, 1997.
POMPEI, Alfonso. Os estudos no carisma franciscano menor conventual. Tradução de Geraldo Monteiro, 1994.
UCOB, O Capítulo Conventual – O discernimento comunitário, a revisão de vida e a correção fraterna. Santo André: Província São Francisco de Assis, 1997.



[1] CAYOTA, Mário et alli. Francisco na ótica latino-americana. Petrópolis: Reproarte Gráfica Ltda, 1991, p. 37.
[2] Cf. BOFF, Leonardo. São Francisco de Assis: ternura e vigor. Petrópolis: Vozes, 1991, 5ª ed, p. 111,119,123.
[3] Ibidem, p. 92.
[4] Idem.
[5] BOFF, Leonardo et alli. Francisco na ótica latino-americana. Petrópolis: Reproarte Gráfica Ltda, 1991, p. 32.
[6] Idem.
[7] BOFF, Leonardo. São Francisco de Assis: ternura e vigor. Petrópolis: Vozes, 1991, 5ª ed, p. 115.
[8] Expressão do Assistente Geral para a América Latina, Frei Jorge Fenandez (2011).


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