Ordem dos Frades Menores Conventuais - Custódia Provincial Imaculada Conceição - Franciscanos Conventuais do Rio de Janeiro - PAZ & BEM!!!

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Deixe a liturgia falar!







Por: Ione Buyst* 

Há alguns meses atrás, participei de uma missa e fiquei agradavelmente surpresa com a maneira de o padre presidir, concentrando-se em seu papel de presidência, sem interromper a toda hora a ação ritual com explicações ou introduções, 'homiliazinhas', brincadeiras, ou reclamações, como tantas vezes se vê por aí, banalizando a liturgia, impedindo o mergulho no mistério celebrado. Depois da missa, fui agradecer pelo momento espiritual simples e profundo que nos havia proporcionado. E ele respondeu: "Aprendi com uma comunidade religiosa da qual fui capelão. Um certo dia, me chamaram e disseram: Padre, não fale. Deixe a liturgia falar!"

Deixe a liturgia falar! Entre no seu ritmo ritual, dialogal! Não interrompa o diálogo da Aliança entre a comunidade e o seu Senhor. Sinta-se incorporado na assembléia, como parte dela, em toda simplicidade e autenticidade, objetivamente, tranqüilamente, sem autoritarismo e sem se preocupar em 'agradar' ou 'motivar' a 'platéia' e ser aceita por ela. Assuma o papel da presidência de uma comunidade, orante, ouvinte, cantante..., celebrando com ela e não para a mesma. Deixe que a pessoa do Cristo transpareça por você, lembrando as palavras de João Batista: É necessário que ele cresça e que eu diminua... (Cf. Jo 3,30). O momento é sagrado! A ação é decisiva para nossa vida. Estamos em contato com a seiva de nossas raízes, estamos sorvendo o sentido de nossa vida e de nossa morte, de nossos amores e desamores, de nossos empenhos, êxitos e fracassos... Estamos diante do Senhor, para sermos transformados/as 'pascalmente' por seu Espírito.  

Acredite profundamente naquilo que está realizando. Aprenda de cor os pequenos diálogos que fará com a assembléia, como a saudação inicial, a introdução ao evangelho, o diálogo inicial do prefácio, o convite à oração do pai-nosso, a apresentação do pão e do vinho eucaristizados, a bênção final... Não leia orações; mas ore, de verdade, ainda que use as palavras prescritas no missal. Não copie sua homilia da internet ou de algum subsídio, mas tome seu tempo para debruçar-se sobre as leituras bíblicas, procurando qual a Palavra viva do Senhor hoje para esta comunidade (da qual você faz parte!); não faça da homilia um discurso, mas uma conversa familiar em tom pessoal.

Não corra durante a oração eucarística, recitando-a de uma forma impessoal, numa corrida desenfreada a 'cento e vinte por hora', como se não tivesse valor nenhum, como se não fosse um diálogo com o Pai!  Não destaque de repente as palavras da narrativa da última ceia, mudando o ritmo e o tom de voz, como se somente estas palavras valessem a pena a serem proclamadas e ouvidas. E lembre-se de que não se trata de uma fala dirigida à assembléia, mas ao Pai, lembrando o que seu querido Filho nos mandou fazer!

Não descuide dos preciosos silêncios previstos no decorrer da ação litúrgica, como um dos elementos essenciais para podermos descer até o fundo do coração e ouvir aí a voz do Pai. Deixe-se 'contaminar' pela fé e o fervor da comunidade. Sintonize com o Sopro de Deus, o Sopro de Jesus, o Espírito Santo, que ora e canta em você e em toda a comunidade. Ele nos une, a todos e todas, num só corpo e num só Espírito.

Tudo o que foi dito até agora certamente vale também para os outros ministérios litúrgicos: por favor, não interrompam a ação litúrgica com comandos e explicações; deixem a liturgia falar por si.   



Perguntas para reflexão pessoal e em grupos:
1. Nós já tivemos a oportunidade de participar de celebrações tranqüilas, sóbrias, sem correrias, sem explicações?... O que ganhamos com isso? 

2. E os padres? O que poderia ajudá-los a descobrir o valor de uma liturgia que 'fale' por si? 


* Ione Buyst atua há muitos anos na formação litúrgica, tanto no campo acadêmico como no campo pastoral e popular. Durante dezoito anos coordenou um serviço arquidiocesano de pastoral litúrgica. É professora universitária, assessora treinamentos, encontros e cursos de teologia e pastoral litúrgicas a pedido de institutos de teologia, dioceses e regiões pastorais, congregações religiosas, movimentos interclesiais de comunidades de base.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

A História dos Frades Menores Conventuais

Os Franciscanos Conventuais são o tronco original da "Ordem dos Menores", que teve sua aprovação no dia 16 de abril de 1209 com o Papa Inocêncio III,  da qual brotaram as diferentes reformas ao longo da História Franciscana. Já a 5 de abril de 1250, o papa Inocêncio IV quis tutelar o eficaz trabalho pastoral dos Menores, declarando "conventuais" suas igrejas, quer dizer, concedendo-lhes a mesma prerrogativa que as colegiadas (paróquias diocesanas). Os frades, no entanto, só receberam tal denominação a partir da segunda metade do século XIV, para distingui-los dos que se retiravam em eremitérios em busca de uma melhor "observância" da regra.
Os religiosos que seguiam vivendo nos eremitérios, como nos tempos heróicos de São Francisco, eram muito poucos. A grande maioria, quer dizer os frades "da comunidade" estavam nas cidades, dedicados à pregação, aos sacramentos e aos ensinamentos. Empreitaram a construção e ampliação de grandes conventos, como os de Assis, Pádua, Veneza, Florença, Bolonha, Ferrara, Piacenza, Parma, Arezzo, Sena, Pisa, Palermo, Viterbo, Nápoles, Vicenza, Friburgo, Cracóvia, Colônia, Würzburg, Viena, Praga, Barcelona, Valencia, Sevilha, Paris, Oxford, etc. A Ordem fundada por São Francisco estava formada, em grande parte, por irmãos leigos, mas, um século depois de sua morte era uma Ordem douta e clerical, com dezenas de milhares de religiosos que serviam à Igreja em múltiplas atividades: pastorais, missionárias, diplomáticas, ecumênicas, universitárias, chegando muitos deles a ocupar cátedras episcopais, cardinalícias e inclusive papais.

MITIGAÇÕES E TENÇÕES
A sustentação de grandes conventos não permitia a observância da pobreza absoluta, mas os papas, interessados em manter os benefícios pastorais que sustentavam a Igreja, mitigaram com privilégios e declarações a observância da Regra. A isto se opuseram os frades Zelantes, Espirituais ou Fraticellitavam a Igreja, mitigaram com privilégios e declarações a observância da Regra. A isto se opuseram os frades Zelantes, Espirituais ou Fraticelli, partidários de uma 'pobreza' mais radical, sem interpretações pontifícias, até o extremo de acusar a Ordem de relaxamento no Concílio de Viena (1311-1312) e de negar ao Papa o direito de interpretar a Regra. Foi por esse motivo que o papa João XXII (1317-1318) acabou condenando os fraticelli como hereges.
Na mesma linha dos Fraticelli, mas com atitudes e comportamentos mais ortodoxos, em 1368 nasceram os Frades Menores Observantes ou da Regular Observância, por obra do beato Paoluccio Trinci. Estes tiveram mais êxito e foram crescendo e distinguindo-se cada vez mais do resto da Ordem, as vezes entre fortes tensões, até sua total independência (1517). Os Conventuais, no entanto, ante a pressão da Observância, trataram de eliminar os evidentes abusos, mas defenderam e continuaram aquela forma de vida que os permitia desenvolver dignamente as atividades tradicionais que a complexidade da Ordem e a Igreja requeriam. Convém recordar que, exceto Nicolau IV (Jerônimo Masci, 1288-1292) que era Minorita, foram Conventuais os papas Alexandre V (Pitros Philargis, 1409-1410), Sixto IV (Francisco della Rovere, 1471-1484), Sixto V (Félix Peretti de Montalto, 1585-1590) e Clemente XIV (Lorenzo Ganganelli, 1769-1774).
O irrefreável crescimento e separação dos frades da Observância provocou não poucas tensões entre ambas correntes da Ordem, já que estes, não conformando-se com os eremitérios, empreenderam ocupar também os grandes conventos urbanos dos Conventuais e a absorver todas aquelas reformas que preferiam seguir submissas ao Ministro Geral Conventual, como sinal de unidade e de comunhão com a Ordem. Na Espanha, os frades Conventuais ou Claustrais foram suprimidos, a instâncias dos Observantes, pelos Reis Católicos no início do século XVI, e por Felipe II em 1568.

SEPARAÇÃO E RENOVAÇÃO
Cinqüenta anos antes, a 29 de maio de 1517, o papa Leão X, com a bula "Ite vos", havia dividido definitivamente a Ordem em duas, obrigando as reformas menores a unir-se aos Observantes ou aos Conventuais. Foi um duro golpe para os Conventuais, que se viram obrigados a ceder a primazia e o título de Frades Menores aos Observantes. Não obstante, no século XVII e parte do XVIII, os Conventuais, purificados pelas provas de séculos anteriores, demonstraram uma grande vitalidade, como demonstra o testemunho de alguns santos e beatos daquele período. 
Por desgraça, o flanco crescimento da Ordem foi freado bruscamente pela Revolução francesa, das perseguições napoleônicas e dos governos maçônicos do século XIX e da supressão comunista das ordens religiosas em vários países do leste europeu. Tudo isso pôs em perigo a existência da Ordem mesma. Muitos religiosos se viram obrigados a secularizar-se e grande parte dos conventos foram transformados em quartéis, hospitais, escolas, asilos, cárceres, oficinas, etc. Os quase 30.000 membros com que contava a Ordem Conventual no século XV foram reduzidos, em 1883, a somente 1481. Entretanto, desde então não tem deixado de crescer e estender-se, sobretudo, ultimamente, nos continentes americano e asiático e no leste europeu, até alcançar o número atual de 4.500 religiosos. É o ramo menos numeroso da Ordem, mas está presente em todo o mundo.


PRESENÇA E ATIVIDADE HOJE NO MUNDO
A Ordem Conventual está atualmente comprometida com a Igreja nas mais variadas tarefas de apostolado, que são expressão de sua própria razão de ser. Centenas de Igrejas e 19 basílicas -as mais antigas da Ordem- são o campo de ação de uma intensa atividade litúrgica e pastoral. A cúria geral OFM Conv e os organismos diretivos têm sua sede na Basílica romana dos Santos Doze Apóstolos, confiada à Ordem por Pio II em 1463, depois que a sede anterior, Santa Maria de Araceli, foi entregue por Eugênio IV aos Observantes (1445). O coração da Ordem é, por outro lado, a Basílica de São Francisco em Assis, com o Sacro Convento anexo, declarado "Cabeça e Mãe" da Ordem pelo fundador da igreja Gregório IX em 1230, nas vésperas da transladação do corpo de São Francisco à mesma.
Os Conventuais têm também a seu cargo a Basílica de Santo Antônio em Pádua, meta de peregrinos de todo o mundo e centro de intensa atividade litúrgica, pastoral, cultural, editorial e caritativa; e a Basílica da Santa Cruz de Florença, verdadeira jóia da arte italiana, Santa Maria Gloriosa "dei Frari" de Veneza; e as igrejas de São Lourenço de Nápoles e de São Francisco de Bolonha e de Ravena (com a tumba de Dante Alighieri).
Trabalham, ainda, como penitenciários pontifícios na Basílica de São Pedro do Vaticano e regem a Pontifícia Faculdade de Teologia São Boaventura no Colégio "Seraphicum" de Roma, com sua filial de Pádua, o Instituto de Teologia "Santo Antônio Doutor" o Colégio São Máximo. A ele temos que acrescentar o instituto Teológico de Assis, agregado à Faculdade de Sagrada Teologia da Pontifícia Universidade Lateranense. Nas últimas décadas a Ordem Conventual tem redescoberto sua vocação missionária, abrindo novas Províncias e Custódias em todo o mundo.
O hábito conventual é o tradicional: túnica e capuz cinza com o cordão. Na época napoleônica trocou-se pelo preto, mas hoje se veste de cinza em vários países da Europa e no resto do mundo.

O HÁBITO FRANCISCANO
Por ser o primeiro que chama a atenção de quem se aproxima dos franciscanos, o tema do hábito suscita curiosidade e surpresa ao mesmo tempo, pois sua forma e cor variam segundo as distintas famílias franciscanas. Deve-se esclarecer, em primeiro lugar, que nenhuma das atuais Ordens ou congregações franciscanas, nem por forma nem por cor, veste o hábito de São Francisco, que era em forma de cruz e de lã cinza. O pano, com efeito, não era tingido, mas tecido com lã branca e negra natural misturadas que lhe dava o tom cinzento.
Há quem afirme que o Santo de Assis e seus companheiros no início não se vestiam de modo diferente dos pobres e camponeses de seu tempo, mas isso não é o que se deduz de seus escritos e biografias. É certo que o modo de vestir dos Frades Menores (túnica larga, capuz, cordão e calças) era mais pobre que o de qualquer religioso daquele tempo, mas não por isso deixava de ser um distintivo religioso que os diferenciava dos seculares.
As duas Regras de São Francisco e os biógrafos do Santo falam da humildade e vileza do hábito dos Frades Menores, sem oferecer detalhes quanto à cor ou à forma da túnica e do capuz, pois o mais importante para Francisco e para seus companheiros era a modéstia e a pobreza. A segunda Regra impõe aos frades não julgar nem desprezar "aos que vestem roupas nobres e coloridas", pelo que deduzimos que a cor devia ser natural. Graças aos biógrafos e às túnicas que se conservam de São Francisco sabemos que estas tinham forma de cruz ou de um TAU, como expressão de que o Frade Menor deve crucificar em si mesmo as paixões deste mundo.
Quanto à cor, só no Espelho de Perfeição lemos que o Santo preferia a cotovia entre todas as aves, porque "tem um capuz como os religiosos e é um pássaro humilde... Sua roupagem, ou seja, as plumas, têm a cor da terra, e ela dá exemplo para os religiosos de que não é necessário ter roupa nobre ou colorida, mas modesta no preço e na cor, como a terra, que é o elemento mais vulgar". A terra, porém, como todos sabemos, tem uma infinidade de tonalidades. Tomás de Celano, no Tratado dos Milagres, fala de um "pano cinzento" como o dos cistercienses da Terra Santa, que Jacoba de Settesoli trouxe de Roma a Francisco moribundo. A única referência à cor do hábito do Santo a encontramos na Crônica de Rogério de Wendover (morto em 1236) e de Mateus de Paris, onde se diz que "os frades que se chamam menores... caminhavam descalços, com cinturão de corda, túnicas cinzas, largas até os calcanhares e remendadas, com um capuz grosseiro e áspero".
Em um documento do ano 1233, o rei da Inglaterra ordenava ao visconde de Londres a aquisição de certa quantidade de panos, a metade de "blaunchet" ou branco para os Dominicanos, e a metade de "griseng" ou cinza para os Menores. Em 1259, o visconde de Cerwich comprava também certos tecidos de "russet" para as túnicas dos frades Menores de Reading. O "russet" era o "rusetus pannus" de cor avermelhada, resultado da mistura natural de lã branca e parda. As Constituições de Narbona de 1260 estabeleciam que "as túnicas exteriores não fossem nem totalmente negras, nem totalmente brancas", o qual dava uma ampla margem de tonalidades de cinzas. Nos afrescos de Giotto da Basílica superior de Assis podemos ver, em uma mesma cena, hábitos acinzentados e róseos, porém sempre em tons claros. As Constituições Farinerias del 1354 só impõem que os superiores não permitam o uso de tecidos com "fios de diferentes cores, nem demasiado próximos ao branco ou ao negro".
A variedade de tonalidades de hábito primitivo se devia, de um lado, à diversidade natural da cor da lã, de outro, ao fato de que os tecidos para as túnicas não eram confeccionados exclusivamente para os frades, mas estes os recebiam como esmola dos benfeitores. Eram eles, portanto, os que escolhiam a cor e a qualidade do tecido, embora sempre sob o controle do superior, segundo as Decretais de João XXII (1317) e Bento XII (1336).
Maior rigidez na cor se observa a partir da divisão da Ordem, ocorrida em 1517, sobretudo pelo valor simbólico do cinza, que recorda as cinzas e o pó de que somos feitos, e a penitência. O cinza foi a cor oficial para todos os franciscanos até meados do século XVIII. Tanto é assim que, devido às dificuldades para conseguir tal tecido em quantidade suficiente, houve um momento em que as Constituições dos Observantes e dos Capuchinhos ordenaram que cada província fabricasse seus próprios tecidos para conseguir a máxima uniformidade. O capítulo geral de 1694 da Regular Observância, por exemplo, ordenava "fabriquem-se tecidos em tudo semelhantes na cor e qualidade, na trama e na textura, tecidos com lã branca e negra misturada em tal proporção que resulte, a juízo dos especialistas, um pano cinzento como o vemos nos hábitos e capas de N. P. S. Francisco, S. Bernardino de Sena e S. João de Capistrano, os quais, embora se conservem em províncias e países diferentes, são de uma mesma cor cinza, mais ou menos claro".
Nos Frades Menores Conventuais se nota certa tendência ao negro já na segunda metade do século XVIII, embora suas Constituições Urbanas, na edição de 1803 impunham o hábito da cor das cinzas. Esta prescrição desapareceu na edição de 1823, em parte porque com a supressão napoleônica, havendo-se extinguido as corporações religiosas, seus membros se viram obrigados a assumir o hábito talar negro do clero secular. Restaurada a Ordem, os frades preferiram continuar com a cor negra, ainda que hoje o cinza se está recuperando novamente, de maneira que assim se vestem quase todos os conventuais da Ásia, África e América, assim como os da Austrália e algumas províncias européias.
Os Frades Menores Observantes passaram da cor cinza a marrom há pouco mais de um século, na segunda metade do século XIX. Iniciou-se na França e se impôs para toda a Ordem no capítulo de Assis de 1895, quando Leão XIII reunificou em uma só as diferentes famílias reformadas: observantes, alcantarinos, recoletos e reformados ("A cor artificial das vestes exteriores se pareça à cor da lã natural negra com tendência ao vermelho, cor que em italiano se chama marrone, e em francês marron").
Os Frades Menores Capuchinhos seguiram de algum modo a evolução dos Observantes, embora, para evitar qualquer diferença local, em 1912 se estabeleceu que a cor do hábito tinha que ser castanha, a mesma que a dos observantes, contudo algo mais amarelado ("a cor deve ser castanha, em italiano castagno, em francês marron, em inglês chestnut, em alemão kastanienbraun, em espanhol castaño").
O mais parecido na forma ao de São Francisco é o hábito dos Capuchinhos, por seu capuz alongado e costurado ao pescoço da túnica. O hábito dos Observantes se distingue por ser mais ajustado e pelo capuz solto que cai sobre os ombros em forma de caparão curto na frente e nos lados, e alongado atrás, até a cintura. O hábito dos Conventuais é parecido ao dos Observantes, porém o capuz é menor e o caparão mais baixo, até quase tocar os cotovelos (na regra diz: "caparão até o cíngulo"). O hábito dos Terciários Regulares ou frades da TOR era até poucos anos atrás da mesma forma e cor que o dos Conventuais, mas agora voltou à cor tradicional cinza, com caparão baixo e pontiagudo por trás e pela frente.
Mais recentemente surgiram algumas congregações franciscanas com hábitos diferentes, mas muito semelhantes aos já citados, com túnica e capuz cinza ou marrom. Há, no entanto, também tendendo ao celeste, como o dos Franciscanos da Imaculada, e inclusive de cor verde. Não obstante, apesar de as diferenças de forma e cor, o distintivo comum de todos os franciscanos e franciscanas, que os faz diferentes de qualquer outra Ordem ou Congregação da Igreja, é o uso exclusivo do cordão de lã branca, que Francisco escolheu para cingir a cintura, para cumprir fielmente o mandato de Cristo, que enviou a seus apóstolos pelo mundo "sem nada pelo caminho", nem sequer o cinto (cf. Mt 10).
Quanto ao calçado, São Francisco caminhou sempre descalço, de acordo com o mandato de Jesus aos apóstolos: "não leveis sandálias..." Só nos dois últimos anos de sua vida, para ocultar as vendas ensangüentadas pelos estigmas dos pés, teve que levar sapatos de pele ou de pano, como se pode ver nas relíquias de Assis. A Regra só diz que os frades podem usar calçados em caso de necessidade. As sandálias, entretanto, se impuseram rapidamente, como se pode ver nas pinturas de Giotto, onde todos os frades, exceto Francisco, carregam o mesmo modelo. Mais tarde, os reformados que viviam nas ermidas começaram a usar certas sandálias com solas altas de madeira chamadas tamancos ou "zoccoli", daí que na Itália, os Observantes fossem também conhecidos por muito tempo como frades "zoccolanti" (zocolantes).






http://www.matrizubatuba.com.br/ofmconv/ofmc.htm

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Vestes Litúrgicas: Casula



História da Casula
A casula origina-se da antiga vestimenta romana, o byrrus ou paenula, uma espécie de manto em forma de poncho que os homens vestiam sobre suas túnicas. Tal veste era de uso corrente no âmbito civil romano entre os séculos III-VI. Entre os séculos VI e VII, com a adoção da indumentária germânica (túnicas masculinas mais curtas acompanhadas de calças, mantos com aberturas no braço direito, etc) aos costumes romanos, a paenula foi paulatinamente sendo reservada ao uso eclesiástico, haja vista que os clérigos mantiveram o costume indumentário romano. No mosaico do século VI retratando a corte do Imperador Justiniano na Basílica de São Vital em Ravena, já é possível distinguir perfeitamente as vestimentas dos leigos e dos clérigos. Contudo, há menções a um antigo retrato de finais do século VI do Papa São Gregório I Magno junto com seu pai e ambos estão vestindo a paenula, muito embora o pai de São Gregório fosse leigo. Portanto, esse processo foi lento e não ocorreu simultaneamente em todas as regiões.

Mosaico do século VI em Ravena retratando a passagem bíblica da oração do fariseu e publicano, representados com trajes civis romanos.

Mosaico do século V na Basílica de Santo Ambrósio em Milão retratando Santo Ambrósio.

Mosaico do século VI retratando a corte do Imperador bizantino Justiniano I, Basílica de São Vital, Ravena. Note-se que já é possível distinguir os trajes civis dos eclesiásticos. O Arcebispo Maximiano é o único a estar vestindo a paenula.
Tendo sido reservada para uso litúrgico em meados do século VI, até o período carolíngio (séculos VIII-IX) a casula ainda será de uso geral para todos os ministros litúrgicos em algumas regiões. Somente no século IX que se torna veste exclusiva dos sacerdotes. Roma, contudo já seguia essa norma depois do século VII. É durante o período carolíngio também que as casulas sofrerão as primeiras modificações da decoração e formas. Para facilitar a movimentação dos braços, encurta-se um pouco nos lados ou na parte frontal.

Pintura do Saltério de Carlos, o Calvo, século IX. Nela podemos ver as casulas dos Bispos com encurtamento frontal.
Pintura do Evangeliário de Otto III, cerca do ano 1000. Nela vemos a casula do bispo com leve encurtamento lateral.
Ainda se usavam também as casulas cônicas, que se estendiam inteiras até os pés tal como a antiga paenula. A casula cônica será característica do período românico até o século XII (embora as outras duas formas mencionadas também ainda fosse usadas), quando será substituída pelo modelo gótico, que encurta um pouco os lados dos braços nas barras. O modelo gótico perdurará no Ocidente até o século XV, sofrendo apenas variações na sua decoração, mas havendo uma grande uniformidade na forma.

Vitral do século XII na Abadia de St-Denis retratando o Abade Suger. A Casula já segue o modelo gótico.

Detalhe de um afresco de Giotto na Basílica de São Francisco em Assis, século XIV. Nela vemos um presbítero usando uma casula gótica ricamente decorada.
A partir do século XVI, por maior praticidade, passa-se a encurtar cada vez mais as laterais das casulas, até que em finais do século XVII chega-se ao modelo hoje conhecido como casula romana e que foi o mais utilizado no Rito Romano até o Movimento Litúrgico do século XX recuperar o uso das casulas góticas, que se tornaram novamente comuns após a reforma litúrgica de 1969. Contudo, as casulas góticas atuais geralmente são mais simples e de tecidos mais leves que as medievais. Há também as casulas semi-góticas surgidas no século XX que consistem em uma versão mais curta da casula gótica.

Pintura do século XVII retratando São Felipe de Néri. Nela já vemos um modelo de casula bastante encurtado nas laterais dos braços.

Pintura de Jeronimo Jacinto, século XII, retratando uma Missa. Nela vemos o modelo de casula que originou a conhecida casula romana.

Fotografia da década de 1960 de São Josemaría Escrivá celebrando Missa usando uma casula neo-gótica.

Uso na forma ordinária

A casula é usada sempre sobre alva e estola, preferencialmente com amito e cíngulo; por conta do seu significado atrelado ao sacrifício, a casula é usada unicamente na missa. Única excessão é a celebração da Paixão no Senhor, na qual não se celebra verdadeiramente a missa, apenas recorda-se da Paixão Salvífica de Cristo.
O bispo, nas missas mais solenes, usa casula sobre a dalmática. Nas concelebrações, por conta de um número elevado de concelebrantes, esses podem ser dispensados do uso da casula, não porém, o celebrante principal.
Entretanto, seria louvável que as dioceses tivessem conjuntos de casulas no número dos seus padres. Ainda que simples e todas da cor branca, elas proporcionariam uma beleza visual na uniformidade das vestes dos concelebrantes, além de mostrar maior clareza na unidade sacerdotal.

Sua Santidade durante a celebração da Paixão do Senhor
Durante as procissões e para a bênção do Santíssimo Sacramento usa-se pluvial da cor da missa em que se encontram. Retira-se, ainda, a casula para o lava-pés, para a unção do altar e para a adoração da cruz na celebração da paixão.

Retirando-a para a unção de um altar
Além disto, não retira a casula para nenhum outro rito durante a celebração da Santa Missa.

A transladação do Santíssimo Sacramento, na Quinta-feira Santa, é feita com véu umeral sobre a casula e não sobre o pluvial

Uso na forma extraordinária
O uso é semelhante ao da forma ordinária, com algumas poucas modificações.No início da celebração, para o rito de asperges, usa-se pluvial. Na celebração da paixão, só se usa casula durante uma das partes da liturgia. Na vigília pascal, a casula é retirada em certos momentos; por exemplo, se não há dioácono, o celebrante retira a casula e veste dalmática para a proclamação da páscoa.

Padre vestindo a casula após retirar o pluvial, usado durante o rito de asperges
Os sacramentos que ocorrem durante a missa e a homilia, não são consideradas partes da mesma. Todavia, o sacerdote não retira a casula em nenhuma dessas ocasiões. Para a homilia, pro exemplo, retira apenas o manipulo. Para os sacramentos que são realizados imediatamente antes da celebração da missa, usa-se pluvial geralmente.
Existe ainda uma permissão para o uso da casula quando não se celebra a missa, numa situação muito particular: para se impor as mãos sobre os que vão ser ordenados presbíteros pode-se usá-la sobre estola e sobrepeliz; mas apenas durante o rito, pondo-se antes e retirando-se depois. Para a procissão do Santíssimo Sacramento usa-se casula com véu-umeral, semelhante à transladação do Santíssimo na forma ordinária.
Recebimento da casula
A casula é vestida pela primeira vez na ordenação presbiteral. Logo após a imposição das mãos e oração consecratória, o padre retira a estola diaconal, põe a presbiteral e, sobre ela, a casula. Posteriormente, segue o rito de ordenação com a unção das mãos.
Na forma extraordinária, o sacerdote recebe a casula amarrada na parte posterior, sendo chamada casula plicada. Ele permanece com ela do momento que a recebe até o final da celebração. Quando o bispo diz sobre ele a oração: "Recebei o Espírito Santo, aqueles a quem perdoardes os pecados, eles serão perdoados; aqueles a quem não perdoardes, eles serão retidos." Então as casulas são desamarradas.

padres com casula plicada

ao final da celebração, os novos sacerdotes tem as casulas desamarradas
na forma ordinária, o neo-sacerdote usando casula sem amarras desde a recepção

Oração ao paramentar-se


"Domine, qui dixisti: Iugum meum suave est, et onus meum leve: fac, ut istud portare sic valeam, quod consequar tuam gratiam. Amen."


"Senhor, que dissestes: O meu jugo é suave e o meu peso é leve, fazei que o suporte de maneira a alcançar a Vossa graça. Amém."


A oração para vestir a casula é a última parte da grande oração para paramentação, conlui-se com "Amen". Ela fala da casula como "julgo suave de Cristo" e recorda a cruz que aparece em vários modelos.


Alguns equívocos em relação aos modelos de casula
  • Na forma ordinária usa-se casula gótica e na forma extraordinária, romana.
Errado. Todos os modelos de casula (gótica, romana, neo-gótica, etc) podem ser usados em ambas as formas do rito romano. Igualmente, ambas podem ser usadas pelo bispo com dalmática pontifical.

Dom Raimund Burke celebrando com casula neo-gótica na forma extraordinária

João Paulo II celebrando, na forma ordinária, com casula romana.

  • Os (con)celebrantes devem usar todos o mesmo modelo de casula
Errado, mas com ressalvas. É, sim, permitido que, numa mesma celebração, alguns sacerdotes usem um modelo de casula e outros usem outro. Por exemplo, o bispo usa casula gótica e os seus sacerdotes, casula romana; ou ainda, os já sacerdotes usam casula romana e os que se estão ordenando, gótica. O que não se pode fazer é misturar dois ou mais modelos, se disso resultar uma combinação desarmônica, que fuja ao bom senso litúrgico.


O celebrante endossa casula romana e os concelebrantes usam góticas

  • Casula é diferente de planeta (pianeta)
Não exatamente. Casula (gótica) e planeta (romana) já foram tidas como peças sensivelmente diferentes. Por algum tempo o sacerdote para usar a casula gótica necessitava da autorização do ordinário do lugar. Atualmente, depois da publicação do missal de 1962, os dois modelos foram equiparados em todos os aspectos. Sendo assim, casula e planeta podem ser tratador como sinônimos, por mais que alguns usem cada um dos nomes para se referir a um modelo.

  • Quando se usa casula, a estola é dispensável
Errado. Sempre que se usa casula é obrigatório o uso da estola. O Galão é um ornamento presente na casula que não faz as vezes da estola, sendo assim não se pode suprimir a estola por conta desse elemento. Vale a pena ressaltar ainda que a estola usa-se sempre sob a casula e nunca sobre ela.


Fotos de diversos modelos na atualidade


Papa Bento XVI usando uma casula gótica verde.
Usando casula branca (tons de dourado) durante a benção na Páscoa.
Bordado de cruz em casula romana, simbolizando o julgo suave de Cristo.

Casula romana com gola redonda.

Cardeal com casula romana com gola em trapézio.

Papa Bento XVI usando casula gótica com galão, decoração em forma de coluna.
Casula com cruz trífida, que nasce como uma faixa indo até o pescoço, ramifica-se nos ombos e volta a juntar-se nas costas.


Caráter Sacrificial e obrigatoriedade da casula
No decorrer dos séculos, como vimos, a casula teve seu uso resumido aos sacerdotes. Não tardou para que fosse atruído à casula uma imagem de "veste do sacerdote". A casula foi comparada o manto que deveriam usar os judeus ao imolar o cordeiro para a páscoa, como foi ordenado na lei de Moisés. Assim como faziam os sacerdotes daquele povo, fazem os do povo cristão: imolar o cordeiro estando cingidos e vestidos com o manto.
A relação entre casula e o caráter seu sacrificial é tão notável, que alguns protestantes deixaram de usar a casula para indicar que não se realizava ali verdaeiramente um sacrifício. A omissão da casula, por mais que não deva ser diretamente relacionada com a negação desse dogma, deixa de expressar essa belíssima realidade presente na Santa Missa que é a celebração do sacrifício incruento de Cristo.


Representação de Cristo com vestes pontificais, indicando assim que é o Sumo-sacerdote. Ele usa alva, estola, tunícela, dalmática e, sobre tudo isso, a casula.

Ademais, a casula é prescrita nas rubricas como veste de uso obrigatório para a celebração da missa. Diferentemente da dalmática, a casula não é veste festiva, mas veste diária; o que não impede que se tenha casulas mais enfeitadas para as solenidades e mais simples para as missas diárias.


Bibliografia

História da Casula

Por Rafael Diehl

  • RIGHETTI, Mario. Historia de La Liturgia. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos, s/d;
    JUNGMANN, Josef Andreas. Missarum Solemnia: Origem, liturgia e história da missa romana. São Paulo: Paulus, 2009.
Demais ítens

Por Kairo Neves
  • Caeremoliane Episcoporum 56, 62, 65, 66, 301, 322, 534, 902, 946;
  • Introdução Geral do Missal Romano 119, 209, 336, 337;
  • Curso de Liturgia do Padre Reus, caput II.

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