Ordem dos Frades Menores Conventuais - Custódia Provincial Imaculada Conceição dos Franciscanos Conventuais do Rio de Janeiro - PAZ & BEM!!!

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Fazei-nos instrumentos de Tua paz.


Por: Raimundo César de O. Mattos, OFS*

O início da oração atribuída a São Francisco de Assis, também conhecida como oração da paz, pede ao Senhor para sermos instrumentos, não de uma paz comum, mas daquela paz que o próprio Jesus comunicou aos seus apóstolos no entardecer daquele primeiro dia da semana, após a sua ressurreição dos mortos: “A paz esteja convosco” (Jo 20, 19b). E termina com uma adaptação de uma outra passagem evangélica: “é morrendo que se vive para a vida eterna”. “Se o grão de trigo não cai na terra e não morre, fica sozinho. Mas se morre, produz muito fruto” (Jo 12, 24).
            Ao entregar sua vida pelo resgate de cada um de nós, Jesus se tornou este grão de trigo fecundo que, descendo à terra inculta e estéril de nossos corações, nos fez aptos a receber a Palavra que foi neles semeada. Encerrado no sepulcro de nossas existências sem vida, Ele nos deu a graça da libertação do pecado e da morte. Estávamos errando sem rumo, buscando uma razão que nos motivasse e nos orientasse em nossa caminhada, e Ele se revela “caminho, verdade e vida”. Sem sabermos exatamente o que buscávamos, já corríamos ansiosos por chegar à fonte de onde jorra a água da vida. “Tarde te amei”, diz Santo Agostinho, “tarde te amei, beleza tão antiga e tão nova”. Ou, pior, como lamentava São Francisco, “o amor não é amado”. E Ele, contudo, nos amou desde toda a eternidade. “E nisto consiste o amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi Ele que nos amou, e nos enviou o seu Filho como vítima expiatória para nossos pecados” (1Jo 4, 10).

            A grande mensagem da Páscoa que Jesus nos traz, ainda hoje, é a da paz e a do amor com que Ele próprio nos amou, até o fim. Buscamos uma paz terrena, incapaz de corresponder aos anseios mais escondidos de nossos corações. E fechamos nossa vida para recebermos a paz verdadeira. Paz que não é apenas ausência de guerras, mas fecundada pelo amor onipotente de um Deus que não hesitou em nos redimir pelo sangue de seu “Filho amado, em quem colocou toda a sua complacência”. Essa paz começa em nossos corações, devendo transbordar em nossas vidas, comunicando-se àqueles que estão ao nosso redor,  chegando a todos indistintamente.
A paixão, morte e ressurreição de Jesus são a consumação do mistério da salvação operada por Deus, quando seu próprio Filho, tendo assumido nossa natureza mortal, entregou-se para “iluminar os que viviam nas trevas e na sombra da morte, para guiar nossos passos no caminho da paz” (Lc 1, 79). Tal entrega é fruto deste amor de nosso Deus que, tendo criado o homem à sua imagem e semelhança, não o abandonou sob o poder do pecado, mas o resgatou de forma sublime. Tão sublime que, no precônio pascal entoado no início da vigília da ressurreição, canta-se “o pecado de Adão indispensável, pois o Cristo o redime em seu amor. A culpa tão feliz que há merecido, a graça de um tão grande redentor”. Este mistério profundo do amor sem limites de Deus por cada um de nós levou o seu Filho único às últimas conseqüências, entregando-se por amor de nós, para nos livrar de nossas doenças, de nossas faltas, abrindo-nos as portas da salvação.
O Tríduo Pascal torna presente, em nossos dias, o drama sem igual de nossa redenção. Cada passo dado por Jesus, resolutamente, rumo à Jerusalém, mostra-nos a sua decisão inquebrantável de cumprir até o fim a vontade do Pai, para que alcançássemos a salvação. Da entrada messiânica em Jerusalém até o alto do Gólgota, trazemos diante dos olhos o seu amor profundo por nós: o exemplo de humildade do lava-pés; o mandamento novo; o anúncio da traição de Judas e da negação de Pedro; a doação de Si mesmo nas espécies eucarísticas; a agonia do Getsêmani; a prisão, sofrimentos, paixão e morte na cruz, consumando-se esta doação total, a entrega de sua vida por nós, incapazes de alcançarmos, sozinhos, a salvação; o silêncio da sepultura, com a terra mergulhada nas trevas, quando o sol de justiça se ocultou no horizonte, até a manhã gloriosa do domingo da ressurreição.
Ele é a razão de nossa esperança, é o caminho que nos leva ao Pai, é a verdade que nos orienta, é a vida que nos foi prometida, para passarmos do pecado à vida da graça, das trevas para a sua luz admirável. “As trevas vão se dissipando e já brilha a verdadeira luz. Quem diz estar na luz e odeia seu irmão, ainda está nas trevas. Quem ama seu irmão, permanece na luz e não há nele qualquer ocasião de queda” (1 Jo 2, 8-10).
            Ele, que desejou a paz aos discípulos, nos conceda a sua paz. Como depositários da paz que nos vem com a ressurreição do Senhor, sejamos, neste mundo, instrumentos do seu amor, semeadores desta paz que somente Ele pode nos dar.
            Que o Senhor nos dê a sua paz. Que Ele nos conceda vislumbrarmos a luz da sua ressurreição e nos oriente os passos no caminho que nos conduz à salvação. Que a paz e o bem reinem em nossas vidas, nesta Páscoa e sempre.

* o autor é membro da Fraternidade Nossa Senhora da Glória - OFS de Valença/RJ;  Professor,  doutorando em História pela UERJ, membro da Academia Valenciana de Letras. Contato: raimundomattos@bol.com.br.

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