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quinta-feira, 19 de maio de 2011

Crônica: "Marta & Maria"

Por: Leandro Cunha (Copyright © 2011)* 

A história do "povo de Deus" é longa, cheia de alegrias e tristezas, expectativas, dores, amarguras, esperança, vitórias e derrotas, fartura e miséria, angústia e ansiedade, mas é uma história de fé, 'muita fé.'
E essa fé é o combustível que move a caminhada desse povo  o antigo e o novo ao longo dos últimos milhares de anos. Santo Agostinho sempre nutriu um amor especial pela Igreja de Cristo. Para ele, a finalidade do cristianismo é preparar o homem para Deus. Agostinho é um dos pilares centrais dessa religião.

Quando morreu deixou uma herança intelectual fabulosa no campo teológico que vem sendo estudada por todos esses séculos. O famoso bispo de Hipona, como é conhecido, tem nos seus sermões e pregações o ponto alto de sua espiritualidade. Em Lucas 10, 38-42 temos o belíssimo texto sobre 'Marta e Maria', irmãs de Lázaro.

E Agostinho usou essa passagem bíblica por diversas vezes em seus discursos com o objetivo de atingir os corações de forma certeira e provocar reflexões. O que há por trás desse famoso diálogo entre 'Jesus, Marta e Maria' ?

O que nos chama a atenção são os versículos 40 - 42, quando Marta reclama para Jesus que Maria a deixa servir sozinha, não a ajuda. E a resposta de Jesus é profundamente significativa para Agostinho. Diz Jesus : " Marta, Marta estás ansiosa e afadigada com muitas coisas, 'mas uma só é necessária' e Maria escolheu a boa parte, 'a qual não lhe será tirada.'''

Algumas interpretações entendem que Marta representa o antigo comprometimento com a Lei judaica, onde o cumprimento das obrigações falava mais alto. Enquanto Maria significa a aplicação da boa nova, os novos tempos. Para Origines, por exemplo, Maria pode representar 'a vida teórica' e Marta 'a vida prática.' Marta seria a imagem da sinagoga e Maria a imagem da Igreja (que surgiria em breve).

Agostinho vai mais longe e busca uma 'interpretação positiva' para o desempenho das duas irmãs diante do Senhor. Para ele, Marta nos mostra o caminho ativo, o trabalho pastoral, de formiguinha, onde ficamos sempre ansiosos e cansados, pois temos que levar a Palavra do Senhor aos nossos irmãos, seja lá onde estiverem. Por outro lado, Maria nos mostra outro caminho de suma importância, a contemplação, a meditação, a reflexão.

São dois momentos distintos um do outro, mas altamente significativos. Enquanto o trabalho de Marta demanda o uso da palavra e das ações, o de Maria demanda o "saber ouvir", aprender a escutar e depositar as Palavras de Jesus junto ao coração para depois poder praticar. Marta tem uma vida (cristã) ativa e Maria uma vida contemplativa. Primeiro, é preciso aprender, tomar conhecimento, ouvir, para depois, então, sair em campo para evangelizar, ensinar, divulgar, promover, festejar e louvar. "Se você não for capaz de ouvir, não construirá nada". 

Em um de seus discursos, Agostinho frisa que o cristão deve concentrar sua preocupação no "unum necessarium" que encontramos, exatamente, nas palavras de Jesus no versículo 42. Mas o que é esse "unum necessarium"? Para ele,' nada mais do que Deus em si mesmo'. Pois Jesus deixa bem claro :
" uma só coisa é necessária".

O foco está na unidade encontrada no Pai, no Filho e no Espírito Santo. Ele enfatiza e sedimenta a Trindade.
Para ele, 'o uno é uma só realidade em três'.  A 'diversidade' que encontramos no Pai, Filho e Espírito Santo nos conduz à 'unicidade' em Deus. 

Agostinho entende que Marta e Maria simbolizam as duas vidas, a presente (daquela época) e a futura, depois da Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo. Marta significa o caminho, a via e Maria o "finis", o objetivo a ser alcançado. Marta representa a vida cheia de preocupações e anseios e Maria a vida de repouso fundada na beatitude. Ainda hoje, Marta representa aquilo que 'somos' e Maria aquilo que 'sabemos' que deveríamos ser. Marta representa este mundo e Maria o "mundo vindouro" no Reino de Deus.
Por isso, Jesus frisa que Maria ficou com a "melhor parte" a qual não lhe será tirada. 

Entretanto, para não permitir que haja distorção na interpretação, Agostinho faz questão de deixar bem claro que não pode haver uma entrega exclusiva à contemplação e registra a importância e necessidade do "serviço cristão", das atividades pastorais. Essas são interdependentes. Marta e Maria se completam. A 'vida cristã' começa em Maria e termina em Marta. "O destino do cristão, neste mundo, é o destino de Marta : servir ao Senhor, pois Ele ainda precisa e muito dos serviços 'dela' (nossos)". O bispo de Hipona afirma que tanto a ação em servir (Marta) quanto a contemplação (Maria) são vitais para o caminhar do cristão. Não é à-toa que o lema dos jesuítas é: "em tudo amar e servir"

*Leandro Cunha é escritor e graduando em Teologia na PUC-RJ, leia este texto e outros deste autor em: http://www.leandrocunha.recantodasletras.com.br/visualizar.php?idt=2975912

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