Ordem dos Frades Menores Conventuais - Custódia Provincial Imaculada Conceição dos Franciscanos Conventuais do Rio de Janeiro - PAZ & BEM!!!

segunda-feira, 23 de abril de 2012

O direito à vida e a Moral Cristã

Por: Raimundo César de O. Mattos, OFS*

Todos nós assistimos, justamente na primeira semana da Páscoa de 2012, a uma discussão que, infelizmente, terminou de forma inglória. O Supremo Tribunal Federal, órgão máximo de nosso Poder Judiciário, levou a plenário a votação acerca da permissão do aborto de fetos anencéfalos. O resultado, e as conseqüentes manifestações de apoio, deixariam qualquer um perplexo há algum tempo atrás. Hoje em dia, no entanto, estamos presenciando uma inversão absoluta dos valores. Para entendermos tais fatos, é necessário que recordemos alguma coisa da caminhada histórica da Igreja, desde os seus primórdios no Império Romano, até recentemente.
            Quando dava os seus primeiros passos no mundo, o cristianismo chocou-se com uma realidade bem diversa dos princípios que pregava. Imoralidade, infanticídios, exploração, lutas fratricidas e de gladiadores, tudo destoava do amor ao próximo pregado pelo Evangelho. Até mesmo séculos antes disso, quando o povo judeu adentrou a terra prometida, os cultos idolátricos e os costumes abomináveis dos demais povos que ali se encontravam horrorizaram aqueles que viriam lançar as sementes da revelação divina. Pouco a pouco, porém, e principalmente a partir da recepção do Decálogo, iniciou-se um processo de transformação que levou ao que hoje se denominam, inclusive de forma pejorativa, de “moral judaico-cristã”.
            O Judaísmo e, depois dele, o Cristianismo, foi dilapidando as pessoas, quais diamantes brutos, mediante as verdades da fé. Assim, o decadente, mas ainda temido Império Romano, foi vencido pela cruz, sem que outro sangue fosse derramado, a não ser o dos mártires. O infanticídio, como o praticado por vários povos orientais que sacrificavam suas crianças aos seus falsos deuses e até mesmo pelos gregos que, em Esparta, deixavam ao poder civil a decisão sobre a vida ou a morte dos recém-nascidos, foi banido. As lutas de gladiadores, mortais e aviltantes, foram proibidas. Chegou-se ao período que foi, sem sombra de dúvidas, chamado de a “doce primavera da fé”. Malgrado tudo isso, inúmeros são aqueles que, ignorantes do processo histórico, inclusive muitos pertencentes às fileiras da própria Igreja, só conseguem ver sombras no período medieval, desconhecendo por completo os benefícios trazidos pela cristandade ao mundo que se desagregava com as invasões dos bárbaros. Contudo, a Igreja conseguiu se manter, cumprindo-se as palavras de Jesus de que “as portas do inferno jamais prevaleceriam sobre ela”. O mundo ocidental plasmou-se pela Igreja Católica.

            Chegados aos dias de hoje, uma avalanche de críticas inconsistentes desaba sobre o modelo moral seguido pela Igreja, considerado ultrapassado. A “moral judaico-cristã” não é apropriada aos tempos modernos, afirma-se. Precisamos de novos modelos. E quais os resultados disso tudo? Paulatinamente, retornam os costumes anteriormente considerados bárbaros: o infanticídio é praticado até mesmo pelos pais que, descontentes com o nascimento de um filho, o abandonam ou os atiram à morte; as lutas de gladiadores, que jamais imaginávamos que pudessem voltar a existir, atualizaram-se, e aí estão os ditos combates de UFC, ou seja lá que nome tenham os modernos lutadores que, por enquanto, ainda não chegam à morte, a não ser de forma acidental. É esta a moral que serve para o nosso mundo moderno. Não precisamos falar nada sobre a moralidade e o que era chamado de “bons costumes”. Mas, a respeito do infanticídio, ele ainda consegue chocar a sociedade quando ocorre nos casos de abandono ou mesmo de assassinato puro e simples (crianças arremessadas pela janela, como vimos há algum tempo atrás, por exemplo). Já em relação àquelas que sequer conseguiram ver a luz do dia, o caso é bem outro.
            Quais membros do conselho de anciãos de Esparta, que determinavam que os recém-nascidos com deficiências físicas fossem lançados do Monte Taigeto, nossa suprema corte acaba de definir que um feto portador de anencefalia não precisa nascer, pois não é um ser humano. É um natimorto, que não compensa deixar que se desenvolva. Não entro em pormenores médicos, dos quais pouco ou nada entendo, mas não me parece, por vários casos conhecidos, que tais crianças não consigam sobreviver. Pelo menos, por algum tempo, durante o qual possuem o direito inalienável à vida, garantido em nossa constituição, e de sentir o amor dos pais que, sim, não desejaram um filho nestas condições, mas não podem limitar o seu amor à situação física de uma criança.

Esqueceram-se, ainda, os nossos magistrados, argumentando que o Estado é laico, a existência da lei natural, a qual garante os direitos básicos a todos os seres humanos, sendo que esta independe das religiões. O direito à vida, primeiro entre todos, foi definido inclusive pela Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão, da Revolução Francesa, movimento totalmente laico e até, em grande parte, anti-religioso. E isso foi feito para coibir os Estados que se consideravam detentores do poder de vida e morte sobre seus súditos. O Estado, que deveria ser o primeiro defensor da vida dos seus cidadãos, desde o instante mesmo da fecundação, principalmente pelo fato de que arrecada impostos para isso, tornou-se, uma vez mais, o definidor do destino final de crianças que, se ainda estão se formando no útero materno, já são possuidoras de uma existência própria e não são, ao contrários do que foi dito, uma espécie de zumbis que não podem vir à nossa existência. A dor de uma mãe com um filho em tais condições nos braços é, realmente, enorme. Mas ela um dia irá se recordar deste filho como alguém que amou, e não como algo que desprezou. Neste último caso, como será a dor dessa mãe? Ou, estamos tão anestesiados moralmente que sequer conseguimos imaginar que isso venha a ocorrer?
            Mas o que causou maior espanto foram as comemorações de grupos pretensamente defensores dos direitos humanos quando da divulgação do resultado da votação no STF. Comemoravam o quê? O assassinato, puro e simples, de inocentes? A que ponto chegamos. Cícero, destacado senador romano no primeiro século antes de Cristo, ao discursar a respeito da desagregação moral de Roma, não usaria outra expressão hoje, além daquela que empregou: “o tempora, o mores”. Ó tempos, ó costumes. Vamos comemorar a matança dos inocentes, à semelhança de Herodes. Estamos livres de um estorvo. O Estado, que deveria ser o primeiro a garantir o direito do cidadão, voltou a determinar quem deve nascer e quem deve morrer.

E, para concluir, uma declaração de um defensor do aborto, comentando que não há perigo de se generalizar os casos permitidos por lei, fez uma declaração bem esclarecedora: “ainda é cedo para falar em descriminalização do aborto de forma irrestrita”. Ainda. Vale lembrar que Esparta, que matava os seus recém-nascidos, não deixou nenhuma herança para o mundo moderno a não ser esta triste lembrança e a de que os seus habitantes eram propriedade do Estado. Laico. Realmente, a “moral judaico-cristã” deve ser uma coisa ultrapassada.

* o autor é membro da Fraternidade Nossa Senhora da Glória - OFS de Valença/RJ;  Professor,  doutorando em História pela UERJ, membro da Academia Valenciana de Letras. Contato: raimundomattos@bol.com.br.

Nenhum comentário:

Os Mais Vistos