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sábado, 17 de março de 2012

Entendendo a Liturgia: Sacramento da Reconciliação

Pesquisado por Frei Marcelo Santos
Com o Batismo e o Crisma nos tornamos criaturas novas, mas apesar disso, não correspondemos como deveria. Pois a orientação que damos a nossa vida nem sempre esta pautada no Espírito de Deus, mas está imerso no próprio “Eu” (Cf. adm X). Por isso mesmo, aquele que peca após o Batismo, é oferecida nova oportunidade de conversão, pelo Sacramento da Penitência ou da Reconciliação.
O Concílio Vaticano II, no documento Sacrossanctum Concilium [SC]72, destaca o fato de que “os ritos e as fórmulas da penitência sejam revistos de tal modo que expressem mais claramente a natureza e o efeito do sacramento”.
Em 1973 a Sagrada Congregação para o Culto Divino, publica o Novo Rito de Penitência. Recebe esse nome, “Da Penitência”, porque prevê ritos não sacramentais, e o Sacramento, todavia, chama-se, “Sacramento da Reconciliação”.
A assembléia geral dos Bispos em Itaici produziu um documento em que tratava da “Pastoral da Penitência”; onde destacam alguns pontos relevantes e críticos, a saber:
a)      Atitude de conversão, como busca de Deus e crescente consciência eclesial.
b)      Perplexidade diante da crise Penitencial, como exames de consciência defasados, inutilidade aparente da confissão, falta de clareza da noção de pecado, o pecado grave é visto somente no que se refere a roubos e assassinatos, busca de confissão direta com Deus sem a mediação da Igreja, a confissão só como condição para se comungar e etc.
Enfim são alguns acenos críticos, que os Senhores Bispos fizeram acerca do Sacramento da Reconciliação. 



Penitência ou Reconciliação?
Reconciliação, Deus concede a nós, em Jesus Cristo, chamando o Homem a perfeita Comunhão com Ele.
A Penitência é a resposta positiva que o homem dá a Reconciliação em Jesus Cristo. É mudança de vida, Metanóia, Quando Deus passa a ser o fim último da minha vida.
Este Sacramento da misericórdia de Deus tem vários nomes, a saber:
a.      Sacramento da Conversão, como chamado ao retorno à casa do Pai; é o convite de Jesus a Conversão.
b.      Sacramento da Penitência, como um esforço pessoal e eclesial para mudar a própria vida.
c.       Sacramento da Confissão, onde os pecados são acusados diante do Presbítero.
d.      Sacramento da Reconciliação, pois dá ao pecador, o amor de Deus que reconcilia, “... reconciliai-vos com Deus.” (2Cor 5, 20).
Este Sacramento junto ao Sacramento dos Enfermos é denominado, “Sacramentos da Cura”, pois traz o homem outra vez a sua condição salutar da alma e do Corpo. Vivenciar o Sacramento da Reconciliação é se colocar na dinâmica “kenótica”, do rebaixar-se, deixando de lado a autossuficiência e se reconhecer pecador, necessitado da misericórdia do Pai.
O Papa Pio XII, em 1946 num congresso para a catequese, afirma: “É possível que o maior pecado do mundo hoje, consiste em que os homens começaram a perder o sentido de pecado”. Falta o dado de responsabilidade, onde o se deveria olhar sobre si e não para as faltas do outro; uma reflexão sobre a própria vida e a existência, só assim haverá uma possibilidade de mudança radical de paradigma.

Como falar de pecado hoje?
São João afirma: “Se dissermos, não temos pecados, enganamo-nos a nós mesmos, e a verdade não está em nós”. (1Jo 1,8).
O homem pode ser condicionado por mais diversos fatores; mas a sua constituição como pessoa, não é compartimentada (psicológica, familiar, social, etc), ele é um todo que transita naquilo que de mais belo recebemos, que é a Liberdade de querer se mais, de dar um sentido para a própria vida. Ele é o grande sacramento de Deus no mundo, “tudo é vosso, vós, porém sóis de Cristo” (1Cor 3, 23). Por isso, somos mais que responsáveis por aquilo que fizemos.
Quanto maior a minha fé em Deus maior ainda será a minha consciência de pecado. O confronto com a Palavra de Deus (Dabar) interpela o homem para uma decisão de vida. O pecado é dizer não a Deus, não a comunidade, não a si mesmo; é uma decisão de distanciar-se de Deus, de excluí-lo como sentido último e radical da vida. Passando a compreender-se a partir de si mesmo, não a partir de Deus.
O pecado é uma ofensa a Deus, uma ruptura de comunhão com ele; e ao mesmo tempo com a Igreja. Por isso o perdão dos pecados, trás o perdão de Deus e a reconciliação com a Igreja, que é expresso pelo sacramento da penitência e da reconciliação. (Lumem Gentium [LG] 11; Catecismo da Igreja Católica [CEC] 1440). Pelo poder, concedido a Igreja de “Ligar ou Desligar”, da comunhão com Deus e com a Igreja.

Dimensões do pecado
Pessoal
O pecado e a liberdade são grandezas pessoais; trata-se de alguém com “este” ou “aquela” pessoa, em circunstâncias concretas, que diz não a Deus. Os atos em si, isolados, não dizem tudo; mas os mesmos, quando feitos em sequência tendem a dizer o nosso projeto fundamental de vida.
O pecado pessoal é quando o homem idolatra a criatura e se recusa a acolher Deus como sentido último de sua vida, “aversio a Deo et conversioad creaturas” aqui o pecado está expresso com opção fundamental, contrária a Deus.
Por isso o pecado situa-se primeiramente no sujeito, já que brota do coração, e não na matéria grave. É um ato Livre, Consciente e Responsável.

Social
O pecado afeta a toda comunidade, da mesma maneira como a ferida da mão afeta todo o corpo; pois o homem nunca está sozinho perante Deus, e a visão Bíblica confirma isso, já que ela fundamenta-se numa profunda experiência de Deus com o próprio homem.
Somos solidários em tudo, até no pecado, com afirma São João, ao dize que Cristo é aquele que tira “O pecado do mundo”.
Ele não fere somente a Deus, mas também o próprio homem, já que Deus doa-se ao homem através do homem, sobretudo em Cristo, e o ferimos quando rejeitamos o apelo de seu amor. O pecado é no fundo, um fechar-se em si mesmo, é o cristalizar-se do desamor no coração. O caminho mais fácil para experimentar-mos o amor de Deus, é amar o próximo com a si mesmo; e só assim seremos ponte e sacramento do amor de Deus para os outros. (Gaudium Spes [GS] 24).


Histórico
O homem é um ser inacabado, um constante “vir a ser”. Ele se realiza na história, num crescente e fecundo diálogo consigo mesmo, com Deus, com o próximo e com o mundo, nos altos e baixos da vida cotidiana.
A cada degrau da vida, Deus desafia o homem a sair de si, a se desinstalar-se e acolher novo, o diferente, não rejeitar o tempo oportuno da graça, o “kairós”, a hora oportuna; é sempre possibilidade e chance de ser mais. Por isso o pecado está em não reconhecer Deus, me interpelando em cada estágio da vida, e lá fazer uma obra de arte da vida e da existência.

“Tipos de Pecados”
Os Pecados Graves ou Mortais são aqueles que me levam a uma ruptura com Deus e sua aliança de salvação. Excluindo Deus com sentido último e radical, para a existência; é a indiferença a vontade de Deus, rompendo a amizade com Ele. Mas mesmo assim, enquanto vivos estamos, essa amizade não é rompida por definitivo.
 Os Pecados leves ou Veniais são aqueles que vulneram as relações com Deus, mas não o exclui da minha existência; e que caminhando entre os erros e acertos da vida, sou chamado a me encontrar com o Amado no cotidiano da vida. Esses pecados são aqueles que acontecem em momentos de raivas, brigas, posturas não refletidas, etc.

Só existe pecado grave, onde o homem é livre e rompe voluntariamente com Deus. São necessárias três condições para ocorrer um pecado grave, a saber:
a.      Matéria Grave;
b.      Conhecimento Pleno (inteligência);
c.       Consentimento Pleno (vontade).
A primeira condição diz respeito ao aspecto objetivo; e as duas últimas ao aspecto subjetivo. Faltando qualquer uma dessas condições, não se pode falar de Pecado Mortal ou grave.
O pecado é sempre um ato de irresponsabilidade, para com Deus, com próximo e consigo mesmo. Mas Cristo nos deixa, com a sua encarnação, a certeza do perdão, da volta para casa, basta somente um encontro do Pai, que espera, com o Filho rebelde que volta para casa.

Conversão
No centro da mensagem de Jesus, está indiscutivelmente o apelo a conversão, por isso, penitência e conversão fazem parte da vida cristã, “Se não vos converterdes e não vos fizerdes como crianças, não entrareis no reino dos céus”. (Mt 18, 3).
A primeira conversão se dá no Batismo, já que ele nos garante uma nova vida em Cristo, nos afasta do pecado e nos orienta a Deus. A conversão é uma decisão radical do homem para Deus, onde a criatura diz sim ao Criador, se deixando conduzir por Ele.
Seguir a Cristo é muito mais do que simplesmente imitá-lo; é se colocar no mesmo caminho do mestre e participar da mesma sorte que ele, na alegria de quem encontrou um tesouro, e por causa disso mesmo sou chamado a abandonar o pecado, pois foi encontrado um tesouro inestimável. 

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